Texto por Thiago Borges. Idealização, pesquisa e reportagem por Lucimeire Juventino. Roteiro: Thiago Borges. Edição de vídeo por Pedro Ariel Salvador

Com 57% de negros entre a população de 146 mil habitantes, Parelheiros é o distrito mais negro da cidade de São Paulo. E aqui, na zona rural paulistana, dona Maria Garcia Afonso passou boa parte da vida morando e trabalhando ainda criança. Em olarias de tijolos, o serviço começava à 01h30 da madrugada e ia até as 18h30. Nos fornos de carvão da região, a jornada era das 06h às 18h.

Sem ver a cor do dinheiro, que ficava com o pai pra sustentar a família, aos 20 anos ela saiu de Parelheiros e foi trabalhar como empregada doméstica em casas “de família” na região central. Em mais de 40 anos de trabalho, passou por 03 casas diferentes até se aposentar.

Hoje, vive em um apartamento alugado nas proximidades do terminal Grajaú – também no Extremo Sul –, e quando possível “viaja” até o Vargem Grande pra visitar as amigas e tomar uma Coca-Cola. Questionada se há igualdade, ela aponta que as riquezas do território vão parar nas mãos dos brancos.

Dona Maria Afonso é a sétima entrevistada de “Matriarcas”. Idealizada pela escritora e professora Lucimeire Juventino e realizada pela Periferia em Movimento, nesta série de reportagens contamos histórias de mulheres que cavaram os alicerces de lutas por direitos que continuam fortes até os dias de hoje.

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Terceira filha em uma geração de 07 mulheres e 05 homens, ela nasceu em 1943. Os pais vieram do interior de Minas Gerais para trabalhar no terreno de descendentes de alemães. A região de Parelheiros foi inicialmente ocupada no início do século 19, quando o imperador Dom Pedro I doou terras para colonos alemães – o que marcou a história local.

O território entre mananciais que abastecem as represas Billings e Guarapiranga, em áreas de proteção ambiental que guardam remanescentes da Mata Atlântica, foi ocupado desde então por imigrantes de outras origens – como japoneses, espanhóis, portugueses. E o povo indígena guarani-mbya também se fixou por aqui, a partir do século 20, e hoje tem 09 nove aldeias espalhadas pela região.

Por outro lado, a forte presença da população negra não é acompanhada de um registro histórico tão preciso. A mais de 40 quilômetros do centro da cidade de São Paulo, dona Maria relata que nunca entendeu muito bem essas relações.

Não tinha tempo para ir à escola estadual Dona Prisciliana Duarte de Almeida, a mais antiga do bairro, e por isso não foi alfabetizada. De vez em quando, ia passear na praça da igreja central de Parelheiros. E as notícias mal chegavam, afinal só pegava um radinho de pilha tocando música caipira.

O trabalho começou cedo. Desde criança, ela e os 11 irmãos iam pra lida com os pais em diferentes propriedades de donos brancos. Fez tijolo e carvão em diversas localidades, mas nunca soube para onde toda essa produção era escoada.

Já adulta, começou a trabalhar como empregada doméstica e passava a semana na casa dos patrões – só voltava para Parelheiros no fim de semana. Até que conheceu o ex-marido numa venda no bairro do Embura, em Marsilac, com quem se casou e teve 06 filhos. De lá, moraram em Santo Amaro e, hoje, ela é viúva e paga aluguel em um apartamento no Jordanópolis (próximo ao Grajaú).

Nas mãos que manejaram tijolos e carvão com destino desconhecido até os filhos de patroa que ela embalou no colo, dona Maria traz as marcas de quem construiu uma cidade que desfrutou apenas da janela de casa ou do ônibus. Sem ter frequentado a escola, ela enxerga a educação como principal meio de transformação na vida de uma pessoa – e é o que recomenda aos filhos e netos.

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