Por Laís Diogo, da Periferia em Movimento. Edição de texto: Thiago Borges. Artes: Rafael Cristiano

A primeira vez que Matuzza Sankofa ouviu falar do Dia da Mulher Negra Latinoamericana e Caribenha, celebrado no último 25 de julho, foi neste ano de 2021. Isso não significa que ela já não defendesse muito antes disso o direito de viver sua mulheridade em todos os sentidos, seja constituindo família ou ocupando os espaços profissionais e políticos.

Com 29 anos atualmente, Matuzza fez sua transição de gênero aos 27, mas se reconhece como uma mulher negra trans desde os 14. Natural de Itabira (MG), foi nessa idade em que foi expulsa de casa por parentes e passou a viver em abrigos de Belo Horizonte e em situação de rua. Hoje, ela compreende que não ser entendida pela família faz parte de uma exclusão imposta pelo sistema.

Essas violações de direitos alimentaram o desejo de construir uma vida mais plena para si e para outras mulheridades. Por isso, ela escolheu trabalhar com a população em situação de rua, pessoas usuárias de drogas, famílias e crianças trans, em busca de apresentar outras perspectivas. 

Desempregada na capital mineira, em 2019 ela se mudou para São Paulo e foi acolhida por Marcia Marci, uma das integrantes da coletiva Travas da Sul, do Extremo Sul da cidade. “Foi um acolhimento afetivo, emocional, foi o que me deu base e força, norte e segurança para reiniciar todo esse processo de construção e de vida aqui”, conta ela. 

Matuzza Sankofa (foto: arquivo pessoal)

Com maior autonomia, Matuzza se estabeleceu na cidade e chegou a espaços como o Centro de Convivência É de Lei, que atua desde 1998 na promoção de direitos sociais e da saúde, associados à política de drogas. Atualmente, na organização ela coordena os projetos RESPIRE, PRD e Mulheridadades, que focam na recuperação de dependentes de drogas e trabalha com redução de danos para evitar transmissão de HIV e hepatites, além de overdoses.

No começo de 2020, pouco antes da pandemia, ela também teve contato com a Casa Chama, que era um coletivo voltado aos cuidados com pessoas LGBTQIA+ que vinha se desenvolvendo desde 2017. Matuzza passou a coordenar o grupo, que se tornou uma empresa social e entre as ações distribuiu mais de 3 mil cestas básicas para a comunidade durante a pandemia.

“Esse é o primeiro ano que eu fico sabendo da existência dessa data [o Dia da Mulher Negra], e fico sabendo também justamente por estar ocupando esses espaços”, conta ela.

O acolhimento e a construção de laços também acontece dentro de casa. Hoje, junto ao companheiro, Matuzza cuida de uma criança de 4 anos e vislumbra um futuro diferente para a família que constitui. 

“Não dá pra romantizar, não é fácil, porque tem todas as questões sociais e o que está posto nesse País para as nossas corpas. É uma realidade muito cruel, muito dura, que nos exclui de todos os espaços, e a família é um deles”, aponta.  “Mas em contraponto a toda essa violência, enquanto mulher negra e trans acredito (…) numa nova possibilidade de mundo, de ajudar e contribuir nesse processo de educação de uma criança que vai ter um olhar de mundo muito mais expandido que eu tive, do que a minha família conseguiu me ofertar”.

Vida plena

O crescimento de mulheres negras e, principalmente, trans e travestis é cercado de solidão, de aceitação do próprio corpo e sexualidade. Antes de dar pro mundo o que somos, nós sofremos sozinhas, mas é no caminho de se autoconhecer que Matuzza se depara com outras mulheridades em seu caminho e deixa as coisas mais leves, porque tudo coletivamente é mais fácil.

“É entender que a gente vive num País escravista, em que as nossas corpas foram violentadas por muito tempo, e que a gente tem ressignificado essas violências e construído uma nova possibilidade de mundo e de sistema vigente. Um sistema onde as nossas corpas sejam incluídas, possam gozar de plenitude de amor, de afeto e de vida plena mesmo”, completa.

Matuzza diz que sua maior conquista é obtida diariamente, que é a liberdade de ser quem se é, de auto aceitação e descolonização no nosso modo de viver.

“Ter um pouco mais de autonomia, trabalho, família e ocupar os lugares que tentam nos furtar a todo momento”, diz. “Mas a gente também a gente tem uma luta diária, que é pelo fim do racismo, fim da transfobia, fim do machismo, pela construção de uma nova sociedade em que essas violência não sejam existentes”. 

Este conteúdo faz parte do Especial Mulheres Negras Latinoamericanas e Caribenhas, realizado pela Periferia em Movimento em parceria com a Revista Amazonas. Confira as reportagens anteriores. Na próxima semana, traremos juntes outra história de mulheres que são referências em seus territórios.

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