Debate realizado no CEU Parelheiros, durante a programação do Mês do Hip Hop (Foto: Thiago Borges / Periferia em Movimento)

Genocídio: golpe permanente Independente da corrente que se sagrar vitoriosa na votação deste domingo, a gente sabe que vai seguir sangrando por aqui

“Impeachment já!” ou “Não vai ter golpe”?

Independente da corrente que se sagrar vitoriosa na votação deste domingo (17/04), quando os olhares de todo o País miram o Congresso Nacional, a gente sabe que vai seguir sangrando por aqui, nas quebradas.

Nessa “polarização”, seguimos discutindo um golpe permanente que divide o País há 500 anos, bem antes de construírem aquele muro em Brasília pra separar manifestantes: o genocídio do nosso povo.

Importante ressaltar que nós, do Periferia em Movimento, nos posicionamos contra o golpe jurídico-midiático que está em curso por entendermos que aprofundaria as desigualdades atuais. E, por isso, integramos o movimento #PeriferiasContraOGolpe com mais de 470 associações e coletivos periféricos, onde reafirmamos que “a democracia real será efetiva apenas com a ampliação de direitos e conquistas de nosso povo preto, periférico e pobre, a partir da esquerda e de baixo pra cima”. Leia aqui.

E não, não consideramos efetiva uma democracia em que 39.686 pessoas foram mortas por armas de fogo em 2012 – sendo que 27.683 delas eram negras, segundo o Mapa da Violência. Nem um estado que mata por meio de seus agentes: em 2014, 65% das vítimas dos mortos por armas de policiais eram negros, segundo reportagem da Agência Pública. Ou uma sociedade em que o homicídio de mulheres brancas caiu de 1.747 vítimas para 1.576 na última década, enquanto a morte entre as mulheres negras aumentou de 1.864 para 2.875. Mapa da Violência 2015 – Homicídio de Mulheres no Brasil.

Os dados não mentem, muito menos a dor de quem foi vitimado pelo genocídio. “Não existe bala perdida pros pretos. É bala encontrada”, alerta Amanda Negrasim, rapper e integrante do coletivo de produção cultural Herdeiras de Aqualtune.

Porém, o extermínio físico é apenas o resultado de um processo anterior, simbólico, naturalizado. “Antes disso, tem toda uma conjuntura da supremacia branca pra destruir e desumanizar os pretos”, observa Aliado Treze, rapper do grupo Única Chance e integrante do Fórum de Hip Hop, do Comitê contra o Genocídio e da Frente Negra do Grajaú.

As armas do genocida já estavam engatilhadas muito antes do primeiro negro sequestrado no continente africano subir no navio negreiro.

Ao proibir práticas e determinar padrões como roupas, língua, religião e músicas, os europeus determinaram que existem culturas de alta e baixa relevância, que influenciam até hoje nas tentativas de embranquecimento dos saberes do brasileiro e apagamento das culturas ancestrais africanas.

“Quem levava a importância era o senhor dono das terras, não os escravos que eram quem realmente produziam. E após a proibição da escravidão, temiam a cultura do negro, queriam que se estabelecesse no País uma arte ‘superior’ (europeia)” com o apoio à imigração de europeus para o Brasil, diz Wilson Ferreira, historiador que participou de uma conversa sobre o assunto no Cedeca Interlagos (Centro de Defesa da Criança e do Adolescente) na última segunda-feira (11/04).

Negar a cultura é uma forma de genocídio, e isso entra nos hábitos de consumo, na criação de moldes para uma identidade cultural

(Wilson Ferreira)

Café amargo

Da plantação de cana-de-açúcar às colheitas de café, ambos exportados para manter hábitos europeus, a mão-de-obra era negra e não podia usufruir do que produzia. Mas hoje, num País tropical, o cafezinho é um item da identidade nacional. “Ninguém oferece fruta pras visitas, mas não pode faltar o café. Isso faz parte de um branqueamento das mentes e não pensamos em quantos dos nossos morreram nas colheitas”, observa Wilson.

Esse genocídio cultural também reflete nas separações espaciais entre seres humanos nas cidades do início do século 20. “Na época da higienização dos centros urbanos, esses territórios deixaram de ser espaços para negros”, conta Mônica Gonçalves, psicóloga presente na conversa com Wilson. “Isso faz parte do programa genocida do Estado. Enquanto exigiam janelas grandes para facilitar a circulação de ar nas casas no centro da cidade, excluíam as populações de cortiços, e os pretos e pobres tiveram que se mudar para as periferias”.

A “herança” da escravidão se reflete nas estatísticas: nas cadeias, 80% são negros; nas universidades, 10%. Para acabar com as diferenças entre negros e brancos, é papel do Estado usar recortes raciais em suas políticas públicas.

“O Bolsa Família tirou mais brancos que negros de situações de pobreza extrema, então as políticas públicas universais ainda não adiantam para a população negra”, observa Mônica, que atenta que as oportunidades dadas não são as mesmas. “É o Estado que opera a política, é o policial que vai decidir quem morre não morre, quem mata, quem não mata em que circunstancia, o médico vai decidir a quem vai oferecer determinado tratamento, e ele carrega o Estado todo”, exemplifica.

A militância acontece desde o micro, em uma aula de capoeira, até o macro, na reformulação de políticas de Estado, e o movimento negro é atuante em todas elas. O grupo Abayomi Aba Pela Juventude Negra Viva trabalha no fortalecimento da discussão desde 2012, conta Tati Preta Soul. Das formações do quilombos à luta de Zumbi e de Luiz Gama, espaços de resistência fazem a diferença.

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“A história do samba, por exemplo, mostra essa consciência, que a gente tava num lugar desumano e o samba era forma de resistir”, diz Mônica, para quem a disseminação de informação sobre o genocídio é essencial para que o povo perceba as raízes do problema e vá à luta.

Quem está fazendo isso na prática é o Fórum de Hip Hop de São Paulo, que há mais de uma década vem pautando o genocídio do povo preto, pobre e periférico. Neste ano, os grupos que integram o Fórum realizaram mais de 50 atividades entre shows, debates e oficinas envolvendo quase mil artistas dos quatro elementos do movimento Hip Hop, cujo tema foi “Capital da diáspora africana”.

“O racismo estrutural se dá a partir da diáspora”, observa Aliado Treze, em entrevista após debate realizado no CEU Parelheiros no dia 07 de abril. “ O Mês do Hip Hop propõe para discutir em São Paulo, porque é uma cidade racista e não discute o racismo. E o movimento preto e periférico tá trazendo isso”.

A série de eventos também pautou a efetivação da lei federal 10.639 de 2003, que determina o ensino da cultura e história africana e afrobrasileira nas escolas, mas não é cumprida de fato.

Essa lei serve para tirar a ideia de que nós negros somos escravizados, porque todos os livros na escola nos tratam como isso. Só que esse negro escravizado tem História (…) É uma forma de debater a autodeterminação de um povo

(Aliado Treze)

O encerramento aconteceria no sábado (16 de abril), com cinco palcos no Vale do Anhangabaú, mas foi prejudicado pela conjuntura política do País e teve de ser cancelado por conta das manifestações.

“O que está se disputando nesse momento são duas formas de burguesia [de esquerda e de direita]. Essa discussão encobre outras coisas, porque o número de homicídios continua alto”, aponta Pirata, que alerta: “A gente tem que lutar, bater de frente, pra ter um País diferente onde a periferia determina as coisas”.

 

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