Entrevistas e imagens por Julia Vitoria. Edição por Thiago Borges

“Meu neto só saiu no portão. Ele acabou de falar pra vó dele: ‘vó, vou deitar’. E a vó dele: ‘tá bom, Gui. Vai deitar. Não sai na rua, não’. Falei isso porque ele sempre tem a mania de sair pra olhar a rua. E ele saiu e nunca mais voltou”.

Emocionada, Antônia Arcanjo da Silva, a dona Toninha, fez esse relato sobre as últimas palavras trocadas com o neto Guilherme Silva Guedes durante o ato realizado nesta terça-feira (16/06) por familiares, moradores, militantes de movimentos sociais e muitos adolescentes para exigir justiça para o menino de 15 anos.

Guilherme foi sequestrado por volta de 01h30 da madrugada do último domingo (14/06), quando saiu na rua Rolando Curti, Vila Clara (região de Americanópolis, zona Sul de São Paulo). Segundo reportagem da Ponte Jornalismo, 2 homens armados o renderam e o levaram.

A reportagem diz ainda que a família suspeita que policiais militares estejam envolvidos no caso, já que no local em que o menino foi visto pela última vez foi encontrado um pedaço de pano semelhante a farda utilizada pela corporação com a inscrição “SD PM Paulo”. E um parente acredita ainda que esses agentes faziam bico de segurança em um galpão da Sabesp.

O corpo foi encontrado ainda no domingo, na avenida Alda, em Diadema, município que faz divisa com o bairro. Segundo a família, o corpo tinha tiros na cabeça e em uma mão.

“A pessoa que pega um menino igual ao Guilherme e tem a coragem de machucar, dar 2 tiros na cabeça igual ele fez… É um bicho (…) Tem que tirar da sociedade, porque amanhã [acontece isso com] o filho dele, é o filho dela”, disse Toninha.

Na noite de ontem (15/06), moradores revoltados bloquearam ruas e avenidas, incendiaram ônibus e foram violentamente reprimidos pela Polícia Militar. Imagens circularam nas redes sociais com agressões de policiais contra cidadãos e a Tropa de Choque avançou com um veículo blindado pela quebrada – tudo isso considerando que a família acusa PMs de executarem o garoto.

Queria fazer churrasco

“Ele não era ladrão. Ele queria fazer um churrasco e morreu logo no domingo. Isso roubou as ideias e tá todo mundo querendo saber qual é que foi”, lembrou um rapaz de 16 anos, amigo de Guilherme.

Assim como ele, muitos outros adolescentes participaram do protesto e gritavam palavras de ordem como “quero o fim da Polícia Militar” e “o diabo usa farda”. Moradores locais erguiam cartazes e foram seguidos por movimentos sociais, coletivos e organizações como a Rede de Proteção e Resistência ao Genocídio.

“A gente tá cansada de chorar. Ouve a favela! Ouve a favela! Justiça!”, exigiu a conselheira escolar Rosimeire Rodrigues, de 42 anos, que é moradora da região de Cidade Ademar. “A gente precisa selar a paz na comunidade. A gente não aguenta mais ver nossas crianças sangrando”, disse Felipe Marconato, 30 anos, do movimento Atitude.

Toninha comparou a brutalidade policial na noite anterior com os protestos antirracistas que varreram os Estados Unidos nas últimas semanas após o assassinato de George Floyd. “Vocês viram alguém batendo neles lá?”, questionou. “Aqui, ontem, ferveu de polícia batendo”.

Para a avó, a única esperança que fica é de um bom descanso para Guilherme: “Eu tenho certeza que deus vai arrumar um cantinho muito bom pro meu neto”.

O ato começou na porta da casa da avó de Guilherme, seguiu em caminhada pelas ruas do bairro até a avenida Cupecê, aonde manifestantes bloquearam a via e fizeram 5 minutos de silêncio. Depois, seguiu de volta até a casa e os participantes rezaram um pai-nosso.

Apesar de ser oficialmente encerrado ali, parte dos jovens se dispersou pelo interior do bairro. Até o fechamento dessa reportagem, materiais encontrados em caçambas foram incendiados e jovens atearam fogo em objetos na rua. A PM reagiu com bombas de gás lacrimogêneo. A matéria pode ser atualizada a qualquer momento.

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