Por Fernanda Souza*

Orientação de reportagem: Gisele Brito. Edição de texto: Thiago Borges. Edição de áudio: Paulo Cruz. Artes: Rafael Cristiano

No fone de ouvido de Ronald Custodio sempre tá pegando um funk. E o que mais toca é MC Hariel, um dos expoentes do chamado funk consciente, subgênero que tá em alta nas ruas e nas redes. Ronald diferencia as vertentes pelos instrumentos utilizados e o contexto narrado, com um papo mais sério em que MCs passam a visão sobre assuntos do momento e usam trocadilhos pra chamar a atenção de quem ouve. 

“A maioria das coisas ali cantadas já aconteceram comigo ou próximo de mim. É algo do meu dia a dia ou dos meus amigos. Chega até a arrepiar. Isso me motiva a cantar e ouvir. Sem contar a visão que ele passa”, diz o jovem estoquista de 19 anos, que mora na quebrada da Caixa D’Água, entre Interlagos e Diadema (região metropolitana de São Paulo).  

Para ele, a música “Hit do ano” é foda por expressar isso de forma natural, especialmente nos trechos que em que MCs brincam com a ideia de fazer funk e são criminalizados por isso.

Ronald Custodio (foto: arquivo pessoal)
Eu tivesse com o cavalo jogando a peça pra cima
Ou então se eu tivesse pulando seu muro
Roubando todas suas joia, rendendo sua família
E se na hora que você parasse o carro no farol
Era a brecha que o delinquente queria
E se eu deixasse de lado a pipa e o cerol
Abrisse uma loja de droga, montasse várias franquia
Lixo é esse sistema que é feito de pilantra
Só de pensar no governo o ódio me dá tédio
Eles exige que você grite só pra ter dor de garganta
E depois ele quer te vender o remédio
Imaginaram eu trocando tiro com a polícia
Imaginaram eu passando no plantão das 6
Sorte que o funk veio com tudo na minha vida
E hoje o VG 'tá aqui cantando pra vocês
Imaginaram eu vendendo droga na lojinha
Imaginaram, só que não foi dessa vez
Avisa a favela, o funk 'tá mudando vidas
E hoje o elenco lança hit pra vocês
Hit do Ano, 9°trecho - MC Menor da VG

Sem deixar de lado outros subgêneros, como o mandelão, quem curte funk tem aderido ao consciente por uma representação do que vive no dia a dia. Uma playlist oficial do spotify sobre a vertente tem mais de 212 mil curtidas. Outro fenômeno está no youtube, onde “Cracolândia” chega a 200 milhões de visualizações. A música é uma parceria  entre DJ Alok, MC Hariel, MC Davi, MC Ryan SP, Salvador da Rima e Djay W, e atingiu a marca dos primeiros 100 milhões de views nos primeiros 45 dias no ar – um feito para os envolvidos na parceria. 

Nesta reportagem, a Periferia em Movimento fala das origens do funk consciente, da retomada do subgênero e o impacto das letras entre quem escuta. Pra acompanhar a reportagem, dá o play na seleção que a gente fez com alguns dos maiores sucessos.

Pra começo de conversa

Mas eu só quero é ser feliz, feliz, feliz, feliz, feliz
Onde eu nasci
E poder me orgulhar
E ter a consciência que o pobre tem seu lugar
Minha cara autoridade, eu já não sei o que fazer
Com tanta violência, eu sinto medo de viver
Pois moro na favela e sou muito desrespeitado
A tristeza e a alegria aqui caminham lado a lado
[...]
Rap da felicidade, Cidinho & Doca

O funk é um gênero musical que está sempre em movimento. Nascido no final dos anos 1970 no Rio de Janeiro, pega referências de outros gêneros e gera vertentes como o funk rave, uma mistura do ritmo eletrônico com o pontinho do funk. E nessa história, o consciente é um dos subgêneros mais antigos, surgindo na década de 1990 e tendo como forte característica letras que mostram a realidade das favelas cariocas. Temas como o racismo, o abuso policial e a reivindicação de melhores condições de vida ecoavam nos versos. 

