Por Julia Vitoria

Quantas boas histórias, risadas e novas amizades a cerveja já não te proporcionou? Agora: você já parou para refletir sobre o que está ingerindo? 

Em diferentes pontas da região Sul da metrópole paulistana, tem gente pensando sobre isso e elaborando suas próprias bebidas. As quebradas também estão produzindo cervejas artesanais próprias, que levam em conta o sabor, os trabalhadores envolvidos, o território e a luta por direitos. É o caso da Benedita e da Brassaria 4.1.4, cervejarias que a gente apresenta nesta reportagem.

Atenção: Se beber, não dirija. 

Esta é a 4ª matéria da série Fortalece Quebrada, um projeto da Periferia em Movimento e da agência de comunicação Bora Lá para destacar empreendimentos criados por moradoras e moradores das periferias de São Paulo.

Um brinde às lutas

Não é muito comum ouvir falar de cervejarias artesanais fora dos grandes centros de São Paulo. Mais dificultoso ainda ter mulheres como donas e fabricantes nesse mercado, que conta com uma presença masculina de 87%, segundo uma pesquisa de janeiro deste ano feita pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas (SEBRAE). 

É o caso da Cervejaria Benedita, fundada em 8 de março de 2018 (dia internacional da mulher) em Taboão da Serra, região metropolitana de São Paulo. Por trás da iniciativa, estão aempreendedora social Melissa Miranda, de 44 anos, e pela gestora ambiental Eneide Gama, 48.

“Quando escolhemos um segmento elitizado, machista, de classe média, fomos experimentando gradativamente os desafios que isto tudo envolve. No começo não tínhamos noção destas dificuldades, eram críticas de que mulher não entendia nada de cerveja, que a cerveja artesanal não é boa, que a cerveja da Vila Madalena é melhor.  Enfim, fomos nos deparando com estas coisas e fomos contornando”, explica Melissa.

Foto: Divulgação

A produção da cerveja começou como uma brincadeira entre amigos. O nome foi uma homenagem ao sogro de Melissa, um nordestino “arretado”. Com o passar do tempo, encarnou em seu sabor e descrição lemas importantes de vida. 

“Caímos no gosto de fazer, principalmente por conseguirmos trabalhar os conceitos da Benedita. A cerveja é apenas o fio condutor para falarmos de feminismo, antirracismo, antifascismo, xenofobia, economia solidária e no pensar global e agir local. Acreditamos em igualdade, respeito e solidariedade”, conta Melissa.

Fabricar cervejas artesanais é uma arte que vai muito além da escolha de insumos e ingredientes diferenciados. Nesse processo, a cervejeira acompanha cada etapa e produz de forma natural os sabores da cerveja. E diferente da cerveja industrializada que é feita por máquinas, na produção da cerveja artesanal, há uma aproximação entre o produtor o produto final e o distribuidor. 

“Várias vezes nós sentamos no bar, pedimos uma garrafa e ouvimos os comentários. Quando nos apresentávamos, as reações eram das mais diversas. Mas no fundo sempre fomos tratadas com carinho”, lembra Melissa.  

Antes da pandemia, a cerveja Benedita era distribuída em bares parceiros e feiras. Agora, os pedidos são feitos de forma programada pelo whatsapp, facebook ou instagram, e são entregues em toda grande São Paulo aos sábados. “A ideia é sempre fortalecer a rede do pequeno empreendedor periférico. Procuramos nos refinar com mulheres”, observa Melissa.  

Como funciona? | Para comprar da Benedita, faça seu pedido pelo facebook, instagram ou whatsapp (11 991468445). Os pedidos programados são entregues aos sábados em São Paulo. Para comprar durante a semana, é possível se dirigir a algum dos estabelecimentos abaixo. 

  • Centro: Caxiri Chopp, Bar Vitral, La Sartén e Presidenta
  • Zona Leste: Eating Fit, Atelie Camila Marchiori
  • Zona Oeste: Empório Reverendo, Cão Verde, Feirinha do Edu, Zuraffa, Cafe de Marte
  • Zona Sul: Nego Barbearia, Pizzaria Viana, Boteco in box, Relicário rock & bar, Giô culinária artesanal, Graja Beer
  • Jundiaí e Osasco: Casa Amaria, Empório Vegan’Oz, VeganXinha 

Cerveja viva

Há uma ligação muito forte da cerveja artesanal com o território em que ela é produzida. E o caso da Brassaria 4.1.4 começa em 2017, quando o arte-educador e militante Du Graja, 35, decide abrir o Du Pub, um espaço de encontro no Grajaú, Extremo de São Paulo.

“Em 2018, começamos nossa primeiras brassagens de cerveja e transformando nosso pub em um um brewpub (que é o bar que produz sua própria cerveja) e, ao mesmo tempo, incubando nosso projeto Brassaria 4.1.4”, explica.

Cerveja da Ilha: inspirada no bairro de Ilha do Bororé, o rótulo é uma blond ale de uvaia, fruta nativa da região (Foto divulgação)

Junto a Ricardo, empreendedor social, ele fundou oficialmente a Brassaria 4.1.4 como lugar de criação e produção de cervejas que seriam vendidas no pub. “Historicamente, não é nossa cultura fazer cerveja na quebrada. É algo de resistência em todos os aspectos, com acesso a equipamentos, estudo formal, padrões do sistema”, explica Du. 

Localizada às margens da represa Billings, a Brassaria já tem 4 rótulos próprios e chopp artesanal inspirados na quebrada. Além disso, pensando nas pessoas com intolerância a glúten e com doença celíaca, a cervejaria lançou a Lupulokos Celíacos, que é feita a base de grãos sem glúten.  

Du adiou alguns planos por conta da pandemia, mas a produção não parou. “Nossa expectativa é continuar o projeto cultural em nosso pub e usar a cerveja como forma de diálogo com nosso público. Vamos replicar nosso conhecimento para mais pessoas que querem aprender a fazer cerveja”, promete. Além do pub, as cervejas são vendidas em espaços como o Café da Mata e a Toca dos Brows. “O diferencial da nossa cerveja, por ser 100% artesanal, é que é uma cerveja viva”. 

Como funciona? | Pra pedir cerveja da Brassaria 4.1.4, você pode pedir para entregar em domicílio pelo instagram, facebook ou whatsapp (11 977369933) entre quarta e domingo, a partir das 18h. Os pedidos também podem ser retirados no balcão ou consumidos no local (rua Pedro Escobar, 414 – Grajaú) 

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