Genocídio nas Américas: de um país a outro, vítimas do estado têm mesma cor e endereço

Originalmente publicado no site do CEDECA Interlagos | Fotos: Pedro Borges / Alma Preta

De Cali a Sapopemba. Do Grajaú a Tijuana. Do Jardim Ângela a Nova York. O que territórios tão distintos têm em comum? “O Estado não reconhece a pessoa negra, indígena, pobre como pessoa que deve ter seus direitos reconhecidos”, diz a militante Samara Cruz, do Jardim Ângela, na mesa de abertura do I Seminário Internacional Juventudes e Vulnerabilidades, realizado entre os dias 07 e 09 de junho em São Paulo. O seminário tem como proposta discutir homicídios, encarceramento e preconceitos em diferentes países do continente americano.

“Eu não estou louca, gente”. Não, Samara não está louca quando se recorda das três vítimas enterradas de cabeça pra baixo em um cemitério clandestino Jardim Ângela, Extremo Sul de São Paulo – em fevereiro de 2016, a Polícia Civil encontrou as ossadas em uma área rural da região. Também não está louca quando lembra de Matheus Freitas, jovem negro universitário de 24 anos que morreu em outubro passado após ser baleado por um policial militar enquanto jogava bola em uma quadra esportiva de uma escola no Grajaú, também no Extremo Sul.

“Não queremos contar mortos. Não queremos contar jovens mortos. Não queremos contar mulheres mortas. Queremos construir cenários que garantam a vida”, reforça o professor José Manuel Valenzuela Arce, da Universidade de Tijuana (México).

No ano passado, mais de 140 mil pessoas foram assassinadas somente na América Latina e 30 mil estão desaparecidas. Na Colômbia, onde 220 mil mortes aconteceram em meio a conflitos armados entre 1948 e 2012, 80% das pessoas assassinadas eram civis desarmados vitimadas por traficantes, militares do estado ou paramilitares. Nesse período, mais de 2,5 milhões de crianças tiveram que deixar suas casas por causa da violência. Já na América Central, uma situação de guerra civil que afeta El Salvador, Honduras e Guatemala vitimou mais de 45 mil jovens desde os anos 1980.

Como a maioria é de jovens, acadêmicos passaram a conceituar o que chamam de um “juvenicídio” causado principalmente pela precarização econômica, urbana, social e das possibilidades de se construir cidadania – mais de 200 milhões de pessoas estão desempregadas na região. Porém, coletivos e movimentos que organizaram o encontro com o Instituto de Saúde e Conselho Regional de Psicologia fazem questão de corrigir o termo: “chamamos de genocídio porque tem alvo. E o suspeito tá relacionado a questões de raça e pobreza”, diz Samara, que é membro do Fórum em Defesa da Vida na Zona Sul.

A mais recente constatação é do Atlas da Violência 2017, elaborado pelo Instituto de Pesquisas e Estatística Aplicada (IPEA) e Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Em 2015, mais de 59 mil pessoas foram assassinadas no País – 31 mil delas, com até 29 anos. O levantamento aponta ainda que a cada 100 pessoas assassinadas no Brasil, 71 são negras. De acordo com informações do Atlas, os negros possuem chances 23,5% maiores de serem assassinados em relação a brasileiros de outras raças.

No continente americano, que concentra 43 das 50 cidades com as mais altas taxas de homicídios do mundo, as vítimas não têm apenas pouca idade: são em sua maioria descendentes de povos indígenas nativos e de africanos raptados e escravizados por europeus.

“É triste. Entra ano e sai ano, e estamos aqui falando disso”, lembra Debora Silva, coordenadora do Movimento Mães de Maio, que ela criou 11 anos atrás, após o assassinato de seu filho Edson Rogerio Silva pela Polícia Militar do Estado de São Paulo. “Enquanto estamos aqui nessa bolha, o estado tá hoje matando nossos filhos na favela. Amanhã de manhã, por volta do meio-dia, o estado tá jogando meu filho em uma vala comum”, continuou Débora, chamando atenção para a necessidade de ações efetivas contra o genocídio.

“Nós necessitamos de colaboração. Eu não posso ser livre antes que toda a população negra no Brasil esteja livre e que toda a população negra em todo lugar esteja livre”, ressaltou o ativista Kleaver Cruz, do movimento Black Lives Matter em Nova York. Nos Estados Unidos, onde a população negra corresponde a apenas 11% – bem menor que no Brasil, com 54% -, uma em cada quatro pessoas vitimadas pela polícia eram negras (metade elas, com até 29 anos de idade).

Apenas neste ano a polícia norteamericana matou 385 pessoas. Por outro lado, 99% dos casos envolvendo negros não deram em nada. Ao mesmo tempo, a “América” de Donald Trump tem 2,3 milhões de pessoas presas – o maior contingente em cárcere do mundo. Entre os presos, 33% são negros e 22% latinos. Sob os pés de um retrato do imperador Dom Pedro II e com uma plateia lotada na Faculdade de Direito da USP, porém com menos negros e negras do que esperava, Klevear aponta a origem disso tudo: “A branquitude ser o centro é o que nos trouxe até aqui”.

Valdenia Paulino, do Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente – CEDECA Sapopemba, chama a atenção para a cor desses homicidas: a elite branca, que herda cargos e vagas nas casas legislativas, no judiciário, nas reitorias das universidades, nos grupos religiosos. O defensor público Vinicius Conceição nota que a o racismo institucionalizado transmite a todo momento a ideia de que o corpo negro pode ser vilipendiado.

“Estamos cansadas de pagar os algozes dos nossos filhos. Estamos cansadas de pagar os mandantes dos assassinatos de nossos filhos”, salienta Debora, das Mães de Maio.

O professor Deivison Mendes Faustino nota que, além da morte física, há uma morte moral e simbólica que desumaniza a população negra e que começa desde o ventre da mãe – as mulheres negras são as que mais morrem no parto – e se mantém por toda a vida.

Nesse sentido, os meios de comunicação exercem um papel fundamental de construção de imaginários coletivos. O professor Dennis Oliveira, da ECA-USP, lembra que as principais emissoras de televisão pertencem a cinco famílias patriarcais brancas que representam as elites econômicas e políticas brasileiras, enquanto que os jornalistas mais conhecidos pelo público são em sua quase totalidade também brancos.

Já Juliana Gonçalves, jornalista do Brasil de Fato e integrante da Comissão de Jornalistas pela Igualdade Racial (Cojira), observa que o jornalismo hegemônico está imbuído de valores racistas, sexistas e classistas. Por outro lado, a reação vem de pequenos quilombos de resistência na imprensa. Desde a primeira metade do século 19, em 1833, com a fundação do jornal O Mulato, até hoje são as mídias autônomas negras e periféricas que estão pautando a partir das bordas para o centro os grandes meios de comunicação. “Palmares não pediu licença para acontecer, e a gente também não deve pedir”, concluiu.