Escambos periféricos: do Extremo Sul de SP ao Complexo do Alemão, no Rio Em agosto de 2017, o Periferia em Movimento colou em favelas cariocas pra trocar uma ideia sobre comunicação, periferias e garantia de direitos com coletivos de lá

O que o Grajaú, distrito do Extremo Sul de São Paulo, tem a ver com o Alemão, complexo de favelas da Zona Norte do Rio de Janeiro? Muita coisa. Em agosto de 2017, o Periferia em Movimento saiu do Grajaú e colou em um bonde de dez pessoas no Complexo do Alemão, com o objetivo de conhecer e trocar ideia com uma galera que movimenta e dá visibilidade ao que é de interesse de quem vive nas favelas cariocas. Vimos muitas diferenças, mas principalmente muitas semelhanças.

Abaixo, você confere como foi uma roda de conversa que fizemos com algumas dessas pessoas. E na sequência, contamos mais detalhes de como foi esse escambo periférico:

O bonde foi pesado. Entre fundador, integrantes e ex-participantes de cursos e oficinas realizados pelo Periferia em Movimento, chegamos no dia 24 de agosto no Rio de Janeiro – que, naquela semana, vivia uma guerra do Estado contra a população do Jacarezinho, uma outra favela da cidade. No Alemão, subimos o morro a pé pela avenida aberta durante as obras do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento criado pela Dilma Rousseff) logo após a invasão da Polícia Militar, em 2010. Muitos policiais na rua portando fuzis, sobe e desce de viaturas… Afinal, ficamos logo atrás da UPP (Unidade de Polícia “Pacificadora”) e da estação do teleférico do Alemão – desativado por falta de grana.

Laje da Casa Brota, no Alemão (Foto: Periferia em Movimento)

Nossa hospedagem foi a Casa Brota, uma casa colaborativa que funciona como pousada, espaço cultural e coworking de favela, onde artistas, comunicadores e empreendedores da favela da Grota trabalham. Nela também vivem seus criadores, a Thamyra Thamara e o Marcelo Magano. Ela é jornalista e também tem outro projeto chamado Gato Mídia, que tem o objetivo de estimular que jovens negros a produzir suas próprias narrativas no atual cenário digital. O Magano é ator do grupo BonoBando e tem uma dupla de comédia standup com Patrick Sonata. E os dois, que adoram viajar, criaram ainda uma página pra falar de viagens para periféricos: Favelados pelo Mundo. Aqui também rola o Slam Laje, onde você encontra uma galera como a MC Martina e os Poetas Favelados.

Foi no alto do Morro do Alemão, de frente pra Grota, que ouvimos sobre o fracasso da política das UPPs, da remoção de centenas de casas para abertura de ruas e outras obras e de uma certa glamourização que a favela teve após a época da invasão. Por outro lado, a repressão estatal seguiu à tona, inclusive com criminalização de espaços de convivência da juventude. Essas denúncias foram frequentes, e ouvimos sobre isso quando colamos no Instituto Raízes em Movimento, organização de jovens que desde 2001 promove ações de educação, cultura e esporte no Alemão.

Daiene Mendes, jornalista do Favela em Pauta (foto: Periferia em Movimento)

Também ouvimos isso durante nossa roda de conversa, que teve a participação da Daiene Mendes e da Lana de Souza. A Daiene mora na favela de Nova Brasília, que também faz parte do Complexo, e já foi integrante do Voz das Comunidades – jornal fundado em 2005 por Rene dos Santos, na época com 11 anos de idade, e que ganhou notoriedade ao fazer a cobertura em tempo real, de dentro, da invasão policial em 2010. Hoje, Daiene é correspondente do jornal britânico The Guardian e uma das responsáveis do recém-criado Favela em Pauta, que propõe a junção de jornalismo de dados e jornalismo comunitário para a produção e publicação de reportagens aprofundadas com checagem de dados.

