Texto atualizado às 13h do dia 25/10/2019 para incluir respostas da Fundação Paulistana

Representando dezenas de coletivos culturais, o Fórum de Cultura da Zona Leste publicou nesta quinta-feira (24/10) uma carta de repúdio à 5ª edição da FLICT, a Festa Literária de Cidade Tiradentes.

O movimento aponta que, ao longo dos anos, a Prefeitura de São Paulo vem diminuindo o orçamento da festa e, em 2019, agentes culturais locais sequer foram convidados para a curadoria ou programação.

“Um dos pontos críticos que também observamos diz respeito à temática da FLICT deste ano, que inicialmente seria sobre Valorização do Povo Preto (no entanto estava descrito Raça Negra em documentos elaborados pelos organizadores) (…) Porém, pela falta domínio do tema, foram alterados para uma temática genérica desconsiderando a relevância do tema inicial que dialogaria melhor com realidade de Cidade Tiradentes e a produção literária desenvolvida pelos artistas, escritores do território”

Carta do Fórum de Cultura da Zona Leste. Leia íntegra abaixo.

A FLICT, que começou na última terça-feira (22/10) e vai até domingo (27/10), é promovida pelo Centro de Formação Cultural da Cidade Tiradentes (CFCCT) e movimenta diversos espaços do Extremo Leste da capital paulista com shows, saraus, exibição de curta-metragem, rodas de conversa, slams de poesia e mediação de leitura.

Com o tema “Todos podem aprender”, a FLICT conta com a presença da escritora, professora e coreógrafa Kiusam de Oliveira, promotora da valorização da diversidade e do multiculturalismo. Desde 2015, a festa já recebeu escritores consagrados como Ilan Brenman, André Vianco, Heloísa Prieto, Ferréz, Sérgio Vaz e Djamila Ribeiro.

Outro lado

O CFCCT é administrado pela Fundação Paulistana de Educação, Tecnologia e Cultura, vinculada à Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico e Trabalho da Prefeitura de São Paulo.

A Fundação foi procurada pela Periferia em Movimento e respondeu à solicitação de informações apenas na sexta-feira (25/10), quando o texto já havia sido publicado. A reportagem atualizou o texto para incluir a versão da Fundação, que aponta que a “FLICT ocorre de forma espontânea, sendo fomentada por diversos atores presentes no território da Cidade Tiradentes que se organizam para realizar a Feira, dentre eles, poder público, coletivos, associações e entidades”.

A Fundação também informa que colabora com o evento promovendo ações literárias sem recursos ou cedendo espaço de forma gratuita. “Os equipamentos da Prefeitura de São Paulo participantes da Feira utilizam os recursos previstos para as atividades mensais para a realização dos eventos culturais”, completa a nota. Segundo a Fundação, no dia 03 de outubro a organização publicou na página 77 do Diário Oficial da Cidade um chamamento público convocando interessados, pessoas físicas e jurídicas, para realizar parcerias, sem transferências de recursos, para participar da FLICT. Além disso, a nota aponta ainda que participa de encontros junto com demais agentes públicos e culturais para discutir a programação.

Leia abaixo a íntegra da Carta de Repúdio do Fórum de Cultura da Zona Leste:

“Vocês já ouviram falar na FLICT?

Festa Literária de Cidade Tiradentes, uma ação literária periférica  que já acontece desde 2015, composta pelos artistas locais e poder público através da BIBLIOTECA TEMÁTICA EM DIREITOS HUMANOS MARIA FIRMINA DOS REIS – CFCCT. Onde desde primeira edição, são  promovidas ações que aproximem a população de Cidade Tiradentes com o universo do livro e da literatura.

A edição de 2019, de forma inacreditável conseguiu deixar de fora praticamente todos artistas, escritores, poetas, poetisas, slammers, agentes literários, mediadores de leitura e contadores de histórias do território para super valorizar artistas de outras regiões deslegitimando uma curadoria que sempre foi construída de forma coletiva com o território, gestores públicos dos equipamentos da rede Socioassistencial bem como escolas, CEUS, Pontos de Leitura, Bibliotecas Comunitárias entre outros.

