Igreja na quebrada, um ambiente de construção de identidade

Foto: Papa durante visita à comunidade Varginha, no Rio de Janeiro, em julho de 2013 (Agência Brasil)

Em qualquer periferia de São Paulo, três “instituições” são predominantes: o bar, o salão de beleza e a igreja. Muitas vezes, vizinhos de parede, eles se convergem.

É no salão que o cabeleireiro Antonio, no Grajaú, encontra parte dos irmãos que congregam com ele em uma igreja pentecostal. Outra parte dos clientes é formada por amigos do tempo em que ele era do “mundo”.

Filho de mãe católica, Antonio chegou a participar de grupos de jovens na igreja mas se converteu ao pentecotalismo após se casar com uma evangélica. Crente desde então, ele conseguiu levar a avó – uma imigrante japonesa que chegou ao País no início do século 20 – ao encontro de Jesus 90 anos depois de viver sob os ensinamentos de Buda.

O caso é um retrato do crescimento dos evangélicos na cidade de São Paulo. Em 2010, o censo do IBGE apontava que a cidade de São Paulo tinha 6,5 milhões de católicos (incluindo aí a maioria que se diz “não praticante); os espíritas somam 531 mil; budistas, 75 mil; umbandistas, 50 mil; candomblecistas, 18 mil; judeus, 48 mil; muçulmanos, 8 mil; hindus, cerca de mil; praticantes de novas religiões orientais, como o Seicho No-Ie, somam 25 mil; e os adeptos de tradições indígenas são 1,8 mil. Cerca de um milhão de paulistanos não têm religião.

Enquanto isso, os evangélicos são 2,4 milhões (sendo 266 mil de missão, como batistas e luteranos; 1,4 milhão de pentecostais; e 800 mil de igrejas independentes); e outras religiosidades cristãs têm 150 mil adeptos. É nas periferias onde acontece a batalha por corações e mentes dos fiéis.

“O que chama atenção nas pesquisas, especialmente nas favelas, é a legitimidade das igrejas que chegaram quando a comunidade estava se formando”, explica o professor Dario Paulo Barrera Rivera, coordenador do grupo de pesquisa sobre Religião e Periferia Urbana na América Latina (REPAL) da Universidade Metodista de São Paulo. “Mesmo igrejas evangélicas maiores, como a Universal, não têm o mesmo espaço. No máximo, ocupam um templo numa grande avenida”.

Até a década de 1970, a Igreja Católica tinha domínio sobre os moradores das quebradas (e do Brasil), inclusive com o importante papel de conscientização política e mobilização popular por meio das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs). Combatida pela matriz em Roma, a preferência pelos pobres minguou a influência católica, ao mesmo tempo em que pastores apresentavam opções menos burocráticas de se viver a fé, inclusive com propaganda televisiva.

Apesar dessas igrejas evangélicas não serem espaços de mobilização social, elas constituem importantes redes sociais e de identificação das populações locais. “As experiências de vida comuns, como migração, ocupação profissional e as dificuldades, acabam atenuando a diferença que há entre as diversas religiões”, diz Rivera.

Em um casamento numa comunidade próxima à rodovia Anchieta, por exemplo, netos de evangélicas pentecostais de diferentes denominações se casaram na paróquia católica local. Quem “impôs” essa condição foi a mãe do noivo, que por acaso não tem religião. A escolha do templo se deu pelo “prestígio” do casamento católico.

“Há gente que mescla experiências religiosas, mesmo se afirmando como católica ou evangélica, por exemplo. Gente que possui uma crença mais pessoal, sem a tutela das instituições”, observa Daniel Souza, facilitador nacional da Rede Ecumênica da Juventude (REJU) e membro do Conselho Nacional de Juventude (Conjuve). “Tudo isso é bem plural e dinâmico e tem nas periferias um caldeirão mais pulsante para encontros”, completa.

A pesquisa “O Sonho Brasileiro”, realizada em 2010 com jovens de 18 a 24 anos de todo País, sinaliza para essa mudança: 77% dos jovens se sentem livres para experimentar outras religiões; 68% apontam que as igrejas deveriam ser mais flexíveis; 43% afirmam ter religião e ser praticantes; 36% afirmam ter uma religião e não ser praticante; 17% afirmam ter uma espiritualidade independente de religiões; e 4% são ateus.

“A religião institucionalizada na sociedade contemporânea foi perdendo o lugar central que um dia ocupou”, explica Rivera, que enxerga a espiritualidade cada vez mais atrelada à vida no mundo. “A diversidade de tradições religiosas no próprio pentecostalismo, a renovação carismática na Igreja Católica, as comunidades espiritualistas, etc, fazem as pessoas verem a religião como uma escolha”.

Nesse caso, além de revelar que há maior liberdade para se professar a fé que se acredita, há literalmente um mercado da fé. No neoliberalismo, as igrejas são concorrentes. No topo do ranking, estão aquelas que conseguiram atender às expectativas do maior número de pessoas. Mas já existem denominações para “nichos”, como a Igreja Cristã Contemporânea (voltada ao público LGBT), a Bola de Neve (fundada por um surfista, é mais “descolada” e atrai jovens) ou a Capital Augusta, cujo templo é uma boate na rua Augusta, em São Paulo. É a lei de mercado.

PRÓXIMA REPORTAGEM: Uma entrevista com integrantes da REJU, uma rede que dialoga com diversas religiões e movimentos sociais na busca por uma sociedade mais tolerante.

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