Necrotérios cheios. Corpos fora do ambiente refrigerado. Cenas do caos provocado pela pandemia na Itália, em Nova York ou no Brasil daqui a algumas semanas? Não. Isso aconteceu em Osasco, município da grande São Paulo, em agosto de 2015. A chacina praticada por integrantes da Polícia Militar e da Guarda Civil de Barueri deixou 18 mortos em uma noite.

Corta pra 2020. Eles falam: “Imagina quando o vírus chegar nas periferias”. Essa guerra biológica a gente já viveu. Há 500 anos, europeus chegaram nessas terras trazendo doenças e dizimando os nativos. É culpa nossa? Antes do novo coronavírus desembarcar aqui pelos pulmões de turistas brasileiros ao redor do mundo, a gente já conhecia a violência do Estado, que mata e deixa morrer. O Brasil não vai deixar de ser racista, machista, lgbtfóbico, sem muros dividindo classes porque um vírus letal tá circulando por aí. Não vai. Pelo contrário, parece a tempestade perfeita pra quem sempre olhou a gente de rabo de olho.

Sim, estamos fudidos, porque essas nossas desgraceiras todas se trombam na esquina da pandemia e a gente tem que segurar o B.O, enquanto governantes fazem cálculos eleitorais em cima de nossos cadáveres.

Bolsonaro desfila ódio pelas ruas, espirra corona nas mãos e cumprimenta velhinhos enquanto diz que cada família que cuide de seus doentes e que todos devem voltar ao trabalho. Afinal, presidente serve pra manter os lucros dos grandes empresários em alta.

Na briga com Mandetta, a gente torce é pela briga. O ministro anti-SUS agora aparece de colete, mas aonde ele estava em janeiro, quando o vírus travou a China? Por que não adiantou a compra de equipamentos médicos e testes para a doença? As entrevistas coletivas viraram ladainha pra esconder que a autoridade de saúde espera por uma milagre pra resolver o problema.

Nessa dança patética, com pisões no pé de todo lado, o governador Doria e o prefeito Covas até parecem sensatos por fazerem o que é obrigação. Porém, o que tem sido feito de fato? Doria já escalou a PM pra manter o povo enclausurado – a mesma polícia responsável por um terço das mortes em São Paulo no ano passado. Mesmo sem determinação pra isso, a gente já recebe denúncias de repressão baseada no “combate à pandemia”.

Enquanto isso, esse mesmo Estado faz a gente esperar em filas reais ou virtuais, aglomerados na porta de casas lotéricas ou feitos de trouxa no site da Caixa. Os R$ 600 do auxílio não atendem a nossa emergência. A fome não pode esperar análise ou regularização de CPF. Não rola sinal de celular nem baixar aplicativo Pic Pay onde mora quem mais precisa receber os R$ 55 da merenda escolar. Diariamente, a Periferia em Movimento recebe relatos no whatsapp sobre a dificuldade e desespero de pessoas em busca de um recurso mínimo pra sobreviver. É humilhante.

“Estamos todos no mesmo barco”, diz o analista na TV. Mas nesse Titanic, uns pulam bote enquanto outros morrem afogados sem conseguir sair da classe econômica. E nós somos os músicos da banda, tocando enquanto afundamos. O coronavírus é só a ponta do iceberg. Salve-se quem puder!

A quebrada tem sua parcela de responsabilidade, sim. Tem baile rolando, churrascada, gente pra cima e pra baixo fazendo caminhada em grupo, comércios não-essenciais com portas entreabertas… Mas, pô: não dá pra culpar a população quando quem tem mais recursos de controlar a situação tá se lixando pra isso.

Despolitizando a questão, a mídia do centro exalta a autogestão em Paraisópolis, que até ambulância alugou pra socorrer moradores, mas não fala da omissão histórica do Estado nas periferias e favelas – vale lembrar que, há pouco mais de 04 meses, esse mesmo Estado matou 09 jovens no baile funk da DZ7. Paraisópolis não tá fazendo isso porque a comunidade é diferenciada. É que ninguém mais faria senão nós mesmos.

Da mesma forma, centenas de pessoas, movimentos, coletivos e organizações se mobilizam para fazer chegar alimentos e produtos de higiene e limpeza a quem mais precisa, na base do “nós por nós”. Porém, a solidariedade também vira tema de stories no insta pra internauta ver. Os oportunistas de sempre (sejam os bancos fazendo papel de bom moço ou periféricos em busca de projeção) estão de olho na colheita pós-pandemia e fazem questão de postar fotinho expondo ainda mais famílias em situação de risco. Não são só os políticos que usam a calculadora da tragédia.

Veja quem morre e quem mata. No País que assassina mais de 50 mil pessoas por ano, cê acha que vão chorar por nós agora? Corpos desumanizados viram “CPF cancelado” em programas de TV. Olha pro Vila Formosa, o maior cemitério da América Latina: quantas covas já foram abertas e quantas já foram ocupadas!

Só lamentos pra quem tá indo pro hospital Albert Einstein: infelizmente, não vamos chorar por sua morte. Não vamos, não, desculpa aí. Isso porque provavelmente vamos gastar muita lágrima e vela com os nossos do lado de cá.

Mas não queremos isso. Então, quebrada, se cuida e fica em casa, se possível, senão nosso próximo endereço é a sepultura. E os de cima ainda vão dizer que a gente é culpado pela própria tragédia. Vai deixar? Estamos por conta própria (como sempre, pra variar).

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