Colaboração de Will Ferreira

Próximo às margens da represa Billings, sob fios de alta tensão e um sol de quase 30 graus, nessa terça-feira (19/02) as retroescavadeiras derrubavam telhados, paredes e casas inteiras na rua Claudia Artaria, Jardim Tangará (distrito do Grajaú, Extremo Sul de São Paulo).

Francisco, que está há seis meses aguardando uma cirurgia no canal urinário e anda com uma bolsa de urina pendurada na bermuda, tenta salvar algumas garrafas vazias de cerveja de seu bar. Sua companheira Maria Selma, diarista que atualmente está sem emprego, vê o único ganha-pão da família indo abaixo e não se contém: chora, consolada por vizinhas.

“Para glória do Senhor, você ainda tem vida e vai conquistar tudo de novo”, diz uma das moradoras à amiga, que vive há 28 anos ali.

Sem lugar

Apesar do bar vir abaixo, Selma e Francisco ainda têm parte da casa de pé. A cozinha foi parcialmente demolida, mas eles não ficaram sem um teto. Mas cerca de 60 famílias não tiveram a mesma sorte. Há mais de uma semana (no dia 12 de fevereiro), elas foram removidas de suas casas que estavam embaixo de torres e linhas de transmissão de energia elétrica que cortam a região – área de alto risco para a segurança das pessoas.

Uma dessas famílias é a de Mayra, jovem de 19 anos que morava com os pais e dois irmãos – um deles, com apenas dois anos de idade. Avisados poucos dias antes da remoção, ela e os parentes tiveram que alugar uma casa no bairro vizinho do Jardim Gaivotas. “Disseram que se a gente não saísse ia vir polícia pra tirar”, conta.

Clique e confira a reportagem “Reservatório de Tensões”, sobre moradia e meio ambiente entre Grajaú e Parelheiros

Imagem da semana passada mostra ruínas de demolição (foto: Will Ferreira)

O terreno pertence à empresa privada ISA CTEEP, concessionária responsável pela transmissão de energia elétrica em São Paulo, que deu início ao processo de reintegração de posse em 2017.

“A empresa tem como procedimento a inspeção periódica em suas linhas de transmissão e, quando identifica ocupações irregulares, notifica administrativamente os moradores para desocupação voluntária”, diz a companhia em nota enviada pela assessoria de imprensa (leia íntegra no fim da matéria).

Moradores afetados informam que foram notificados da remoção em dezembro do ano passado. No dia do despejo propriamente dito, não havia representantes do Conselho Tutelar ou de outros órgãos municipais. De acordo com Secretaria de Comunicação da Prefeitura de São Paulo, a Justiça não acionou a administração de Bruno Covas para dar qualquer suporte.

Além da Polícia Militar, havia caminhões disponibilizados pela empresa para fazer o transporte dos bens dos moradores para outros lugares, como casas de parentes ou alugadas. Não houve resistência, mas vizinhos dizem que um homem conhecido como “Tiririca” teria sofrido um infarto e sido internado após seu bar ser demolido. Não conseguimos localizar nem Tiririca nem moradores que ficaram sem casa.

Recomeço

Sem emprego, o pedreiro José Ferreira emenda os canos de água que foram destruídos na demolição de parte de sua casa. No terreno, havia oito moradias mas só as três do fundo ficaram de pé. É onde ele vive agora com a mulher e os quatro filhos. “Pelo menos, ainda tenho onde morar”, conta.

Com ajuda de vizinhos, Maria Silva dos Santos se soma ao marido e os quatro filhos adolescentes para fazer a massa que vai usar na reconstrução da casa. Dos seis cômodos, além de dois banheiros e lavanderia, sobraram apenas um quarto e meio e metade da sala.

A pintura ainda tava nova, mas as paredes foram ao chão por ficarem na chamada “faixa de servidão” das linhas de energia. “A gente tá ficando no salão do mercadinho que o dono cedeu pra gente por enquanto”, diz ela, que quer bater logo uma laje para fazer os novos cômodos na parte de cima – que está segura.

O quarto em que seu Zé dormia com a esposa foi demolido e o proprietário da casa foi despejado. Mas, compadecidos pela situação do pernambucano, os responsáveis pelo despejo conseguiram um acordo para manter seu Zé no quarto-e-cozinha que sobrou. “Pra mim, aqui é mais fácil para pegar o ônibus e fazer o tratamento”, diz ele.

Seu Zé: na entrada do bairro, ele ficou na única casa que permanece de pé. (Foto: Thiago Borges / Periferia em Movimento)

Confira abaixo a íntegra da nota da empresa ISA CTEEP:

“A ISA CTEEP informa que o processo de reintegração de posse realizado no Jardim Tangará, em fevereiro de 2019, teve seu início em 2017. A área em questão trata-se de faixa de segurança de uma linha de transmissão, na qual não podem haver edificações ou moradias de pessoas, pois há risco para a segurança destas e para o sistema de transmissão de energia.
 
Durante todo o processo houve a citação, realizada pelo poder judiciário, dos ocupantes da área, bem como ações da companhia para promover a saída voluntária dos ocupantes. A empresa tem como procedimento a inspeção periódica em suas linhas de transmissão e, quando identifica ocupações irregulares, notifica administrativamente os moradores para desocupação voluntária.

A empresa coloca à disposição destes transporte de bens e pertences. Caso não haja um local definido para a transferência dos bens, a companhia disponibiliza galpão para armazenamento por um período determinado.
 
A ISA CTEEP ressalta que executar construções nas ‘Faixas de Servidão’, áreas de segurança por onde passam as linhas de transmissão de energia elétrica, é ilegal e desrespeita a norma NBR 5422 da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas). A preservação dessas faixas tem o objetivo de garantir a segurança da população, evitar acidentes e prevenir eventuais problemas na prestação do serviço público de transmissão de energia”

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