Segundo Juliana Bragança, em seu livro ‘’Preso na Gaiola, a criminalização do funk carioca nas páginas do jornal do Brasil”, nomes como Cidinho & Doca (da Cidade de Deus), William & Duda (Morro do Borel) e Junior & Leonardo (Rocinha) são artistas que fazem parte da ‘’velha guarda’’ do funk e que devem ser citados quando o assunto é o subgênero consciente.

‘’O consciente já existe há muito tempo, como o ‘Rap da Felicidade’ e o ‘Rap do Silva’. Além da parte violenta, do sangue, da dor e do choro, também tem a parte política e as pessoas que reivindicam melhorias. Pessoas que não tem voz se inspiram nessas músicas’’, nota MC Smith, um “relíquia” (alguém antigo no movimento) do funk carioca, que lembra que a vertente pegou a estrada e aportou no início dos anos 2000 na Baixada Santista (SP), considerada a segunda casa do funk.

Foi no litoral paulista que nomes como Felipe Boladão, MC Primo, Duda do Marapé e outros que também já faleceram se tornaram conhecidos por cantar o proibidão – subgênero que aborda temas como crime organizado -, mas também por letras que se encaixavam no funk consciente.

Lágrimas caem quem já passou no sofrimento
Coração bate acelerado mó saudade
Na minha vida toda só tive arrebento
Família minha, meus amigos de verdade
Era muito longe, às vezes não tinha visita
Graças a Deus os companheiros lá da Ilha
Sempre chegaram e nunca esqueceram de mim
Em qualquer situação eu ia até o fim
Mas mesmo assim a saudade continuava
Lágrimas - Duda do Marapé

Essa vertente consciente em São Paulo nunca deixou de existir, mas ficou um pouco de lado ao dividir o protagonismo com subgêneros como o ostentação, que surgiu em 2008 e viveu o auge nos governos Lula e Dilma (PT). Segundo Thiago Torres, mais conhecido como o Chavoso da USP, o sucesso na época refletiu um período de aumento do emprego com carteira assinada, acesso a crédito e a sensação de integração à sociedade por meio de carros, roupas e bens de consumo.  

Agora, o momento histórico é outro. 

A crise social e política pela qual atravessa o País, bem como a busca por informação, colocam o funk consciente paulista em alta novamente. Desde 2019, uma lista com nomes como MC Hariel, Marks, Lipi, Paulinho da Capital, Cassiano e outras ganha mais integrantes.

A primeira geração destacava as vivências nas periferias, a referência às origens e as questões sociais. A segunda onda carrega essas características, mas com uma carga política mais evidente – o que faz o funk consciente ser relacionado ao “rap de mensagem”. 

Especula-se que a retomada é marcada por “Sou Vitorioso”, que chegou a ficar semanas no top 50 das mais ouvidas do Spotify, atingindo o 6º lugar. A música junta MC Neguinho do Kaxeta, referência da primeira geração do consciente, que retorna à vertente após transitar por outros subgêneros; e MC Lele JP, da geração atual.

Por que tamo ouvindo?

MC Marabu (foto: @thalita_gui)

Cria do Capão Redondo (zona Sul de São Paulo), MC Marabu curte ouvir MC Cebezinho, que tem uma pegada melódica, com referências de forró e reggae, pra falar das vivências da quebrada. É comum no movimento artistas transitarem entre os diferentes subgêneros, espelhando a complexa realidade do momento, e não necessariamente encaixar uma música em tal vertente. 

‘’Eu tenho um pouco de problema com as divisões. Hoje em dia, as coisas são mais profundas, mas é a melhor forma que temos encontrado pra chamar. É reflexo da nossa quebrada, vivências, neuroses e expectativas’’, observa o MC de 24 anos. 