Lana de Souza, do Coletivo Papo Reto (foto: Periferia em Movimento)

Já a Lana, que também é nascida e criada no Alemão, integra o Papo Reto, coletivo de comunicação independente criado por jovens em 2014 com foco de propagar notícias dentro do morro e mostrar a realidade da favela, e que usa a linguagem da mídia de guerrilha para se contrapor aos veículos convencionais. O Papo Reto é reconhecido pelas denúncias de violência policial.

Na prosa com elas e eles, que rolou numa tarde de sábado na viela em frente à Casa Brota, tentamos fugir da velha discussão sobre dificuldades e tentar encontrar respostas para angústias comuns: pra quem estamos falando? Como falar com nossos familiares, nossos vizinhos? O que a gente precisa mudar nas nossas próprias ações?

Você pode ver a íntegra da conversa nessa transmissão ao vivo que a gente fez no dia:

Não ficamos só no Alemão. Logo no segundo dia, colamos na Maré, outro complexo da Zona Norte com 16 favelas e 130 mil moradores. Ao contrário do Alemão, a Maré não foi “pacificada” pelo Estado e a população vive sob o comando de duas facções. Por outro lado, vira e mexe tem operação policial – e a rotina da favela é interrompida completamente. A última delas aconteceu na semana passada e resultou na morte de três crianças e adolescentes.

No Museu da Maré, um dos espaços agrega pedaços de paredes perfuradas por balas (foto: Periferia em Movimento)

A insegurança é constante na vida da população, mas não só. Isso ficou evidente no Museu da Maré, um museu criado por moradores que conta a história das comunidades da Maré, em seus diversos aspectos, sejam eles culturais, sociais ou econômicos. Conhecemos o museu por sugestão da Gizele Martins, comunicadora comunitária no Complexo com uma grande trajetória de luta pela democratização da mídia para garantia de direitos do favelado – a Gizele, aliás, foi uma das organizadoras do Piscinaço contra o jornal Meia Hora, que criminalizou moradores da favela Nova Holanda que colocaram piscinas no meio da rua para crianças brincarem.

É na Maré que também funciona o Data Labe, um laboratório criado por moradores de territórios populares que produzem novas narrativas por meio de dados. Um dos trampos desse pessoal é o mapa da comunicação comunitária.

Nayra Lays canta em sarau improvisado no Instituto Black Bom (foto: Periferia em Movimento)

Depois disso, colamos na Lapa, bairro no centro da cidade famoso pelos bares e a vida noturna. E lá, colamos no Instituto Black Bom, uma ocupação que abriga iniciativas criativas de empreendedores negros e periféricos, além de eventos culturais, com objetivo de proporcionar encontros, empoderamento e geração de renda. Outro empreendimento que colamos foi Bistrô Estação R&R, um bar localizado no Alemão que valoriza os agentes culturais locais e produz a primeira cerveja artesanal da favela.

Nosso último dia nesse escambo periférico foi de praia. Nem por isso foi de sossego. Vivemos o trajeto que moradores de favela fazem pra atravessar a cidade e chegar a Copacabana, na zona Sul. Mais de duas horas de busão em pleno domingo pra tirar um lazer. Depois, mais duas horas pra voltar pra Casa Brota.

Voltamos pro Extremo Sul de São Paulo com outro entendimento sobre o que é a Cidade Maravilhosa. E de qual é nosso papel enquanto comunicadores e comunicadoras nas quebradas. Podemos falar da insegurança pública que afeta milhares de habitantes que vivem em moradias irregulares, a repressão policial e o descaso do Estado em garantir direitos fundamentais, mas sabemos que a realidade é muito maior do que apenas esse recorte trágico de jornal. São territórios de maioria negra, de resistência e com muitas potencialidades. Movimentos sociais, coletivos de cultura e iniciativas de comunicação possibilitam que a gente reescreva nossa própria história.