EDITORIAL: Nossa existência é resistência O ódio não espera o resultado das urnas, enquanto a democracia parece cada vez mais distante. Mas estamos de pé!

Papo reto: como você se sente após as eleições realizadas no último domingo? Por aqui, não vamos mentir: tá osso viver esses dias.

O que emerge das urnas assusta: no País que mata 63 mil cidadãos por ano (mais de dois terços, negras), que é recordista na morte de mulheres e pessoas LGBTs, que pratica um genocídio contra os povos indígenas, que encarcera o futuro de jovens e fecha as portas para imigrantes em busca de refúgio, o candidato mais votado é justamente um militar que autoriza todas essas violências cotidianas.

Junto ao presidenciável fascista, um pelotão que quer exterminar nossos direitos fundamentais: seus filhos, os líderes do MBL, o ator-estuprador Alexandre Frota, a relatora do golpe Janaina Paschoal, majores, sargentos, pastores e tantos outros políticos de farda ou com a Bíblia embaixo do braço que se elegeram com o mesmo discurso.

Mestre Moa do Katendê (Foto: Divulgação)

Mas o ódio não espera o resultado eleitoral pra se manifestar. A gente foi dormir no domingo com uma tensão nos ombros e acordou com a realidade de uma segunda-feira nublada: o mestre de capoeira Moa do Katendê, um dos maiores sábios da cultura popular, foi morto a facadas pelas costas por um seguidor de Jair Bolsonaro após uma discussão sobre política em um bar de Salvador, na Bahia. Moa é vítima de mais um assassinato político, pouco mais de 200 dias depois da execução da vereadora carioca Marielle Franco (PSOL) e de seu motorista Anderson Gomes, mortos em 14 de março de 2018 no centro do Rio de Janeiro. Entre um caso e outro, quantos outros tombaram? Quantas famílias mais choraram?

E nas quebradas, o distante Estado Democrático de Direito parece cada vez mais inalcançável. Existir sem virar alvo já é privilégio. Por isso, sabemos que a solução de nossos problemas não cabe nas urnas. Mas não somos ingênuos ou ingênuas. A ascensão do candidato fascista e de sua turma só vai permitir que continuemos sendo golpeados, e com mais força.

Em vermelho, as zonas eleitorais em que Fernando Haddad venceu de Jair Bolsonaro (ganhador nas zonas em verde) (Fonte: G1)

Por outro lado, essas urnas também alimentam esperança. Bancada Ativista, Leci Brandão e Erica Malunguinho nos representam na Assembleia Legislativa. E os resultados por zona eleitoral mostram que as quebradas não estão de chapéu: Bolsonaro não ganhou a votação no Grajaú, em Parelheiros, Piraporinha e Cidade Tiradentes. O Nordeste é aqui!

Com todas as nossas limitações e contradições, a gente quer estar lado a lado de quem sempre resistiu e vai continuar resistindo a partir das margens – pelo básico, pelo direito à identidade, contra o genocídio e o patriarcado, pela vida. Chega de pagar veneno. Nossa luta é por direitos. Portanto, no segundo turno #EleNão! Como canta Nayra Lays, “a gente quer viver, e não só sobreviver”.