GRAJAÚ É AMOR!: Uma investigação coletiva sobre as múltiplas identidades que compõem o distrito mais populoso de São Paulo

“O território é o chão e mais a população, isto é, uma identidade”, diz Milton Santos, o maior dos geógrafos brasileiros. “É o fato e o sentimento de pertencer àquilo que nos pertence”, continua.

E se, portanto, território é identidade, o que significa morar no Grajaú: a represa, as moradias irregulares, a infraestrutura precária, as lutas populares, a potência cultural ou tudo junto?

Em setembro, os participantes do curso “Repórter da Cidade – A comunicação como ferramenta de aprendizado”, promovido pelo coletivo de comunicação Periferia em Movimento, percorreram por três pontos diferentes do distrito do Grajaú para investigar qual a relação dos moradores com o território: BNH, Parque Residencial dos Lagos e Ilha do Bororé. O resultado é esta webreportagem, que inclui texto, fotos e áudios. Confira a seguir!

Lugar de passagem

A região Extremo Sul de São Paulo, que abrange o Grajaú, esteve na rota de indígenas, viajantes portugueses e paulistas. Os primeiros a se fixarem no território foram os colonos alemães, no século 19. Com a industrialização de Santo Amaro em meados do século 20, a especulação imobiliária no centro da cidade e o preço baixo dos terrenos nesse lado da cidade (cujo valor diminuiu com a aprovação da Lei de Proteção aos Mananciais), milhares de trabalhadores escolheram esse lugar para morar. Dos 30 mil habitantes em 1960, a subprefeitura da Capela do Socorro passou a 261 mil em 1980 e mais de 600 mil atualmente – um incremento de quase 2.000% em cinco décadas.

Ruas em áreas de solo vulnerável, morros, sem equipamentos sociais ou transporte coletivo próximo marcam os primeiros anos dessa ocupação. Com quase 400 mil habitantes e uma taxa de crescimento populacional de 5% ao ano, o Grajaú é o distrito mais populoso da cidade de São Paulo. Apenas na última década, a região ganhou 140 mil novos moradores – 18% do crescimento total do município.

Estima-se que existam 200 bairros irregulares e 220 favelas na Capela do Socorro, sendo que grande parte desse total se encontra no distrito do Grajaú, onde segundo a própria subprefeitura residem 53 mil pessoas aglomeradas em ocupações não planejadas ou irregulares, a maioria delas inacabadas.

Para quem percorre a avenida Dona Belmira Marin, alguns prédios coloridos destoam da paisagem quase uniforme composta por casinhas de tijolos aparentes. O Conjunto Habitacional Brigadeiro Faria Lima, único bairro planejado do Grajaú, foi erguido entre as décadas 1970 e 1980 com financiamento do extinto Banco Nacional da Habitação. Não por acaso, o local é conhecido como BNH – sigla do órgão público.

Juntas, Maria de Lourdes e Maria Rute Lopes Brandão somam mais de 70 anos de vivência no BNH. A paranaense Maria Rute chegou a São Paulo em 1975 e, quando comprou uma casa no local, não havia sequer linha de ônibus. Hoje, apesar das opções de transporte, os trajetos continuam demorados. A relação com o bairro já foi melhor. “Eu gostava das quadras e das árvores, mas as pessoas destruíram tudo”, diz Maria Rute. Para Maria de Lourdes, o problema são as mudanças transitórias e iniciativas que não se sustentam. “Eles colocam e tiram as coisas”, aponta.

Na volta da feira, Viviane Santos reclama da distância para trabalhar, estudar ou se divertir. “Mas o bom do bairro são as amizades”, garante. Em outro ponto do BNH, Adriana aproveita o sábado ensolarado para passear com o cachorro. Ela, que tem 40 anos, está há 39 na região. “Antigamente não tinha luz, nem asfalto, por exemplo. Mas existia uma rua chamada ‘rua do lazer’. Era muito legal, eu frequentava”, lembra Adriana, que hoje “não se mistura” com outros moradores. “É outra juventude, outra cabeça, né?”. Ainda assim, ela considera a quadra ao lado da caixa d’água do bairro a maior conquista dos últimos tempos.

