(Foto: Thiago Borges / Periferia em Movimento)

“Mexer com os estudantes é mexer com Satanás!” No Extremo Sul de São Paulo, estudantes se somam à luta de secundaristas de todo Estado ampliando as pautas de reivindicação: há duas semanas sem transporte escolar, ocupam diretoria de ensino e arrancam transporte para voltar às aulas

Jéssica Rodrigues, 17 anos, acordou cedo e foi à luta – literalmente. Na manhã desta quinta-feira (05 de maio), ela se juntou a outras dezenas de adolescentes e pais para garantir seu direito à educação nos bairros mais afastados do centro da capital paulista.

“Acabou a paz: mexer com os estudantes é mexer com Satanás!”, cantavam os adolescentes acompanhados de batuques e apitos, enquanto ocupavam a Diretoria de Ensino (DE) Sul 3, responsável pela gestão das escolas estaduais de todo Extremo Sul de São Paulo.

Geraldo Alckmin que o diga: o governador tucano saiu ileso diante da maior seca da história de São Paulo, dos índices alarmantes do genocídio nas quebradas e das denúncias do cartel no Metrô, mas desde o ano passado tem sido obrigado a recuar com a luta de secundaristas – primeiro contra a reorganização, agora contra a máfia da merenda e os cortes nas escolas técnicas estaduais.

No Extremo Sul, a pauta é ainda mais ampla: por aqui, estudantes de Barragem, Nova América e Colônia (bairros do distrito de Parelheiros localizados a 50 quilômetros do marco zero da cidade) estão há pelo menos duas semanas sem o busão gratuito que leva e traz a molecada das escolas.

“Tá tendo aula, mas não tem transporte pra gente se locomover”, diz Jéssica, que mora no Barragem e estuda na EE Joaquim Álvarez Cruz, distante cinco quilômetros de sua casa.

Apenas nessa escola, 580 alunos estão sem frequentar as aulas no período da manhã e mais de 1.000 no noturno. Segundo moradores, 23 escolas da região foram afetadas pela falta do transporte.

“Eles dizem que não vão prejudicar a gente, não vão dar falta nem nota vermelha, mas a gente deixar de ir à escola já está sendo prejudicado”, completa Karina, 17, que também mora na região.

“Não era necessário a gente estar aqui pra reivindicar isso”, observa Claudemir, 18. “É uma palhaçada”.

De acordo com Silvio José, pai de cinco alunos de escolas estaduais, o serviço de transporte escolar foi interrompido de um dia para o outro, sem aviso prévio. “A criançada foi prejudicada por isso”.

Segundo o supervisor da DE Sul 3, que não quis se identificar, a empresa perdedora em licitação recente para escolha da prestadora de serviços entrou com uma liminar judicial contestando a decisão. Nesse período, a Secretaria da Educação autorizou contratar sem licitação e em caráter emergencial a empresa Transbrat, que vai operar o serviço por 121 dias.

A contratação foi publicada nesta quinta no Diário Oficial do Estado e a DE Sul 3 promete que os ônibus estarão circulando amanhã (06 de maio), pela manhã. As escolas têm poucas horas para convocar reuniões com os pais e representantes da Transbrat para comunicar a volta dos ônibus.

“Não acreditei na promessa. Não vão conseguir uma reunião para essa tarde”, contesta Thayná, 17.

Céticos, os secundaristas pretendem esperar até esta sexta para ver o serviço funcionando. E, se não rolar, pretendem voltar e ocupar a DE na semana que vem.

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Terra esquecida

A luta de moradores nessa borda da cidade não é de hoje. Por ficarem próximos a mananciais e área de proteção ambiental, os bairros da região não recebem serviços como o transporte público, por exemplo. Uma única linha de ônibus liga o Barragem ao Terminal Parelheiros. Mesmo assim, 10 mil pessoas que vivem em localidades ainda mais isoladas precisam caminhar até três horas para pegar o busão.

Após uma série de ações – como acorrentamentos na porta da Prefeitura de São Paulo, criação de linhas de ônibus populares e tarifa zero e audiências públicas com Fernando Haddad –, em 2015 a Luta do Transporte no Extremo Sul conquistou a implementação de dois itinerários em outros bairros de Parelheiros (Bosque do Sol e Parque Oriente). Mas o Barragem continua à espera.

Enquanto isso, a população local enfrenta outro problema: a falta de escolas. Em 11 de novembro de 2014, a EE Professora Renata Menezes dos Santos foi destruída por um incêndio e mais de 600 alunos foram remanejados para a EE Joaquim Álvarez da Cruz.Desde então, um mesmo prédio abriga dois colégios distintos. Saiba mais aqui.

Mesmo funcionando em outro espaço, a escola incendiada não recebeu nenhum material para 2015 e teve todos os funcionários de limpeza demitidos. A nova unidade da EE Renata deve ser construída somente neste ano, conforme promete da Secretaria de Educação.

Sem linhas de ônibus nem escola perto de casa, o transporte escolar é a única alternativa para quem deseja manter os estudos. “A gente mora num lugar perigoso, escuro, tem mato por todo lado. A gente entra às 19h e sai às 23h, mora longe, então não tem como ir a pé”, completa Jéssica. Por essas e várias outras, não tem arrego.