Reportagem por Laís Diogo. Edição de texto por Thiago Borges. Foto em destaque: Marcha para Jesus (Agência Brasil)

A Periferia em Movimento publica uma série de relatos sobre como moradores e moradores de periferias, com ou sem denominação religiosa, têm vivido sua fé em tempos de quarentena. Clique aqui e leia outros relatos.

Iniciamos esta sexta-feira santa (10/04), com o relato de Michael Campos, que é regente setorial em uma congregação da igreja evangélica Assembleia de Deus na Vila Constância, zona Sul da capital paulista. Confira:

São em momentos de crises ou adversidades onde somos impulsionados a pôr em prática tudo que aprendemos no exercício da nossa fé. A fé cristã é muito bonita no papel, mas ela vai além das escrituras, ela tem que ser vivida cotidianamente, ela tem que ser expressa em todos os nossos comportamentos e sentimentos dos praticantes.

Agora que vamos aprender na prática a exercer cada “til e vírgula” do que ouvimos nos sermões. Sim, exercer a paciência, mansidão, paz, domínio próprio, amor e tudo mais.

Possa ser que algumas pessoas tenham dificuldades nesses tempos de exercer a sua fé, pois precisam de “muletas espirituais” para caminhar, pois foram condicionados a crer que precisam de uma voz de comando para caminhar, que precisam de autorização eclesiástica para viver a fé.

Na real, Deus vai muito além disso. Ele é Onipresente, ou seja, está em todo lugar. A igreja não é prédio. “A igreja sou”, eu afirma a Bíblia, e onde eu estiver Jesus estará lá comigo. Isso me acalma.

Exercer a fé transcende o material, o visível, o palpável… Está no cuidado que temos com nossos pais, respeito entre irmãos, o ceder em discussões bobas, amar o outro a ponto de deixar de lado as rusgas e focar naquilo que nos une neste momento.

Muitos estão divergindo sobre qual ação tomar diante da pandemia, porém na minha denominação e em boa parte das que conheço (ADs) estamos seguindo as orientações em total concordância com as autoridades governamentais e/ou saúde, onde temos que seguir em isolamento social.

Mediante isto, muitos líderes estão fazendo o acompanhamento via meios tecnológicos dos seus fiéis, vídeochamadas, ligando, lives, mensagens de texto diárias para orientar e dar um apoio espiritual aos fiéis, ultrapassando muitas das vezes o acompanhamento só espiritual e fazendo um papel social e muitas das vezes até psicológico dos mesmos.

Os encontros são feitos de inúmeras formas, grupos de whatsapp, via vídeo, lives, ligações etc. São momentos onde tiramos o foco dos problemas e dividimos a esperança, o consolo, as alegrias e etc.

Pude notar até uma mudança nos sermões, onde boa parte deles agora são de cunho mais motivacional, reforço emocional, apoio em crises, trazendo no povo um sentimento de fortalecimento em meio a crise geral.

Sempre os líderes reforçam o cuidado pessoal, entre eles a higiene, oferecem na medida do possível ajuda aos que precisam. Vi em uma live um pastor que comprou 10 litros de álcool gel oferecendo gratuitamente entre a irmandade mais idosa o produto e orientando como e onde usar, isso é muito gratificante.

O ser humano é um ser social. É na sociedade que ele aprende a absorver a essência do que é “ser” humano.

“Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra; se um torrão é arrastado para o mar[…]”, disse John Donne. Ou seja, juntos nos completamos, é em comunidade que as coisas funcionam e acontecem, ver tudo isso sendo mudado de forma tão abrupta/brusca é muito traumatizante para alguns indivíduos, mesmo aqueles que são acostumados com a solitude, que são mais introvertidos estão sentindo as garras do isolamento social rasgando a sua pele ferozmente, pois uma coisa é você não querer sair, outra é não poder sair pelo bem de todos.

O sentimento de muitos é de extrema ansiedade pelo futuro dito como incerto, saúde, economia, desemprego, milhares de mortes, e os noticiários reforçam ainda mais este sentimento de pânico com matérias especiais, reportagens, entrevistas sobre o mesmo assunto quase sempre de forma negativa e que visam amedrontar os telespectadores.

As doenças do século (ansiedade e depressão) estão ganhando área de atuação neste momento, pois muitos estão deixando de viver a vida com medo do que pode acontecer amanhã.

Para aqueles que são mais extrovertido, gostam de sair, conversar, casa cheia de amigos, viajar, passear, está sendo muito mais difícil esses dias, mas ainda vejo que muitos têm procurado meios de ressignificar este momento, por exemplo estudando um novo idioma, colocando a leitura em dia, dando uma atenção maior aos pais e filhos, apoiando causas sociais e etc.

Porém, não podemos esquecer que há um público que esses dias tem sido dias de extrema dificuldade emocional. Cabe a nós apoiá-los neste momento difícil.

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