DiversiMapa, diversimapeando Identidade afetiva, marginalidade e potencialidade de transformação dos territórios foram alguns conceitos tratados no curso Diversimapa, facilitado pelo Periferia em Movimento no Sesc Interlagos

Reportagem produzida por participantes do Curso Diversimapa. Entrevistas: Brenda Barbosa, Natália Teles, Igor Soares, Vinicius Darlan e Thyago. Mapeamento: Estela Cândido, Daniel Foltran, Fernanda. Diário de Bordo: Patrícia Rocha, Renata Medeiros e Alice Oliveira. Fotografia: Hugo Félix, Ludmila Aredes, Fernanda, Eliane Emereciano, Mariana Ferreira, Lais Ferreira Lima. Audiovisual: Alex Soares, Bruna de Sousa, Flávia Tadim. Promoção e Acompanhamento – Sesc Interlagos: Mariano Ribeiro. Periferia em Movimento: Thiago Borges e Evelyn Arruda.

Unindo jornalismo e cartografia, o projeto “DiversiMapa”, realizado pelo Periferia em Movimento em parceria com o Sesc Interlagos, ocorreu durante quatro encontros que buscaram promover uma imersão na periferia da Zona Sul de São Paulo, especificamente nas regiões de Parelheiros e Grajaú, tendo como eixos norteadores os conceitos de identidade afetiva, marginalidade e potencialidade de transformação dos territórios.

Considerando que os espaços abarcados não são efetivamente alcançados pela administração pública e se caracterizam por um forte processo de segregação socioespacial e estereotipação, propusemo-nos a refletir a relação dialógica entre território e indivíduo: ir além dos estigmas oriundos de uma lógica colonial que colocam a periferia como um ambiente marcado estritamente pela violência e um estado a-cultural foi o objetivo das vivências e reflexões ora realizadas.

De que modo o espaço transforma as identidades sociais e de que forma estas transformam o espaço?

As etapas do projeto foram organizadas da seguinte forma:

  • Resgate coletivo do contexto histórico local, bem como realização de um panorama do desenvolvimento histórico da cidade de São Paulo. Neste momento, desencadearam-se discussões acerca da dicotomia centro x periferia;
  • Exercício pedagógico com a mediadora cultural da região do Grajaú, Tatiana Monte, da CIA Humbalada de Teatro, e realização de mapeamento afetivo;
  • Trabalho de campo realizado na região através de um roteiro que visou contemplar personagens representativos, a saber: conversa com Katu, do Centro Cultural Afro-brasileiro Asé Ylê do Hozoouane; ida ao Restaurante da Marlene e conversa com a mesma; ida ao Ateliê da Margem e conversa com Franz Thomaz, um dos idealizadores do Projeto Navegando nas Artes;
  • Por fim, realizou-se a sistematização das informações coletadas e das ideias discutidas, através da criação do presente texto, de mapa, vídeos e fotos.

CONFIRA ABAIXO O MAPA COM AS TRILHAS E PONTOS IDENTIFICADOS!

Memórias individuais e memórias coletivas: a ocupação da cidade e a dicotomia centro x periferia

No primeiro momento de nosso percurso, nos foi proposto pensar sobre nossas jornadas individuais: quais são nossas origens? qual é a nossa relação com o espaço que ocupamos? como esse espaço transformou-se através do tempo e como tais transformações modificaram nossos modos de vida? Tal exercício, marcado por um resgate de memórias e trajetórias individuais, configurou-se também como um exercício de escuta, ao ouvirmos as histórias uns dos outros, identificando-nos com tantas delas.

É possível afirmar, por sua vez, que cada história, ouvida e contada, era marcada pela dicotomia periferia x centro. Ao longo das discussões, definiu-se “periferia” como um espaço constantemente relegado a um segundo plano e privado de recursos que efetivamente garantam acesso aos Direitos Humanos. A definição de “centro” dá-se, portanto, pela completa oposição ao primeiro: o centro carrega dentro de si todas as riquezas econômicas, culturais, sociais e etc.

Ao fim deste primeiro dia, analisamos o processo histórico de formação da cidade de São Paulo, através de sua ocupação territorial ao longo dos tempos, ocupação esta que atrela-se à aspectos socioeconômicos, marcados por uma lógica do capital, que desencadeia a contemporânea formação dos espaços da cidade e relaciona-se a cada uma das histórias individuais inicialmente colocadas e atravessadas pela marginalização periférica.

O que a Cidade faz com a gente?

Muitas vezes apenas passamos pelos territórios e esquecemos de olhar em volta, perceber as cores, os sabores, os aromas e vozes que o compõem. Esses lugares se tornam apenas mera passagem. Não ocupamos com nossos corpos políticos através de ações de transgressão.

E não precisa ser muito. Pode ser participar da coleta seletiva, ouvir as estórias, brincar na rua  ou até montar uma companhia de teatro que fale da periferia para a periferia e com periferia.