Um dos pontos críticos que também observamos diz respeito à Temática da FLICT deste ano que inicialmente seria sobre Valorização do Povo Preto (no entanto estava descrito Raça Negra em documentos elaborados pelos organizadores)  que, porém pela falta domínio do tema, foram alterados para uma temática genérica desconsiderando a relevância do tema inicial que dialogaria melhor com realidade de Cidade Tiradentes e a produção literária desenvolvida pelos artistas, escritores do território.

Cabe ainda ressaltar a total falta de respeito com os coletivos culturais, agentes literários, escritores e poetas periféricos do território!! Pois consideramos sempre que se faz importante sim, quando se convida artistas de outras regiões, no entanto e a produção local? Novamente desvalorizada ao EXTREMO!

A FLICT em suas edições anteriores tem um histórico de receber escritores consagrados como Ilan Brenman, André Vianco, Heloísa Prieto, Ferréz, Sérgio Vaz, Eduardo Taddeo, mas quando se fala em contratar financeiramente, aí não se abre espaço para os talentos literários da região, sendo estimulada uma parceria sem fomento financeiro com coletivos, artistas, poetas, poetisas da região sendo deste modo uma em que você entra na programação e faz acontecer e pronto! Sem qualquer remuneração em um evento que possui verba pública e privada, mas que está sendo direcionada sobretudo a pessoas que não pertencem ao território , isso é valorizar a produção local?

Assim sendo, o histórico dos anos anteriores da FLICT desde 2017, percebemos existe um descaso das gestões municipais no que diz respeito ao investimento de remuneração para realização desta ação. Considerando que nas primeiras festas foram feitas com emendas parlamentares, recursos públicos da SMC/ Fundação Paulistana com um planejamento e compromisso com diversos diálogos de representantes do bairro com o poder público.

Este ano nos deparamos com a falta de verba, tanto  da Secretaria Municipal de Cultura como da Fundação Paulistana equipamento  este responsável em realizar chamamento Público para coletivos do território, fomentar e garantir a participação da comunidade tanto nas programações bem como contratações ações literárias.

Uma grande questão que indagamos é: Onde estão os gestores do CFCCT  pleiteando e planejando recursos para fomentar e financiar uma atividade que tem grande impacto no bairro e nas escolas da região?

Para onde estão destinados os recursos anuais? Para eventos pontuais?

Esta denúncia evidencia também que nos últimos dois anos o CFCCT e sua organização têm focado suas ações e atividades para mero entretenimento ou empreendedorismo, ignorando todos os pressupostos criados pelos Fóruns Populares do bairro e que se consolida por meio do decreto de construção deste espaço. Cadê as ações voltadas para os Direitos Humanos? Voltadas às questões da população, negras, as mulheres indígenas, Juventude etc que era uma demanda fundamental para se pensar as atividades culturais e de formação? Como o CFCCT  tem sido ponte para fortalecer os coletivos da região seja destinando verbas e ou o espaço do prédio? Temos visto na verdade casos de maus- tratos, cerceamento de coletivos, racismo, homofobia e Transfobia promovidos pelos funcionários e gestores do espaço.

Dessa forma manifestamos nosso total repúdio da forma como vem sendo conduzidas as ações frente à organização e realização da 5° EDIÇÃO DA FESTA LITERÁRIA DE CIDADE TIRADENTES e denunciamos o uso do cargo e do dinheiro público que não possuem transparência, ética e compromisso. Sendo esta uma prática totalmente nociva contra o território, às políticas públicas de cultura e para população em geral.

Assinam o texto:

FÓRUM DE CULTURA DA ZONA LESTE
MOVIMENTO CULTURAL DAS PERIFERIAS
GT MULHERES PRETAS QUE MOVEM CIDADE TIRADENTES
MOVIMENTO CULTURAL CIDADE TIRADENTES
ALIANÇA NEGRA A POSSE
MOVIMENTO ARTE PLURAL PERUS
FRENTE SP LEITORA
COLETIVO CUTURAL EGBÈ OMIDELE CIDADE TIRADENTES
COLETIVO REVOLUCIONÁRIO JOSINA MACHEL
COLETIVO DE ESQUERDA FORÇA ATIVA
REDE NACIONAL DE BIBLIOTECAS COMUNITÁRIAS
LITERASAMPA
COLETIVO JUNTAS NA LUTA
CIA 4 VENTOS

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