Reportagem por Aline Rodrigues. Edição de texto por Thiago Borges. Foto em destaque: Divulgação/Travas da Sul

No último mês, mais de 150 famílias de pessoas LGBTs do Extremo Sul da cidade de São Paulo receberam cestas básicas e um kit com itens de higiene e limpeza. A ação solidária foi articulada pela coletiva local Travas da Sul com a Casa Chama, um associação cultural de cuidados para essa população.

A fila é grande. No final de abril, a Travas da Sul lançou um formulário on-line para mapear as necessidades da população LGBT+ da região. Mais de 500 pessoas responderam, inclusive heterossexuais. A coletiva priorizou pessoas trans e travestis, enquanto articula outros apoiadores para tentar atender à grande demanda.

Marcia Marci em distribuição de cestas básicas no Grajaú (Foto: Divulgação/Travas da Sul)

“A sociedade civil é muito importante para a conexão da comunidade, para manter vivos a esperança e o afeto entre a gente”, aponta Marcia Marci, articuladora cultural e idealizadora da Travas da Sul. Nas respostas do formulário, aparecem mais do que pedidos por alimentos: as pessoas falam das dificuldades do isolamento, pedem auxílio para conseguir um emprego ou pagar aluguel.

Para Márcia, a articulação atual é o legado que pode ficar desse cenário ameaçador. “Acredito que, depois dessa pandemia, a comunidade LGBT+, sexodiscidente, negra e periférica vai sair fortalecida e se respeitando. É um momento ruim, mas depois vamos ter sabedoria e discernimento pra avançarmos enquanto movimento social”, completa.

Políticas públicas insuficientes

Sobreviver sempre foi e continua sendo palavra de ordem. “O Estado nunca deixou de assassinar a população LGBT e a população negra e periférica, e segue no genocídio porque hoje vemos quais corpos estão tombando primeiro”, denuncia Marcia.

Ela lembra que o setor público sempre foi moroso nas ações e tem sofrido ataques da extrema-direita, o que dificulta desenrolar algumas ações. Mas o contato direto com algumas pessoas que atuam no segmento tem funcionado.

E a procura aumentou consideravelmente. No Centro de Cidadania LGBTI Edson Néris – Sul, um dos 4 espaços coordenados pela Prefeitura de São Paulo e administrado pela organização UNAS Heliópolis, o atendimento dobrou de 100 para 200 pessoas por mês por conta da pandemia de coronavírus. O equipamento público também mapeia pessoas LGBT+, recebe e distribui cestas básicas.

Cassia Azevedo: no caminho entre casa e trabalho (foto: Arquivo pessoal)

“A demanda maior ainda é a psicossocial, e também cresce o número de pessoas que não conseguem ter acesso à internet e nos procuram para apoio para acessar o cadastro do auxílio emergencial”, explica Cássia Azevedo, assistente social do equipamento e moradora de Parelheiros. “E notamos que não são só as travestis e transexuais, que são o público mais vulnerável, que têm nos procurado, mas também as demais LGBTs”, observa.

Para Cássia, é importante que as subprefeituras e os serviços de assistência social ampliem a divulgação das ações em cada território para conseguir alcançar a população LGBT. “Essas ações se fazem necessárias não somente como ações pontuais, e sim que possam ser de fácil acesso o ano todo”, ressalta.

Alimentos para corpo e alma

Com atuação no Extremo Sul, o projeto La Fancha Casa Restaurante também fez um formulário para identificar as demandas de mulheres lésbicas e bissexuais, além de pessoas não-cisgêneras. Apenas 32 pessoas responderam – e a idealizadora da iniciativa tem algumas hipóteses para isso:

“O não-preenchimento do formulário em grandeza de número revela o quanto nós somos invisibilizadas e esquecidas, especialmente em momentos de crises, sejam elas quais forem. Logo, se somos invisibilizadas, a nossa participação fica também restringida – e o máximo que conseguimos criar entre algumas mulheres são algumas ações e espaços de resistência”

Carmem Pinheiro, da La Fancha

Entre as respostas, além de alimentos, as mulheres buscam apoio à saúde mental. E muitas delas também se oferecem para ajudar de alguma forma. Mais do que atender esse grupo, a La Fancha se articula com a Travas da Sul para fortalecer suas ações.

A iniciativa também repensa as atividades do projeto “Retomada a La Fancha: Uma jornada lírica poética e lesbiana”, com apoio do edital Mulheres em Movimento, do Fundo Elas.

“A maior característica da La Fancha, o que faz ela acontecer é justamente a comida. Estar em torno dela. Comer bem e estar em companhia das mulheres, criando redes, trocando ideias. É um projeto Gastronômico Cultural.Toda essa parte está impossibilitada de acontecer no momento”, explica Carmem.

Por isso, a programação está migrando para a internet. Dessa forma, a iniciativa que conta com apoio Fundo Elas consegue remunerar e fazer girar algum dinheiro entre mulheres periféricas.

No último dia 28, a convidada de uma live no Facebook foi Katú, uma rapper, cantora, compositora, atriz e ativista da causa indígena. Por meio de suas letras, ela reconta história da colonização pela ótica indígena e levanta questões como a demarcação de terras, o indígena no contexto urbano, o resgate da ancestralidade, o uso indiscriminado da cultura indígena e a forma como são tratados os povos originários no Brasil. Assista abaixo.

A próxima live acontece no dia 11 de junho, às 20h, com a psicóloga e educadora Elânia Francisca.

“Pensamos em conduzir as conversas com nossas convidadas através do tema ‘alimento’, refletindo como tem sido extremamente importante durante a pandemia, seja por sua escassez e a falta que ele está fazendo ainda mais na mesa de muitas famílias brasileiras ou seja pelas suas importantes propriedades nutritivas, capazes inclusive de atuar melhor na nossa imunidade”, conclui Carmem.

Conteúdo produzido com apoio do Fundo de Apoio Emergencial COVID-19, do Fundo Brasil de Direitos Humanos

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