Foi dessa forma que a Tatiana Monte, da Cia Humbalada de teatro, (re)descobriu seu território. É através da cartografia do afeto/cartografia dramaturga que ela e seus amigos de cia concebem as peças teatrais e seus processos de inquietações para as experiências compartilhadas, como a que ela nos estimulou a olhar com os olhos e coração aberto para os nossos lugares e depois disso construir o nosso mapa do afeto.

Todos nós temos um certa ternura, disfarçada ou escancarada pelos lugares que passamos. Muitos deles nos atravessam e constroem quem somos “existem muitas marcas em nós que compõem esse território. Existem muitas marcas neste território que nos compõem.”

Quando pensamos nisso? Quando nos perguntamos sobre os lugares de passagem ou ocupação? Quando questionamos a lógica da cidade? Nós aqui, através desse processo que desperta o tempo todo questões e questões sobre quem somos enquanto errantes periféricos e se somos, não é mesmo?

Poderíamos voltar a ocupar os territórios? O que falta para isso?

(RE)Conhecer

(RE)Inventar

(RE)Descobrir

Vamos lá, conhecer algumas pessoas que já fazem isso aqui na região! Quem sabe não nos inspira?

Um museu em Parelheiros?!

Apesar do dia chuvoso, nossa visita de campo iniciou-se com ida ao Asé Ylê do Hozoouane um centro de cultura Afro-brasileira localizada no extremo sul de São Paulo, exatamente na região de Parelheiros onde fomos recebidos pelo representante e sacerdote-mor Luiz Antonio Katulemburange, que prefere ser chamado de “Katu”, redução de seu nome africano, e responsável pelo local.

O Ylê é uma construção em meio a natureza, que se divide em casa da família de Katu, templo candomblecista e espaços educacionais e sócio assistenciais – “a roça”, como ele nomeia. Nessa roça, Katu junto a comunidade local realizam atividades, cursos e oficinas com o intuito de formar, educar, compartilhar vivências, ocupar e integrar os moradores.

Com seu jeito bem humorado, Katu nos conta como foi sua chegada naquele local, em 24 de Junho de 1980. Naquela época ele foi do Jabaquara, também na zona sul de São Paulo, mas numa área muito urbanizada, com destino à Parelheiros, local esse que mudou muito desde a construção do que hoje é Ylê, mas que ainda possui um maior acesso à natureza, fator essencial para a manutenção das religiões de matriz africana.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Ele nos apresentou os diversos espaços que havia ali, explicando a disposição de cada organização, tirando dúvidas quando expostas e os usos e sentidos de cada ambiente da roça, desde os espaços reservados às atividades sócio assistenciais até o templo, desmistificando muitos aspectos que estigmatizam as religiões de matriz afro-brasileira, em especial o Candomblé.

Além da visita, também tivemos um breve bate-papo com a oportunidade de dialogar mais sobre a religião, sobre o contexto socioambiental da região, entre outros.
Sobre os projetos sociais e educacionais, percebemos que eles desenvolvem a autoestima e a afirmação social da comunidade, com atividades voltadas ao desenvolvimento sociocultural e espiritual, bem como o resgate e a valorização da cultura negra.

Por meio dessa conversa, soubemos também, que antes do Ylê realizar um trabalho social, as pessoas procuravam o centro para pedir ajuda espiritual para questões sociais, as pessoas queriam comida, tinham fome. Vocacionado para cuidar dos outros, Katu ajudava a comunidade como podia, mas logo percebeu que se nada fosse feito, o próprio Ylê não conseguiria realizar sua missão ali, já que havia essa confusão de papéis. Foi então que começou a cobrar medidas do poder público responsável pela a região. Mesmo os projetos atualmente contando com subsídios do governo, há uma ausência do poder público no lugar e  até mesmo essa tímida presença, só foi possível pelo engajamento de Katu e a comunidade.

Líder espiritual e comunitário, Katu é também um visionário e segue sonhando e realizando mais iniciativas no local: já se avista em cima do templo as bases de sua próxima empreitada, que é a construção de um Museu Afro, possivelmente o primeiro museu de Parelheiros. Certamente nosso grupo participou de uma das primeiras visitas guiadas ao futuro museu e muito aprendeu com esse Griô!

Uma fruta símbolo de São Paulo

Depois de conhecer Katu, nos dirigimos para o Restaurante da Marlene, no centro de Parelheiros, para degustar sua culinária e trajetória com o Cambuci. O restaurante da Marlene fica bem próximo a Igreja de Santa Cruz, um marco histórico da região – a Igreja foi construída em 1898, a mando de um morador da região, Amaro Pontes, como forma de pagamento da promessa de voltar vivo da Guerra do Paraguai. Durante o almoço, experimentamos o suco de cambuci e também o mousse de cambuci com cupuaçu, “junção de Parelheiros com a Amazônia”, como disse a Marlene.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Apesar da referência ao norte do país, Marlene é Baiana e veio para São Paulo na década de 80. Ela atuava na área da saúde como enfermeira, mas ao se casar com um parelheirense do ramo de comércio, mudou de território e também de profissão. Com a chegada de sete filhos, Marlene se viu tendo que ter uma profissão que a mantivesse mais próxima de casa e assim trabalhar com comércio, como o marido, foi também uma necessidade.