Pablo Cerqueira (foto: arquivo pessoal)

Conhecido como MC PEAA, Pablo Cerqueira canta a vertente mandelão (ou putaria) mas tem uma ligação forte com o chamado consciente. “Eu curto funk consciente porque ele fala sobre a vivência, mano. Representa a realidade não só da massa funkeira, mas acredito também de quem é da favela”, afirma o jovem de 25,  anos que é morador da quebrada da Espraiada (zona Sul de São Paulo), assim como o finado rapper Sabotage. 

Para ele, “Hit do ano” também é um marco por trazer uma letra que não passa batida e que demonstra que a periferia entende a política de forma orgânica, debatendo questões do dia a dia. “Ah, envolve opressão, política. É só prestar atenção na letra que vão perceber que o que os caras falam é tudo verdade’’, comenta Pablo.

Joga no peito a cobrança de ser favelado
De andar com o vidro baixo e eles vim parando
É que se pá chegou a época dos PL safado
Prometer pra minha favela o hospital do ano
Joga na cara da madame e manda ela descer
Sem opinião que ele também foi ser trabalhador
É que se pá entregou currículo e o filho do boyzão
Mandou ele meter marcha só por ser pobre e favelado
Eu sou mais uma voz periférica da comunidade
Não me inspirei no Bolsonaro e nem no tal Haddad
Pra favela os popstar é o Haridade e pá
O Neguinho do Kaxeta e o mestre Tupac
Olha, o tormento é um na cara
Poucas ideia, vergonha pra mídia
Tem que colocar fé pros favelado vencer
Povo preto no poder, 'cê entende minha brisa?
Hit do Ano, 8°trecho - MC Ryan SP

MC Luanna, que canta funk e outros gêneros musicais, aponta que ainda falta representação das minas na vertente. Ainda assim, a artista de 26 anos que vive em Osasco (região metropolitana de São Paulo) ouve o funk consciente porque a aproxima da realidade. O MC que ela mais gosta é Cassiano, pois traz uma linguagem fácil e vivência próxima à dela. “Minhas músicas favoritas são ‘A favela tá moiada’, do MC Cassiano, ‘Gominha da Rainha’, do MC Magal, e ‘Fé, prego e madeirite’, do Neguinho do Kaxeta’’, conta.

“Eu continuo escutando porque é uma representação ali querendo ou não do que eu vivo, tá ligado? É você ouvir e sentir que tem alguém ali falando por você, mesmo que a narrativa não venha de uma mulher, tá ligado?’’, completa MC Luanna.

MC Luanna (foto: arquivo pessoal)
Nunca teve uma irmã tirada de puta por usar roupa curta
Entende, truta? Esse é o peso da luta
Esse é o peso da luta
[...]
E pros amigo que é desfalque ficou na memória
Acostumado com um gosto de uma vida amarga
Uma harmonia nova a toda bomba que estoura
E pro governo que não ajuda e, ao contrário, atrasa
Não tem lazer, não tem cultura e nem um hospital daora
A gente cresce sendo alvo de opressão e raiva
A gente trampa pra carai em troca de esmola
A gente só ganha atenção quando é na tela do Datena
[...]
Hit do Ano, 1°trecho MC Leozinho da ZS, 2°trecho MC Hariel

E a favela tá formada e é o elo na corrente. Então vai treta. Avisa que é o funk.

*Fernanda Souza é participante do “Repórter da Quebrada – Uma morada jornalística de experimentações”, programa de residência em jornalismo da quebrada realizado pela Periferia em Movimento por meio da política pública Fomento à Cultura da Periferia de São Paulo

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2 comentários

  1. Parabéns pela matéria!
    Ser branco num país racista é suave, quando a polícia te para e aponta arma p seu Amigo que está no banco do passageiro, só pelo fato dele ser negro!
    Isso não é só triste é revoltante!

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