Nem todo mundo está contente. “Agora, que está claro, você vê famílias nesta praça. Mas à noite é tudo dos ‘noias’”, diz o funcionário público Claudio Melo, 40, que por muitos anos morou no BNH e agora só volta para visitar a mãe. Ele lamenta a “violência”, a “falta de educação dos mais novos” e critica o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA).

“Protegido” pelo ECA, o adolescente Miguel Santos Nascimento, de 15 anos, concorda com Claudio. “Falta disciplina aqui”, diz ele, que estudou até a oitava série, trabalha como pizzaiolo e pretende começar o supletivo ano que vem. Assim como Miguel, 52% dos moradores têm até 29 anos. Por outro lado, a região registra as menores taxas de equipamentos de cultura, esportes e lazer do município.

Não é à toa que, quando não está trabalhando, Miguel passa a maior parte do tempo em casa jogando videogame. Aos fins de semana, ele joga bola na quadra do colégio, que abre por conta do projeto Escola da Família – uma das poucas opções de lazer no bairro, segundo os moradores. E não sai à noite. “Já tentaram me assaltar aqui”, conta. Diego, outro adolescente, adere ao mesmo discurso.

A vendedora Silvania Almeida, 32, foi uma das vítimas da recente onda de roubos no BNH. Apesar disso, ela considera a proximidade com bancos e supermercados um ponto positivo do Grajaú em comparação ao Jardim Ângela, de onde se mudou há 11 anos. No entanto, diferentemente de moradores mais antigos, ela não cultiva relações com os vizinhos. “Só falo ‘oi’, ‘bom dia’, ‘boa tarde’… Melhor assim, né?”, explica.

O que incomoda uma lavadeira e passadeira de 63 anos é o estereótipo. “Tudo que acontece de ruim, a culpa é do Grajaú”, reclama ela, que prefere não se identificar porque acha que “tudo que sai na mídia sobre aqui é ruim”. Ela sente o preconceito na pele quando ninguém acredita que suas filhas têm faculdade – uma formada em Administração e, a outra, em Pedagogia. No Morumbi, onde trabalha, as pessoas acham que quem vive na periferia “não se cuida, é sujo”, conta ela, que se orgulha do lugar onde vive. “Nem o [som alto do] funk me incomoda”, diz.

Vem pra rua!

Para o professor Rogério Nunes, 36, o confinamento das pessoas em suas casas é a principal causa da insegurança. “As pessoas trabalham muito, passam pouco tempo no bairro e acabam não se relacionando mais”, diz ele, para quem o tempo fora de casa também motiva o desconhecimento da população sobre o que acontece de bom na região.

Historicamente, o distrito do Grajaú foi cenário de lutas populares por moradia, transporte, saúde e educação. A região desponta como celeiro de movimentos sociais com forte participação popular. Segundo levantamento realizado pelo Datafolha há cinco anos, o Extremo Sul tem o maior índice número de pessoas engajadas em movimentos sociais, organizações não governamentais e associações de bairro: 37% da população, ante 5,6% da média paulistana.

O cenário cultural também é pulsante, com dezenas de coletivos de teatro, dança, hip hop e saraus. Entre os expoentes, estão os rappers Criolo e Terra Preta, o grupo Xemalami e o Pagode da 27, roda de samba que semanalmente reúne mais de 300 pessoas, entre outros. O Grajaú é terra de Alexandre da Hora, o Niggaz, que colocou a região no mapa do graffiti paulistano. Essa linguagem se fortalece com o trabalho como dos agentes marginais do coletivo Imargem, que atuam em três eixos – arte, meio ambiente e convivência –, e auxiliaram nessa vivência pelo território.