Marlene nos contou que sempre gostou de frutas, como naturista já vivia subindo em árvore e “andando no meio do mato” para descobrir frutos e sabores. Assim, foi natural desenvolver o mesmo hábito em Parelheiros. Ao chegar ali, percebeu que a população já utilizava o cambuci para fazer sucos, compotas, geléias, entre outros. Ela se identificou com o sabor da fruta quando na cozinha, passou a atuar por sua valorização, seja no uso culinário, seja como símbolo da cidade de São Paulo já que a fruta é nativa e endêmica da mata atlântica daqui, como nos explica.

Apesar desse desejo, Marlene conta que a fragilidade do fruto do Cambuci dificulta sua popularização e distribuição para a toda população. Por esse motivo o fruto atualmente é alvo de pesquisas da USP de Piracicaba e também da capital, a fim de desenvolver maior resistências desse fruto.

Marlene expressa muito afeto pelo fruto e pelas potencialidades da região: sua cozinha é abastecida por produtores orgânicos da própria região por meio da Cooperativa Agroecológica de Produtores Rurais de Água Limpa da Região Sul de São Paulo –COOPERAPAS, ela tem parceria com produtores de cambuci que lhe garantem cambuci para o ano inteiro e está sempre disposta a participar de atividades externas onde possa propagar o sabor do Cambuci e orgulho de ser parelheirense.

Vivências náuticas e a arte de ser da margem

Após a visita ao Restaurante da Marlene, fomos para outro ponto ao sul do mapa, dessa vez nossa parada foi numa margem da represa billings, situada no Jardim Gaivotas e num local de muita resistência: Ateliê da Margem!

No caminho até lá, os participantes que habitam ou habitaram locais pelo qual passávamos, foram contando suas memórias e experiências no território.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Fomos recebidos no Ateliê da Margem pelo Franz Thomas na antiga sede da ONG Vento em Popa, onde ocorrem as atividades do Navegando nas Artes. O Thomaz é morador do Jd. Gaivotas, um “fruto” do projeto que ali funcionava anteriormente e um dos atuais responsáveis pelo espaço. Com essa trajetória, ele entende muito bem a necessidade de realizar ações e articular os moradores para o reconhecimento e apropriação do local.

Ao nos contar sua história de menino, foi com um sorriso no rosto que relembrou os tempos em que preferia ficar ali do que ir para a escola, já que – ele avalia hoje – nas atividades da ONG encontrava um espaço em que ele podia SER, ser livre e dialogar com o meio em que vivia.

Foram anos sendo um menino que gostava de velejar, cuidando e zelando da margem da represa com mutirões de limpeza, discussões sobre meio ambiente entre outras ações para depois se descobrir o próprio agente de transformação local. Não foi uma escolha, foi algo que necessariamente precisava acontecer, a realidade fazia com que continuassem construindo atividades ali, apesar da dificuldade de sustentabilidade financeira.

A represa é um lugar muitas vezes desvalorizado pelos moradores de suas margens, não é visto como um local de lazer ou mobilidade pela maioria. No máximo as crianças sempre sabem aproveitar para dar um mergulho. Existem também alguns pescadores que ainda pescam nas suas águas. Ainda assim, observamos que há expressões de afeto entre os moradores e a represa e pensamos que, possivelmente, esse afeto tenha sido semeado através dos diferentes projetos que atuaram ali abarcando o campo das artes, meio ambiente, cultura, juventudes… E como no grupo haviam moradoras e moradores de outras margens de represa, estes tiveram a impressão de aquele pedaço da represa parecia mais limpo e cuidado do que outros. Longe de se explicar pela corriqueira ideia de que “a grama do vizinho é mais verde” pensamos que talvez esse maior cuidado seja justamente resultado dessas intervenções da antiga ONG, desse afeto e da relação que ali se desenvolve com as margens.

Atualmente acontecem algumas atividades segundo demandas de grupos e coletivos que ocupam o espaço com arte e cultura, as principais são Grafite e vivências náuticas.

Processo criativo, interpretativo e provocativo: o último dia

Em nosso último dia nos dedicamos a refletir tudo o que passamos até ali. Foram reflexões e partilhas sobre a visita de campo, os estranhamentos, os encontros, as percepções. A missão do dia era trabalhar em cima dessas partilhas e do que vivenciamos na visita e demais encontros. Nos dedicamos então a tarefa de tornar digital os mapeamentos que havíamos realizado e também nos dividirmos em grupos de trabalho menores, para experimentarmos e realizarmos o processo de produção dos conteúdos planejados.

Durante todo o resto do dia, as equipes foram trabalhando e organizando suas tarefas. Ao final, longe de ser um encerramento, mas mais um chamado à necessidade de seguir em conexão encerramos esse ciclo de encontros cada vez mais com a certeza de que se há margem, há possibilidade!