Falar de sexualidade e gênero na escola ainda é tabu, aponta diretora transexual do Capão Redondo

Texto: Aline Rodrigues
Fotos: Paulo Henrique Sant´Anna

“A escola tem clara a necessidade de ensinar a ler, escrever e calcular, mas não leva em consideração que cada ser para aprender precisa conhecer o seu corpo”, alerta Paula Beatriz Souza Cruz, mulher transexual e diretora da Escola Estadual Santa Rosa de Lima, no Capão Redondo, Zona Sul.

Para ela, se o aluno não está bem resolvido com o seu corpo e não é respeitado por sua identidade de gênero e orientação sexual, isso impacta diretamente no seu dia a dia na escola.

Em debate promovido pela iniciativa Periferia Trans, realizada em março no Grajaú e no Capão Redondo, Paula compôs a discussão sobre o tema “Por uma pedagogia sexual”. Na ocasião, ela levou sua experiência de como o assunto é trabalhado na escola somado a sua vivência na luta por reconhecimento e direito da pessoa transsexual.

Mayra Lourenço, pesquisadora do feminismo e professora de História, também contribuiu com a discussão destacando como a sexualidade é trabalhada de forma errada nas escolas.

“Quando se fala de sexualidade na escola, é sobre prevenção e proteção. O sexo é relacionado só a perigo, enquanto é preciso pensar no sexo além das normas”.

Para ela, a igreja tem grande influência nisso, a começar pela imagem que se cria da mulher “correta” com o exemplo de Maria que é virgem, submissa, mãe, boazinha e, a referência do que não se deve fazer, com o exemplo da Eva no papel de pecadora. “A sexualidade é associada à doença e não ao prazer. O sexo não é visto como um direito de se ter prazer”.

Na opinião de Paula Beatriz, falta investir na formação dos professores. “Na escola, você tem educadores machistas, feministas, religiosos… mas todos podem mudar, até os evangélicos”, garante a diretora, que conta conviver com diferentes opiniões. “Eu tenho colegas que são evangélicos e, na convivência comigo, aprendem além do que o pastor ou a bíblia diz”.

Os números do preconceito

Apesar de muitos avanços na discussão desse assunto, nas lutas pelos direitos e respeito ao público LGBT, uma pesquisa feita pela UNESCO em 2002 em todo o Brasil com cinco mil professores da rede pública e particular teve o seguinte resultado: para 59,7% deles é inadmissível que uma pessoa tenha relações homossexuais e 21,2% não gostariam de ter vizinhos homossexuais.

Outra pesquisa, também feita pela UNESCO em 13 capitais brasileiras e no Distrito Federal, evidenciou o alcance da homofobia no ambiente escolar.

  • Os professores que declaram não saber abordar temas relacionados à homossexualidade em sala chegam a 30,5% em Belém e 47,9% em Vitória.
  • 12% em Belém, Recife e Salvador e entre 14 e 17% em Brasília, Maceió, Porto Alegre, Rio de Janeiro e Goiânia consideram homossexualidade uma doença.
  • Entre os que não gostariam de ter colegas de classe homossexuais, estão 33,5% dos estudantes do sexo masculino de Belém, entre 40% e 42% no Rio de Janeiro, em Recife, São Paulo, Goiânia, Porto Alegre e Fortaleza e mais de 44% em Maceió e Vitória.
  • Pais de estudantes do sexo masculino que não gostariam que homossexuais tivessem amizade com seus filhos somam 17,4% no Distrito Federal, entre 35% e 39% em São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador, 47,9% em Belém e entre 59 a 60% em Fortaleza e Recife.

Para Mayra, “a sociedade usa o binômio homem e mulher e cria expectativas e características comuns a cada um. A menina é a princesa que espera o príncipe e tem que ser doce e não pode ser corajosa”. O papel social é dado com base no órgão genital da pessoa.

E a escola reforça esse hábito, pois está “o tempo inteiro definindo padrões e regras, a brincadeira é de menino contra menina, tem esportes próprios para cada um, as famílias nos livros e cartilhas são representadas com um exemplo de família heterossexual”, lamenta a professora de História que já foi reprimida por trabalhar com os alunos uma visão mais ampla sobre o assunto.

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Avanços e retrocessos

Parecia uma luz no fim do túnel escuro do preconceito e da intolerância quando, em 2004, o governo lançou o programa Brasil sem Homofobia. A iniciativa previa combater a violência e o preconceito contra a população LGBT. Em uma de suas ações estava a formação de educadores para trabalharem em sala assuntos relacionados ao gênero e à sexualidade. Conheça o material aqui.

Pressionado por setores conservadores da sociedade, inclusive do Congresso Nacional, o projeto que gerou o material apelidado como “kit gay”, foi suspenso e o investimento de 1,9 milhão de reais e quatro anos de preparo foram deixados de lado.

Mayra cita um trecho de Pedagogia da Autonomia, de Paulo Freire, para argumentar sobre a necessidade de considerar o conhecimento, a vivência e a situação vivida pelo outro para se trabalhar um tema como esse em sala de aula.

“Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria produção ou a sua construção.” Para a professora esse material de apoio contemplava a diversidade de gêneros e orientações sexuais e, por isso, lamenta o arquivamento do programa Brasil sem Homofobia.

Paula Beatriz, que conhece bem os processos internos das escolas, diz ser contra o kit pois para ela os materiais iam “parar no depósito da escola” e ninguém ia implantar. “Se a própria professora não conhece seu corpo, como ela vai falar de sexualidade para uma juventude que está muito a frente de informação?”, argumenta a diretora.

“O professor não quer assumir o diferente porque é um problema na estrutura da escola e não é só falar para os jovens que ele precisa respeitar o coleguinha, tem que colocar ele para pensar sobre o assunto”, completa Mayra sobre a dificuldade enfrentada por um educador eu quer falar sobre diversidade na escola.

“Meu corpo é político”
Esse foi o tema do Periferia Trans, programação organizada pelo ator Bruno César Lopes que entre outros eventos promoveu essa discussão com as duas educadoras, Paula Beatriz e Mayara, com a mediação de Fabio Figueiredo.

O título diz muito sobre a posição que a diretora Paula Beatriz assumiu em sua trajetória, principalmente depois de “externalizar”, como ela mesmo diz, sua identidade de mulher. Ela entende a necessidade de lutar pela causa. “Eu poderia não estar neste evento [Periferia Trans], porque eu fisicamente sou mulher, alterei juridicamente o nome, então sou mulher, mas prefiro continuar na luta”.

Paula também está a frente de uma campanha pelo nome social para mobilizar as escolas e orientar sobre qual são os procedimentos corretos para o preenchimento do nome social e seu uso em sala de aula. O projeto da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo que começou no ano passado prevê a inclusão do nome social em listas de chamada e diários de classe.

Dados analisados de 44 estudantes que já escolheram a mudança conta que 70% são maiores de 18 anos, 33 alunos estudam no período noturno e 93% são mulheres transexuais.

Mas para a educadora a luta está apenas no começo e o próprio público LGBT está aprendendo a lutar por seu espaço. E é preciso falar das questões de diversidade em geral no ambiente escolar envolvendo outros públicos, como o negro e o indígena. “Ninguém quer a gente sabendo, porque não tem como manipular”.