“Escola não pode ser local de sofrimento”

Fernanda se lembra bem de quando foi à reunião da escola de sua irmã menor. A professora leu aos pais um poema bonito sobre o papel da educação, emocionante mesmo. Mas logo depois passou uma apresentação de slides com todas as regras da escola. Fernanda se viu diante de uma dicotomia: por um lado, o afago; por outro, um amontoado de leis às vezes nem mesmo os professores e diretores cumprem porque não tem sentido.

Como exigir que o aluno tenha a roupa limpa todos os dias se a rua onde fica a escola não é asfaltada? Como querer que ele não corra no pátio, na hora do recreio, se ele mora em um beco onde não tem espaço para nada?

No último sábado, 04 de setembro, o projeto Periferia em Movimento realizou seu quarto debate no CEU Navegantes, Grajaú, zona Sul de São Paulo. O tema foi “Escola, espelho da comunidade”, com a discussão do sistema educacional brasileiro e sua atuação entre aqueles que são uns dos que mais precisam: os moradores da periferia.

Para falar sobre o assunto, foram convidados a professora Maria Luiza Rozatti, ex-moradora do Grajáu que hoje dá aulas de geografia na escola Carióbas, do bairro Monte Verde; e o professor Braz Nogueira, diretor da escola Campos Salles, na comunidade de Heliópolis; além de alunos da rede pública e da plateia, que participou ativamente.

Críticas

Muitos dos presentes no dia do debate tinham histórias da sala de aula para contar. A estudante Gilse, de 15 anos, disse que a escola não entende – e nem procura entender – sua realidade dos muros para fora. Outro estudante relatou que só tinha orientação na escola porque sua tia é professora. Os demais docentes sequer se importavam com sua situação.

Um estudante, atrasado, teria sido atropelado numa avenida próxima porque corria para entrar a tempo na aula. Com os protestos e a cobrança em cima da diretoria de ensino, a administradora da escola foi substituída no fim de 2009. Já três ex-alunos da escola Vieira de Moraes, na Cidade Dutra, que moram no Grajaú, falaram de uma mobilização contra a diretora da instituição, que fechava o portão dez minutos antes do início da aula (prejudicando quem morava longe e pegava trânsito) e não permitia que estudantes do período noturno que trabalhavam entrassem na segunda aula do dia.

Aline Rodrigues, a mediadora do debate, disse que a escola não acolhe os alunos. Maria Luiza conta que não dá para comparar sua época de estudante com o de agora, muito diferente. A realidade é outra. “A escola é espelho da comunidade quando reflete as dificuldades do bairro, como a falta de asfalto, por exemplo”, disse. Hoje, ela não liga para os diários de classe e passa o tempo todo de pé na sala, conversando com os alunos e tentando entender suas dificuldades.

Maria Luiza também criticou o fato de alunos procurarem escolas distantes de casa por conta da “qualidade” que elas apresentam. A tradição da escola também conta: demora muito criar essa qualidade, mas é uma luta diária de alunos, professores, comunidade, alertou, defendendo a escola em que leciona, relativamente nova mas que agora está ganhando uma identidade.

Exemplo

Há menos de uma década, porém, ele trouxe essas mudanças de forma efetiva para dentro da escola Campos Salles. Com o apoio da comunidade e das coordenadoras pedagógicas, derrubou paredes e transformou 16 salas de aula em quatro salões – cada um abrigando quatro turmas da mesma série. Os alunos passaram a trabalhar em grupo de quatro e, agora, seguem um roteiro quinzenal de aprendizado elaborado pelos professores. A ideia é torná-los independentes à medida que tirem dúvidas uns com os outros.

Já Braz perguntou aos presentes: Quantas vezes a escola de vocês chamou seus pais para fazer um elogio?. Em Heliópolis, onde está desde 1995 porque passou em um concurso e poderia ir a pé até lá, Braz mudou a relação da escola com a comunidade no entorno. O professor, que nasceu na roça e andava 12 quilômetros por dia para estudar, formou um conselho com 50 pais e conseguiu, na lábia, convencer criminosos de que a quadra esportiva era dos alunos.

Tudo foi feito sem o conhecimento prévio da diretora de ensino regional, que ficou surpresa quando soube mas nada podia fazer porque a comunidade aprovava a ideia. Hoje, a Campos Salles é exemplo para as demais escolas da cidade. Braz apontou que o modelo de ensino vigente precisa mudar – e é responsabilidade de todos lutar por isso. A gente vê a escola como um local de sofrimento, e escola não pode ser um local de sofrimento. Quando não sabem, o professor tenta esclarecer. Mas nem sempre o professor é o titular da matéria dada naquele dia. Daí, ele também tem que sair da zona de conforto e buscar a resposta. Os alunos é que são os professores, eles também orientam outros grupos, tiram dúvidas e estudam juntos, disse.

Em tempo: o debate terminou com a apresentação do grupo de rap “Ponto C” e os “Meninos do Break” do Ceu Navegantes. Brindes foram sorteados após o evento e os participantes puderam trocar ideias num lanche feito no local, mesmo.