“Todo mundo é artista. Só precisa de ação”, diz Rogério, que além de lecionar matemática em uma escola pública da região promove atividades culturais, integra a banda Teorema do Resto e pretende fundar um centro cultural.

A auxiliar odontológica Geisa Viana, 33, participou de projetos culturais e ações da Associação dos Moradores do Parque Residencial dos Lagos, onde as pessoas se reuniam para discutir os problemas do bairro. Se antes as ruas eram de terra e o acesso à escola complicado, hoje há asfalto e seu filho de seis anos tem transporte escolar gratuito. Com uma lanchonete para administrar, além do trabalho convencional, Geisa não tem tempo de se engajar nos movimentos, mas acompanha o que acontece pelas redes sociais.

Um dos agentes culturais citados por ela é Adolfo Duarte, o “Ferruge”, que coordena a área de cultura do CEU Navegantes e organiza eventos culturais na região. No dia de produção dessa reportagem, Ferruge preparava um bote para levar uma moradora idosa para passear na represa Billings. “Muita gente tá cogitando comprar um barco ao invés de um carro ou uma moto”, diz ele, que vê potencial no modal aquático.

Construída em 1925 para gerar energia, a represa Billings já não cumpre sua função principal mas continua um cenário presente na vida de 1 milhão de pessoas da Grande São Paulo que vivem em seu entorno. Suas margens, tanto no lado da capital paulista quanto no ABC, foram ocupadas por milhares de famílias fugindo do preço alto dos aluguéis nas regiões mais centrais. Nos últimos 20 anos, as penínsulas do Grajaú se tornaram novos bairros, como Cantinho do Céu, Gaivotas, Prainha e Shangri-lá.

O crescimento desordenado e em área de manancial resultou em problemas socioambientais. Para conter o avanço habitacional sobre as margens a represa, a Prefeitura de São Paulo criou o Programa Mananciais e está construído parques lineares na região. Batizado de Parque Linear Cantinho do Céu, a intervenção pretende beneficiar 50 mil famílias que vivem às margens da represa.

Mas o projeto, que começou em 2008 no Parque Residencial dos Lagos, onde vive Geisa, representou um doloroso processo. Centenas de casas foram removidas em troca de “indenizações” de R$ 10 mil, em média – o plano é retirar 1,5 mil famílias. No lugar, foi construída uma passarela, um píer e um deck de madeira, de onde Ferruge parte com seu bote. Apesar do problema social causado durante a construção, atualmente o parque linear é ocupado por famílias, jovens em busca de diversão e casais de namorados. Ignorando a recomendação para não nadar na represa, crianças improvisam boias com garrafas PET.

Lucas Pereira, 18, sai do Jardim Eliana para praticar skate na pista do parque. “É o único lugar da região para andar de skate”, diz ele, que apesar de gostar de viver na região acha que as coisas são feitas de “qualquer jeito” por se tratar de uma periferia. “A última reforma foi em 2009 e não tem manutenção, não tem luz na pista à noite e falta segurança”, reclama.

Refúgio

Com uma lei ineficiente no controle à ocupação irregular do território, para preservar os mananciais responsáveis por 35% do abastecimento de água da região metropolitana de São Paulo a Prefeitura criou duas Áreas de Proteção Ambiental (APAs): a Capivari-Monos, em junho de 2001 e com 270 quilômetros quadrados; e a Bororé-Colônia, de maio de 2006 e com 90 quilômetros quadrados, que abrange boa parte do distrito do Grajaú. A represa Billings cria uma barreira fluvial que impede o avanço da mancha urbana sobre a APA. Apenas 4 mil pessoas vivem na outra margem, além de saguis, tucanos e outros animais silvestres escondidos na mata nativa.

A ligação entre Grajaú e a península, conhecida como Ilha do Bororé, é feita por uma balsa. Numa das primeiras casas, vive a aposentada Maria Mercedes dos Santos (foto), 76. Há quatro décadas, quando chegou à Ilha, a embarcação ainda era de madeira. Em tempos de racionamento de água, dona Mercedes se recorda quando a Billings secou. “A gente conseguia atravessar a pé”, diz.

