Imigrantes procuram o Brasil para ganhar dinheiro

A motivação financeira é a principal causa da imigração, em boa parte dos casos.

Com bom desempenho econômico, o Brasil é opção para imigrantes de diversas partes do mundo: desde europeus profissionalmente qualificados a africanos e latinoamericanos pobres em busca de melhores condições de vida.

Cerca de 700 bolivianos entram diariamente no País para trabalhar na indústria têxtil. Até 100.000 deles estariam trabalhando em situação análoga à da escravidão, segundo Jerjes Justiniano, embaixador da Bolívia no Brasil.

Como compõem a segunda maior comunidade de estrangeiros em São Paulo, a cidade é o principal destino para os bolivianos, que chegam a pagar até US$ 10.000 para coiotes.

Boa parte deles trabalha em oficinas de costura clandestinas criadas por outros bolivianos, há mais tempo no País, em troca de um salário médio de R$ 600.

Apesar de ser um terço do que um costureiro brasileiro receberia, esse valor equivale a três salários mínimos na Bolívia.

“A gente não saía na rua por causa da comunicação. Os chefes colocavam medo na gente. Tínhamos que fazer tudo no mesmo lugar: trabalhar, comer, dormir”, diz Jony Alvarado, hoje casado com uma brasileira.

Vítimas de um terremoto que matou 300.000 pessoas em janeiro de 2010, os haitianos compõem uma nova onde imigratória para o Brasil.

“Eles estão vindo para cá porque têm referências positivas de nós”, explica João Paulo Charleaux, coordenador de comunicação da Conectas, ONG brasileira que atua na defesa dos direitos humanos. Além da identificação cultural e racial, o Brasil chefiou a Missão de Paz da ONU para estabilização do Haiti após a guerra civil.

O resultado é que, nos últimos três anos, mais de 25.000 haitianos chegaram ao País em busca de emprego – a maior parte deles acaba ingressando na construção civil.

Os haitianos chegam a pagar US$ 4.000 para coiotes até chegarem a Brasileia, no Acre, após uma viagem que pode durar vários meses. Assim como os bolivianos, seu destino principal é São Paulo, onde muitos deles já criaram colônias de solidariedade no Glicério (regão central da cidade) e até nas periferias.

“Apesar das dificuldades, o Brasil é o país que oferece as maiores oportunidades para nós, haitianos”, diz Robinson Jean Baptiste, que saiu da capital Porto Príncipe em março de 2012 e chegou a São Paulo sete meses depois.

Aqui, com a ajuda da Missão Paz (entidade ligada à Igreja Católica que atua com imigrantes), ele começou a trabalhar como ajudante em uma rede de restaurantes. Com o salário, paga R$ 400 para morar numa pensão e ainda consegue enviar algum dinheiro para familiares no Haiti. O objetivo é se tornar garçom, ganhar mais e começar a fazer faculdade.

Em 2013, a Missão Paz atendeu ao todo 3.400 imigrantes, oferecendo casa, comida e roupa se necessário, além de ajudar a documentação com a Polícia Federal e mediar a busca de vagas de trabalho com mais de 500 empresas parceiras. O número de haitianos atendidos vem subindo drasticamente: de 15 em 2010 para 60 em 2011 e 700 em 2012. Em 2013, foram 1.631 até o início de novembro. Os haitianos representam quase a metade do total de imigrantes de 68 nacionalidades que passaram pela entidade no ano passado.

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Bolivianas aliciadas pelo tráfico de drogas

A população carcerária brasileira subiu de 294.237 para 548.003 presos entre 2005 e 2012 – aumento de 86%, segundo dados do Sistema Integrado de Informações Penitenciárias (InfoPen), do Ministério da Justiça.

Enquanto isso, o número de homens estrangeiros presos cresceu 110% (de 1.191 para 2.510) e o de mulheres aumentou 225%: de 238 para 774.

Do total das presas estrangeiras, 95% cumprem pena por tráfico de drogas, segundo o Instituto Terra, Trabalho e Cidadania (ITTC), que atua com prisioneiras estrangeiras no estado de São Paulo.

“Geralmente, são mulheres de baixa renda e chefes de família que passam por dificuldades financeiras ou que precisam de dinheiro para fazer um tratamento médico”, diz Nathalia Duó, integrante do Programa Estrangeiras do ITTC.

Com 143 detentas, a Bolívia é o país com mais mulheres presas entre as estrangeiras das cadeias brasileiras. Em seguida, aparecem as sul-africanas (70), angolanas (62) e paraguaias (55).

“Com a justificativa de que o país de origem passa por crise política, com muita pobreza, as bolivianas acabam vendo no translado de substância entorpecente uma solução para suas dificuldades”, aponta Ivete Barão de Azevedo Halasc, diretora da Penitenciária Feminina da Capital, onde há apenas 145 brasileiras entre as 552 detentas. As demais vieram de outros 54 países.

As sul-americanas trazem a droga para o Brasil. Já europeias, asiáticas e principalmente africanas levam entorpecentes para os demais continentes. Mas algumas bolivianas fazem o roteiro completo.

A droga viaja na bagagem, no sutiã, na calcinha ou é ingerida.

Filha de camponeses pobres do interior da Bolívia, Ana morava com os quatro filhos em uma casa de aluguel na cidade de Trinidad, capital do departamento de Beni. Divorciada e sem apoio do ex-marido, ela ganhava 600 pesos bolivianos (cerca de R$ 170) por mês trabalhando como prostituta.

Para abandonar a prostituição, conseguir um bom emprego e melhorar a vida da família, ela se matriculou na faculdade de Computação, cuja mensalidade era paga por um amigo.

Porém, despejada de casa por atrasar o aluguel, ela aceitou a proposta de um traficante nigeriano que conheceu na boate onde trabalhava: por US$ 2.500, ela transportaria 1 quilo de cocaína até a África do Sul.

Após ingerir 30 cápsulas de cocaína, Ana embarcou em um avião em Santa Cruz de la Sierra rumo a São Paulo, onde faria conexão rumo a Johannesburgo, na África do Sul.

Mas Ana desistiu e se entregou à Polícia Federal brasileira. “Fiquei com medo de não encontrar o traficante, de ser descoberta e, principalmente, de morrer com a cocaína na barriga”, conta.

Desde 26 de dezembro de 2012, Ana está presa na Penitenciária Feminina da Capital (PFC), onde cumpre pena de cinco anos de prisão.

“Quero sair daqui, conseguir um emprego e cuidar dos meus filhos. Eles precisam de mim”, conclui.

PRÓXIMA REPORTAGEM: Aluguel caro expulsa imigrantes do centro para as periferias.