Neste 13 de julho de 2020, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) completa 30 anos. Naquele momento, 1 em cada 5 crianças e adolescentes estava fora da escola, e 1 em cada 10 não estava alfabetizada. Quase 8 milhões de crianças e adolescentes de até 15 anos eram submetidas ao trabalho infantil.

O País evoluiu consideravelmente em políticas públicas para garantir os direitos de quem deveria ser prioridade absoluta na sociedade. Mas, com a pandemia de coronavírus que escancara desigualdades históricas, corremos o risco de regredir: da violência infantojuvenil ao genocídio negro, da dificuldade em acessar a educação à necessidade do trabalho.

Para marcar a data, a Periferia em Movimento publica fotos enviadas por adolescentes e jovens que participaram do Desafio Repórter da Quebrada #1, uma versão on-line e adaptada ao momento dos encontros de aprendizagem que a produtora de jornalismo de quebrada tem feito desde 2015.

O Desafio instigou jovens moradores e moradoras das periferias a retratarem sua vida em quarentena. Nos registros, a ansiedade, a solidão, a falta d’água ou as dificuldades em manter o isolamento dividem os olhares com o autoconhecimento e a imaginação.

Confira abaixo!

“Enfermeiro cuidando de paciente em casa em tempo de pandemia” – Samara Garcia, de 13 anos, moradora do Jardim Santa Fé – Parelheiros, Extremo Sul de São Paulo.

“Fica difícil manter as crianças em casa se não tem como entretê-las. É tão difícil fotografar o silêncio da pandemia” – Jamilly Santos Silva, 15 anos, moradora do Grajaú, Extremo Sul de São Paulo.

“Com a pandemia ocorrendo, moradores tentam economizar água o máximo que podem, pias com louças enormes, para que a conta no final do mês não seja cara” – Raquel Lopes, 16 anos, moradora do Jardim Olinda – Campo Limpo, Zona Sul de São Paulo.

“Falta de água prejudica a periferia a lavar as mãos durante a pandemia” – Giovanna Rocha, 13 anos, moradora de Interlagos, zona Sul de São Paulo.

“Essa é uma imagem ampla de uma região periférica, vista da minha casa em um momento de pandemia. Analisando bem a imagem, é possível perceber a presença de ônibus e carros que aparentemente seguem normalmente, isso está sendo comum na periferia, muitas vezes não é por irresponsabilidade dos cidadãos e sim pela necessidade dos serviços assalariados de cada um, já que o auxílio governamental não é o suficiente para o sustento do povo” – Victor Leão, 16 anos, morador do Jardim das Imbuias – Cidade Dutra, Extremo Sul de São Paulo.

“É possível ver comércios abertos. A taxa de desemprego aumentou drasticamente durante o período de pandemia, e infelizmente muitos comércios estão indo à falência. Empreendedores da periferia estão trabalhando e investindo muito para conseguir manter os pequenos comércios” – mais uma do Victor Leão.

“Essa foto eu tirei porque percebi que na quebrada tem tido um movimento muito grande de motoboys por pedido de aplicativos, mas com pouco reconhecimento, deveríamos apoiar mais a paralisação do dia que visa direitos básicos ao trabalho seguro dos motoboys” – Mayane Vitória Lima Guedes, 18 anos, moradora de Sapopemba, zona Leste de São Paulo.

“Tirei essa foto porque registra o nome da minha quebrada, escolhi preto e branco porque é o muro de uma creche que tem na minha rua e eu acho que só tem cor quando as crianças estão ocupando esse espaço” – mais uma da Mayane Vitória.

“Tirei essa foto durante a quarentena, mas ela poderia ser usada bem antes da quarentena, porque acho que a quebrada não aderiu muito esse movimento de ficar em casa, por falta de informação e por muita necessidade de trabalhar. A quarentena não existe na quebrada” – outra da Mayane Vitória.

“No começo dessa quarentena, consegui olhar pra mais pra mim, antes de entrarmos nessa quarentena minha rotina era muito louca, e o tempo que eu tinha pra parar e analisar o que eram essas coisas, porque do nada vinha essas mudanças de humor. Foi esse tempo em casa que a ansiedade me machuca muito, que me faz acreditar nas coisas que minha cabeça diz, a ansiedade machuca quando me comparo com outras pessoas, a ansiedade machuca quando na minha cabeça eu sempre acho que as pessoas não vão gostar do meu jeito, e tento controlar isso dizendo a mim mesma que a ansiedade mente pra mim o tempo inteiro, pois mesmo achando e acreditando em tudo que minha cabeça me diz, é um processo. Mas com todo esse tempo vi que sou maior do que qualquer coisa que me faz pensar que sou incapaz, em vez disso estou ouvindo o meu coração, e sei que não posso parar e não vou parar, sou maior que tudo isso. E através dessa ‘Carta aberta’, fiz um auto- retrato sobre isso”- Julia Cavalcante, 15 anos, moradora do Grajaú, Extremo Sul de São Paulo.

“Um mês atrás, fui viajar com a minha avó para conhecer onde ela morou por muitos anos, e em um almoço bem gostoso em família meu tio (cunhado da minha avó) começou a contar sobre a infância dela lá e dos filhos. No meio dessas histórias, vi no rosto do meu tio uma expressão muito alegre provavelmente relembrando o passado, e ouvindo essas histórias percebi como esse meu tio era querido no bairro, amava plantar e fazer horta na casa dos outros, e realmente quando o conheci ele era engraçado e muito legal. Nesses dias tivemos a notícia que perdemos ele para o câncer. Foi muito triste e sempre que olho esse quintal imagino ele rindo e mostrando o jornal do bairro, ótimas lembranças. E preferi deixar a foto em preto e branco, como se esse lugar tivesse em memória” – mais uma da Julia Cavalcante.

“O clima reflete muito como vai ser meu dia, se vai ser produtivo ou não, e toda vez que vejo essa vista do por do sol na minha janela tenho motivação, meu corpo vibra junto, simplesmente eu amo apreciar mesmo que seja algo clichê. Eu gosto muito de apreciar e às vezes eu me emociono, por ver tanta beleza na natureza” – outra da Julia Cavalcante.

“A imaginação nunca morre , mesmo em períodos difíceis!!”- Artur Juventino Martins, 12 anos, morador do Grajaú, Extremo Sul de São Paulo.

“[Reflexões de uma quarentena] Eu me quero de volta, mas onde posso me encontrar? Se eu me perdi em mim mesma. O meu reflexo nunca esteve tão longe e inverso de quem eu sou. A minha vontade de transbordar e florir na vida das pessoas sempre foi um princípio e um anseio. Mas hoje pretendo me completar, descubro que a minha saúde é a minha riqueza, que os meus desejos e sorrisos, sem exceção, são por quem estou me tornando. Que eu plante flores no caminho e me conecte com o meu eu novamente. Com o que você se conecta?” – Evelyn Geovanna Ferreira Santos, 16 anos, moradora do Jardim Sipramar – Grajaú, Extremo Sul de São Paulo.

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