Entretanto, a lembrança mais marcante é a convivência com os vizinhos. “Toda semana tinha forró. A gente se reunia na casa de um amigo e cada um levava um prato”, lembra dona Mercedes, que hoje prefere ficar em casa. Ela se converteu e frequenta a igreja pentecostal Deus em Cristo, localizada ao lado de uma paróquia católica construída em 1904, quando não havia a represa.

Ao lado do templo religioso, Raul Tabajara Vasconcellos, 46, se refugia numa sombra enquanto aguarda o ônibus. Nascido em São Paulo, ele se mudou para Recife, onde viveu até sofrer uma lesão em um acidente de moto – agravada pela diabetes. Raul teve metade do pé amputado e voltou à capital paulista para se tratar. Apesar de viver em um albergue aberto há seis meses no BNH, ele prefere “viajar” até a Ilha do Bororé, onde faz curativos no posto de saúde e amizades num antigo armazém local. “Nem parece que é tão perto do Grajaú. É um refúgio”, ressalta.

Assim como Raul, a tranquilidade da Ilha do Bororé atrai turistas nos fins de semana. Pancadões e outras festas acontecem em chácaras localizadas na península, com a presença de moradores e visitantes. As amigas Nayara e Nathália (foto), ambas 15 anos, frequentam esses eventos, mas também participam de ações sociais na Ilha do Bororé.

Na escola, elas cuidam de uma horta comunitária, enquanto toda quinta-feira vão à Ecoativa, um espaço onde ocorrem exibições de filmes, oficinas e rodas de conversa em volta da fogueira. “Quando eu soube que moraria aqui, eu odiei, chorei, não queria de jeito nenhum porque era longe de tudo. Mas agora, quando eu vou pra algum lugar movimentado, logo quero voltar para cá”, diz Nathália.

Fátima Aparecida Teixeira Santana, 34 anos, aproveita o fluxo do final de semana para complemenar a renda com a venda de bebidas, doces e salgadinhos em uma barraquinha. Ela se mudou para a Ilha do Bororé com quatro filhos e o marido, que trabalha na EMAE, a empresa responsável pelo funcionamento das balsas. Apesar do difícil acesso ao comércio e outros serviços, ela diz que vive uma “benção”.

“Quando eu penso na Ilha, me lembro de natureza, respiração. Atravessou a balsa, não tem mais ar. Aqui é um lugar bom para criar os filhos. Nem o interior é mais gostoso”, derrete-se a comerciante, que arremata: “Aqui é amor!”

Essa reportagem foi construída coletivamente durante o curso “Repórter da Cidade – A comunicação como ferramenta de aprendizado”, realizada pelo coletivo Periferia em Movimento em parceria com o Sesc Interlagos, por meio do projeto Conexão Sul, cuja proposta é colocar em contato as diversas iniciativas educativas da região sul da cidade de São Paulo.

Repórteres: Daiana Aparecida Sousa, Jessica Labiapari, Kaíque Santos, Laniela Feitosa, Leandro Rocha, Leia Chrif de Almeida, Marianne Bufalo, Marivaldo Lopes, Romeu Rodrigues e Suely Aparecida Schraner
Imagens: Daiana Aparecida Sousa, Jessica Labiapari, Junior, Kaíque Santos, Peter Schraner, Marianne Bufalo, Marivaldo Lopes e Romeu Rodrigues
Facilitação: Aline Rodrigues, Ana Paula Fonseca, Gleyma Lima, Maria Luiza Rozatti, Mariana Belmont, Thiago Borges e Wellington Neri
Edição: Thiago Borges
Apoio operacional: Gabriela Ferreira e Mayra Vergotti Ferrigno
Agradecimentos: Conexão Sul Sesc Interlagos, Coletivo Imargem, Ecoativa e a todos os entrevistados e demais pessoas que colaboraram com esse trabalho.
Para saber mais, entre em contato:
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