Colaboração de Julia Vitoria

Edição de texto: Thiago Borges. Artes: Rafael Cristiano

Joelma da Silva, de 35 anos, não vai ao mercado há 2 meses. Desde que seus bicos de faxina pararam por conta da pandemia, ela conta com a ajuda da igreja, de parentes e pessoas voluntárias e com a revenda de produtos de beleza para alimentar as 4 crianças de quem é mãe solo. 

“O gasto também é grande. R$ 29,50 na lata de leite da farmácia. No mercado, [custa em torno de] R$ 35 a R$ 38 na lata do Ninho. A gente sabe que está tudo muito caro. A gente vai com R$ 100 e não compra quase nada”, conta a moradora do Jardim Lucélia, no Grajaú (Extremo Sul de São Paulo). 

Este conteúdo aplica Linguagem Neutra. Saiba mais aqui!

A merenda oferecida no recreio da escola poderia ser uma alternativa para amenizar o impacto no orçamento familiar. E mais de 1 ano depois do início da pandemia, 2,3 milhões de estudantes em todo o País ainda estavam sem as refeições que recebiam na escola, de acordo com dados de junho do Painel de Monitoramento da Educação Básica no Contexto da Pandemia, da Universidade Federal de Goiás (UFG) com apoio do MEC. 

“Já que esse dinheiro estava sendo usado para alimentação de uma criança em todo seu período de aula, o que aconteceu que esse dinheiro não foi destinado às famílias?”, questiona Estela Cunha, pedagoga e moradora do Grajaú. 

“No ano passado na pandemia, houve um abandono total em relação a alimentação desses alunos e dessas alunas que não estavam na escola. Eu não tenho conhecimento de nenhuma família ou estudante que recebeu”, observa Suzane Costa, moradora e professora de uma escola municipal no Jardim São Luís (zona Sul paulistana). 

Na verdade, a Prefeitura de São Paulo aponta que mais de 1 milhão de estudantes da rede municipal receberam um cartão-merenda com valores entre R$ 55 e R$ 101 por mês – um investimento total de mais de R$ 1 bilhão desde o início do projeto.

Mariana Raiane, 23, com seus dois filhos de 4 e 7 anos cada (foto: arquivo pessoal)

Mariana Raiane, 23, recebe o benefício pelo filho de 1 ano, que não voltou pra creche. O filho mais velho, de 7, voltou para as aulas presenciais desde o começo do ano e não foi contemplado no projeto. Enquanto isso, a mãe ainda aguarda o depósito do auxílio do caçula referente ao mês de agosto. 

Segundo a Prefeitura de São Paulo, o contrato com a empresa responsável pelo pagamento foi encerrado no último dia 10 de agosto. O comunicado diz ainda que o saldo no cartão deveria ser usado até o dia 22 deste mês – no dia 23, o crédito existente seria cancelado. No entanto, a nota não diz quando o repasse de agosto será depositado.

Essa não é a única pressão que acomete Mariana. “Antes da pandemia, era melhor né? Agora me sinto mais cansada, porque vem pro serviço, cuida das crianças, faz comida… Sou eu sozinha para comprar as coisas para eles”, observa a auxiliar de serviços gerais, que mora no Capão Redondo.

Joelma da Silva, 35, Ana Cláudia 8, Matheus 5, Laura e Lucas 1 ano e 5 meses (foto: arquivo pessoal)

Joelma também recebe o cartão-merenda e isso tem ajudado a segurar as pontas e dado certa autonomia. Mesmo com a volta das aulas presenciais, a mãe decidiu não enviar a filha mais velha Ana Claudia, de 8 anos; o filho do meio, Matheus, de 5; e um dos caçulas, o Lucas, de 1 ano e 5 meses.

Além do medo de infecção pela covid-19, o colégio fica distante da casa. Enquanto tenta conseguir o transporte escolar gratuito para as 3 crianças, ela também aguarda vaga na creche para Laura, a outra gêmea caçula.

Já os filhos de Marina Cordeiro, 34, estão frequentando as aulas presenciais semana sim, semana não. Durante a pandemia, Marina e seu marido perderam os empregos e começaram a se virar como podiam para pagar as contas e manter Alex, de 16 anos, e Luciano, de 6. 

“[Nesse período] Eu recebi o cartão Alelo da merenda e veio uma vez a cesta básica para ele [filho]. Eu gostei da cesta, supriu bem nossas necessidades”, conta Marina, que apesar da satisfação lembra que certa vez veio uma linguiça com a data de validade vencida. Agora, ela própria atua em uma escola por meio de um programa da Prefeitura e percebe a importância e qualidade de merenda escolar.

Insegurança alimentar

Segundo dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) de setembro de 2020, metade das crianças menores de 5 anos do país (ou 6,5 milhões de crianças nessa faixa etária) viviam em domicílios com algum grau de insegurança alimentar. Em todo País, 19 milhões de pessoas passaram fome nos últimos meses.

“Me parte o coração encontrar minhas crianças com aspectos tão vulneráveis. Eu lamento muito pela escola pública não ser esse ambiente seguro para as crianças, mas eu defendo que ela deveria”, diz Suzane, que encontra estudantes que chegam às aulas com fome. “É um paradoxo para mim. Sou contra (o retorno das aulas), mas lamento pelas escolas não terem tido essa preocupação do ambiente precário que ficou ainda mais precarizado”. 

A insegurança alimentar é o termo utilizado quando uma pessoa não tem acesso regular e permanente de alimentos em quantidade e qualidade suficientes para sua sobrevivência. Também está relacionada à variedade e a qualidade daquilo que é consumido. 

A alta do preço dos alimentos fez com que muitas famílias passassem a consumir somente comidas ultraprocessadas, que apresentam alta densidade energética, teores elevados de gordura, açúcar ou sal e escassez de fibras – uma enorme contradição, já que o Brasil é uma das maiores potências agropecuárias do mundo. 

Com recordes em produções agrárias, como o milho e a soja por exemplo, que alcançaram sua maior produção de todos os tempos no ano de 2020, o setor agropecuário tem preferido ampliar o cultivo desses produtos, deixando de lado alimentos cruciais para os brasileiros como feijão e arroz. 

Ainda durante o ano passado, entre fevereiro e outubro, o preço do pacote de 5kg de arroz subiu 71%, segundo o ProconSP. Não ficando muito atrás, o pacote de feijão subiu 66%. Isso reflete na inflação, que atingiu o maior patamar em 19 anos, de acordo com dados divulgados nesta quarta-feira (25/8). Os preços acumulam alta de 9,3% em 12 meses. 

Ações de solidariedade têm sido fundamentais para combater o problema, mas ainda são insuficientes. “A cesta básica mata a fome inicialmente”, afirma Estela, que desde o início da pandemia esteve à frente de campanhas de doação pela UniGraja – Universidade Livre Grajaú e coletiva Orgânicos para Todes. Com a diminuição das arrecadações, as entregas que eram semanais passaram a ser mensais. 

Este conteúdo tem o apoio da Fundação Maria Cecília Souto Vidigal. Nas próximas semanas, serão publicadas novas reportagens sobre Primeira Infância, Escola e Direitos Humanos. Acompanha em nossas redes.

Deixe um comentário

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

ALERTA! Coronavírus e as quebradas

Confira nossa cobertura

Apoie nossa cobertura jornalística

Ajude-nos no Catarse Doe
Receba notícias no WhatsApp Notícias no WhatsApp
%d blogueiros gostam disto: