Por Thiago Borges. Colaboração de Laís Diogo. Fotos: Divulgação

De filas de espera de 40 minutos para mesas vazias: em um curto intervalo de tempo, a hamburgueria sensação do Grajaú, no Extremo Sul de São Paulo, viu seus clientes sumirem com medo do coronavírus. As vendas da Pantcho’s House Burger caíram para 20% na semana em que a Organização Mundial da Saúde (OMS) decretou a pandemia.

Hoje, como em todo o mercado, a empresa busca meios de sobreviver à crise com o agravante de atuar em uma região periférica e depender do consumo de trabalhadores muitas vezes informais. A necessidade de distanciamento social para evitar a propagação da doença e a demora do governo federal em socorrer as famílias financeiramente têm impacto direto em pequenos negócios das quebradas.

“A ajuda de R$ 200, que agora subiu pra R$ 600, é ridícula perto das medidas que são necessárias de renda mínima para esse público”, avalia Gabriela Mendes Chaves, economista e fundadora da NoFront – Empoderamento Financeiro, que auxilia pessoas negras e periféricas a estruturar finanças e negócios.

A solução da Pantcho’s já tava no radar, mas teve que ser implementada mais rápido do que esperado: o delivery.

O primeiro caso de infecção por coronavírus no Brasil foi confirmado logo depois do Carnaval, na quarta-feira de cinzas (26/02). E desde o final de fevereiro, Ricardo Vieira e a companheira e sócia Regiane já estudavam o que fazer quando o vírus se alastrasse pelo País: a entrega a domicílio era uma demanda já existente, mas que eles nunca conseguiram implementar por não dar conta.

Com a decretação de quarentena em todo o Estado de São Paulo no dia 16 de março, a loja fechou o atendimento presencial, contratou 03 motoboys, se cadastrou em aplicativos de comida como iFood e Uber Eats, e passou a divulgar a novidade para a clientela. Na primeira semana, as vendas se recuperaram um pouco e atingiram o patamar de 60% do faturamento normal.

“Foi muito melhor do que a gente esperava”, diz Ricardo, que com isso conseguiu manter a equipe de 17 funcionários registrados – alguns com mais tempo de casa pegaram férias, enquanto 02 foram afastados por problemas respiratórios mas continuam recebendo normalmente. Em paralelo, eles negociam o valor do aluguel e já tentaram jogar as parcelas de empréstimos bancários pra frente. “Mas as condições que os bancos deram foram horríveis”, aponta Ricardo.

Foco no presente

Para Gabriela, da NoFront, reduzir ao máximo custos fixos (como aluguel e contas de água e luz) e antecipar receitas como a venda de combos que podem ser entregues depois que acabar o período de quarentena são meios para sobreviver à crise. “E muitos estão apostando nas vendas digitais, fazendo uma conversão de seus negócios”, aponta.

Ju Dias, da Bora Lá

Ju Dias ainda avalia o que fazer. Fundadora da Bora Lá, uma agência de comunicação e marketing que atende pequenos negócios da quebrada, ela passou as 02 primeiras semanas após a decretação da pandemia tentando entender a situação e lidando com as urgências da sobrevivência.

Sua primeira contribuição foi oferecer as mídias sociais da Bora Lá para divulgar pequenos negócios, trabalhar em parceria e oferecer serviços gratuitos para quem não tinha nenhuma perspectiva de faturamento nos próximos meses.

Uma das ações foi criar um catálogo de ovos de páscoa produzidos por 18 mulheres das margens de toda a cidade. “A pandemia teve impacto imediato nesse perfil de empreendedora”, diz Ju Dias. Além delas divulgarem em suas redes sociais, a Bora Lá articulou o disparo para funcionários de diversas empresas privadas.

Enquanto isso, a demanda de trabalho da Bora Lá caiu 80% de uma hora pra outra: os trabalhos e orçamentos foram interrompidos “porque tá todo mundo segurando para sobreviver”, explica Ju Dias. “Tô pensando formas de como eu consigo manter as contas dos próximos meses, já que não tenho caixa”, continua. O planejamento, que previa expandir a agência e contratar mais 01 pessoa em 2020, foi por água abaixo.

Enquanto as ações prometidas pelo governo federal não se concretizam, Ju Dias se concentra em ajudar quem está por perto e tenta entender aonde isso vai levar. “Não fui atrás de empréstimo, etc., porque acho que é uma coisa que ainda não sabemos quanto tempo vai durar a quarentena, a retomada dos trampos”, conta.

Na Pantcho’s, o objetivo maior é manter a equipe de funcionários mas atentos a cada nova notícia. “Queremos manter 100% da equipe com 100% da carga horária”, aponta Ricardo. A princípio, ele não enxerga possibilidade de acessar as linhas de financiamento propostas pelo governo federal. E sabe que, quando o isolamento acabar, as coisas ainda vão demorar para voltar ao que era antes.

“Provavelmente, vamos voltar com número menor de lugares, menos movimento, até porque o número de desempregados vai ser enorme. E hambúrguer é artigo de luxo na periferia”, diz ele. “Não tem como criar grandes perspectivas de futuro”.

Esse conteúdo faz parte da #SalveCriadores, uma iniciativa que a partir do apoio a coletivos e criadores de conteúdo das periferias de São Paulo vai trazer reflexões e dados sobre a crise da COVID-19 e seus reflexos nas populações negras e periféricas. O projeto, desenvolvido pela Purpose, busca reforçar o importante trabalho que vem sendo feito por criadores de conteúdo e trazer pontos de vista e perspectivas que ainda não foram levantados. Os coletivos que fazem parte dessa iniciativa são o Alma Preta, o Nós, Mulheres da Periferia, a Periferia em Movimento e a Rádio Cantareira. Os conteúdos serão publicados nos canais de cada coletivo e divulgados nas redes sociais do Cidade dos Sonhos.

Participe da discussão

1 comentário

Deixe um comentário

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

ALERTA! Coronavírus e as quebradas

Confira nossa cobertura

Apoie nossa cobertura jornalística

Ajude-nos no Catarse Doe
Receba notícias no WhatsApp Notícias no WhatsApp
%d blogueiros gostam disto: