(Foto: Divulgação)

Grupo de artistas do Grajaú faz teatro “ao vivo”, diz público

Quem sabe faz ao vivo. Ou melhor, na rua.

E no distrito do Grajaú, localizado em uma região onde há apenas uma casa de cultura e apenas dois CEUs com palco e auditório, muitos moradores continuam sem poder frequentar espetáculos teatrais – alguns sequer sabem como é isso de perto.

Não é à toa que, quando grupos como a Cia Enchendo Laje & Soltando Pipa resolvem representar em espaços públicos, o público diz que os artistas fazem teatro “ao vivo”.

“Estava numa quermesse e um senhor me abordou e disse: ‘você não sabe quem eu sou, mas eu sei o que vocês fazem para melhorar nosso bairro’”, lembra Paulo Araújo, integrante da companhia. “Nossa formação se deu na prática”, continua.

É sobre esse trabalho que vamos falar em mais uma reportagem do “Cultura ao Extremo”, projeto realizado com apoio do programa Agente Comunitário de Cultura da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo que tem o objetivo de mapear e visibilizar as manifestações culturais no Extremo Sul da cidade.

Para saber mais e participar também, clique na imagem abaixo ou responda ao questionário no final da matéria.

banner_ Cultura ao Extremo

A Enchendo Laje foi criada em 2004 pela estudante universitária Alessandra Moreira, que atuava como voluntária do programa Escola da Família em um colégio no Jardim Mirna, Grajaú. Outros colegas entraram no grupo e começaram a discutir o Teatro do Oprimido, de Augusto Boal, nessa companhia periférica que chegou a ter 13 integrantes.

“O grupo sempre fez teatro político. Eu achei incrível, me vi naquele grupo e senti a necessidade de me expressar por essa arte”, diz Fernanda Nunes, 26 anos, a mais antiga dos quatro membros atuais.

Fernanda está no grupo desde 2007, quando encenava cenas bíblicas no grupo de jovens da Igreja Católica e conheceu o Enchendo Laje. “Foi um divisor de águas na minha vida”, diz ela, que trocou o altar pelo palco.

Paulo também vem do teatro religioso, onde circulou com peças por paróquias do interior e retiros espirituais, até entrar para a companhia em 2008.

No ano seguinte, chegou Daniel Araújo (irmão de Paulo), hoje com 19 anos. E, em 2011, Fabio Cupertino, 22, ingressou em um momento de questionamentos do coletivo.

Após quatro anos enfrentando problemas com a administração do CEU Três Lagos, onde apresentava seus espetáculos e até hoje realiza ensaios, a Enchendo Laje rompeu os muros da instituição.

“A gente fazia teatro num lugar com estrutura interna, mas que não divulgava os espetáculos e dificultava o acesso das pessoas”, explica Paulo.

A última peça encenada nos palcos do CEU foi “Não importa”, em que os artistas caracterizados como operários não só representam como operam som e iluminação no palco. São os trabalhadores da cultura.

Desde então, o grupo investe em pesquisas na rua: faz saraus temáticos em praças públicas, em ocupações por moradia e se relaciona com públicos diversos – dos ciclistas aos comerciantes locais.

“O que mais aprendemos com teatro de rua é o contato com os moradores do bairro”, observa Fabio. “Eles perguntam quando vamos ensaiar de novo, nos reconhecem como artistas”.

Oriundos do programa de teatro vocacional da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, é a atuação na rua que garantiu aos artistas do Enchendo Laje o reconhecimento enquanto profissionais do teatro.

“Não somos acadêmicos. Nossa formação enquanto ator se dá pelas nossas individualidades, que se juntam no todo, nas vivências, no que está próximo da gente”, diz Daniel.

Nessas vivências, estão as trocas com outros coletivos teatrais da região, como o Humbalada, o Identidade Oculta, a Brava, a Trupa de Choque, os Inventivos, entre outros.

Após uma década de atuação, eles conquistaram o DRT em 2014 e, agora, buscam verbas de editais para continuar sua produção – como não cobram ingressos e o último fomento foi recebido há três anos, as finanças do grupo estão no vermelho.

Atualmente, a companhia conclui uma pesquisa realizada desde o final de 2013 com recursos próprios. E, em agosto, deve estrear “Jardim Progresso via Três Lagos”.

Apresentado na rua e no próprio CEU, que é encarado como modelo de progresso imposto de cima para baixo, neste espetáculo o Enchendo Laje representa cenas que se passam no Jardim Belcito: o bêbado que caminha pelas ruas do bairro com uma cadela; a masturbação ao ar livre em um escadão; a ONG de fachada que abre as portas facilmente e atrai desavisados.

“Quando falamos da nossa história na cena, estamos falando da história do próprio bairro”, conclui Paulo.

E, como tudo que é “ao vivo”, cada peça é diferente da outra – ainda mais quando acontece na rua.

CONFIRA FOTOS DA CIA:

Este slideshow necessita de JavaScript.


Tudo sobre…
Enchendo Laje & Soltando Pipa
Região de atuação: Grajaú
Desde quando atua: 2004
Linguagem: Teatro
Temas abordados: Arte e cultura, Educação, Direitos humanos, História e memória local, Culturas populares
Público principal: Todos os públicos, especialmente crianças
Critérios para participação: Livre
Com quem se articula: Artistas locais e de outras localidades, Escolas públicas, Fóruns de discussão, Movimentos sociais
Como se mantém: Recursos próprios, Editais públicos
Maiores dificuldades enfrentadas no dia a dia: Recursos financeiros, humanos e materiais; Espaço físico para atuação; Apoio do poder público; Tempo para dedicação ao trabalho; Infraestrutura no entorno
Contatos: pelo Facebook ou pelo site

Carregando…