Editorial: Por que ficamos em casa no dia 15 de março

Como em outros momentos – como nos atos de 2013 ou contra a organização da Copa do Mundo –, hoje publicamos esse editorial para marcar posição diante das mobilizações do último domingo, quando milhares de pessoas foram às ruas em todo Brasil para protestar contra o governo de Dilma Rousseff – possivelmente, com muitos moradores das quebradas engrossando o coro.

Aliás, vale ressaltar que não falamos em nome nem roubamos o protagonismo de cada morador das periferias, complexas e com opiniões diversas. Mas, contra a falsa imparcialidade da mídia hegemônica, assumimos um lado.

Quem acompanha o Periferia em Movimento está acostumado a, vira e mexe, ler reportagens ou notas sobre atos públicos convocados por movimentos sociais. Divulgamos e cobrimos porque, no geral, acreditamos que as pautas defendidas nessas manifestações dialogam com as demandas das populações periféricas.

É bom ver as ruas tomadas por tanta gente. Manifestações públicas são um direito constitucional e sempre há a esperança de uma maior politização das pessoas. Porém, não concordamos com as reivindicações. E sobre isso podemos – e devemos – discutir.

Portanto, resolvemos ficar em casa nesse domingo. Isso não significa que estamos satisfeitos com a atual conjuntura, muito pelo contrário.

Em seus 12 primeiros anos no governo federal, o PT promoveu avanços, é fato. Por outro lado, fez alianças que antes criticava, apostou na conciliação de uma sociedade fragmentada e adiou projetos que beneficiariam o povo trabalhador – como as reformas agrária e urbana e a regulação da mídia, por exemplo.

Depois de ludibriar a esquerda com promessas progressistas e vencer a eleição de 2014 por uma margem apertada, Dilma começou mal o segundo mandato e guinou à direita novamente: nomeou um conservador pra cuidar da economia, uma ruralista na agricultura, um apadrinhado das empreiteiras como responsável pelas cidades… Parceiros “estratégicos” do status quo, que cedo ou tarde cobra sua fatura.

Já teve aumento da conta de luz, da gasolina, dos alimentos. Teve corte de direitos trabalhistas, de benefícios sociais, no orçamento de pastas essenciais como a Educação. Até programas bem sucedidos, como o FIES, entraram na roda. Enfim, motivos não faltam para criticar Dilma e seu governo. Ponto.

Porém, não dá pra marchar ao lado de quem pede impeachment da presidenta sem uma mudança estrutural do sistema político; não vamos ser hipócritas e gritar contra corrupção sem citar escândalos como o trensalão em São Paulo, o mensalão mineiro ou a privataria tucana; não podemos caminhar com quem defende intervenção militar; não vamos às ruas com os mesmos que bradam por redução da maioridade penal, fim do Bolsa Família, contra as cotas raciais ou os direitos dos trabalhadores domésticos; não vamos seguir a mídia hegemônica, que se omite quando o assunto não é de seu interesse mas faz propaganda massiva se prevê dividendos futuros.

Não acreditamos que Dilma vá atender às reivindicações históricas da parcela mais pobre da sociedade brasileira – incluindo nós, periféricos. Porém, mudar de presidente é trocar seis por meia dúzia.

Cientes de que nossa luta não cabe nas urnas e que a emancipação popular deve ser construída diariamente, olho no olho, pelo próprio povo, nós passamos o domingo recolhidos. Afinal, não podemos correr o risco de contribuir para a chegada de uma direita escancarada ao poder. Ainda hoje, sem que as pessoas lotem a avenida Paulista com indignação, o sangue dos nossos continua escorrendo pelos becos e vielas. No fim das contas, a periferia sempre segura o rojão.