De Trump a Temer, o que aproxima as periferias negras norte-americanas às brasileiras? Em entrevista, Patricia Hill Collins fala sobre a formação do Black Lives Matter, sobre políticas públicas para mulheres negras, a nova onda de movimentos sociais e o papel do jornalismo cidadão no cenário político econômico e social atual

Em novembro de 2016, a feminista negra e socióloga norte-americana Patrícia Hill Collins esteve no Brasil para participar do Ser Negra – Decolonialidade e Antiracismo, em Brasília. A professora da Universidade de Maryland (EUA), uma das fundadoras do Black Lives Matter, veio da terra que recém tinha elegido Donald Trump como presidente para o Brasil pós impeachment, na presidência de Michel Temer.

Nós do Periferia em Movimento, do Alma Preta e da Rede de Cursinhos Emancipa, conversamos com Patrícia Hill Collins sobre como as vivências de movimentos feministas negros/periféricos dos Brasil e EUA podem se complementar. Falamos sobre a formação do Black Lives Matter, políticas públicas para mulheres negras, sobre a nova onda de movimentos sociais e o papel do jornalismo cidadão dentro do cenário Temer/Trump que mal começou e já tirou direitos da população e da mulher preta, pobre e periférica.

Em 1990, Patricia escreveu sua primeira grande obra: “Black Feminist Thought: Knowledge, Consciousness and the Politics of Empowerment” – traduzindo, “Pensamento Feminista Negro: Conhecimento, Consciência e Políticas de Empoderamento”. No livro, com a visão de uma mulher negra com bagagem histórica e conceitual, liga seus pontos de vista às experiências que viveu, à percepção que tem sobre elas, reconhecendo as diversas diferenças entre as próprias mulheres negras e a importância de o feminismo negro dentro da vida da mulher negra. Faz uma análise científica e, ao mesmo tempo, acessível do contexto do pensamento feminista negro.

Essa foi sua segunda visita ao Brasil, dessa vez em um ambiente de discussão sobre feminismo negro, o Ser Negra. Mesmo sem muito tempo disponível, não hesitou em participar de todos os espaços que pudesse. Foi a uma escola ocupada por estudantes no Distrito Federal e também a uma conversa com integrantes do Quilombo – Diretório Negro da UnB e de lá conheceu melhor a juventude negra em movimento no Brasil.

Conhecer todas as realidades das mulheres negras é impossível, das brancas também. Mas existem dados que estão aí para mostrar que, mesmo sendo todas diversas, a cor da pele e o fenótipo definem qual é a mulher que será mais atingida por balas de fogo no Brasil. O Mapa da Violência de 2015 mostrou que se o assassinato de mulheres negras no Brasil aumentou em 54% em dez anos (2003-2013), o de mulheres brancas diminuiu 9,8% no mesmo período. Neste período, foram estruturadas políticas públicas para mulheres, sendo a principal, a Lei Maria da Penha (Lei 11340/06). Lançado recentemente, o Mapa da Violência 2016 confirmou a queda em Homicídios por Arma de Fogo (HAF) de homens e mulheres brancos (-26,1%) e o aumento de 46,9% no número de vítimas negras.

Para Patricia, se as políticas públicas estão surtindo mais que o dobro do efeito entre mulheres brancas do que entre as negras, existe um porquê.

As violências contra a mulher branca e contra a mulher negra são diferentes e é preciso avaliar até qual ponto as políticas públicas brasileiras conseguiram alcançar.

Para Patricia, é preciso desenvolver uma análise mais sofisticada dentro dos relacionamentos para mostrar essas particularidades das violências domésticas contra mulheres negras. “Vai levar um longo tempo para desenvolver estratégias para cada uma dimensão da violência para assegurar a proteção de mulheres negras. Ter uma lei como a Maria da Penha é um ótimo começo, mas vai levar tempo pra conseguir reparar a violência contra todas, vendo as especificidades de cada uma”.

Em maio de 2016, o Presidente Michel Temer (até então era presidente interino), assinou a Medida Provisória 726 que extinguiu o Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial, da Juventude e dos Direitos Humanos. Todos eles se tornaram pastas dentro do Ministério da Justiça e Cidadania. Atualmente, a Secretaria de Políticas para Mulheres (SPM) e a Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR) são partes integrantes do Ministério de Direitos Humanos. Nos EUA, após a vitória de Trump, o cenário de retrocesso não é diferente: Além das ações anti imigrantes e refugiados, Trump assinou decreto proibindo o país de financiar ONGs pró-aborto. Isso aconteceu logo após a Marcha das Mulheres que tomou Washington em 21 de janeiro.

O momento de tomada de poder por governos autoritários é, para Patricia, uma resposta da população que vinha se assustando com avanços de movimentos negros e de políticas afirmativas. Os EUA vinham de dois mandatos do seu primeiro presidente negro, aqui no Brasil, era o segundo mandato da primeira presidente mulher.

A eleição de Barack Obama assustou o público em geral, basicamente branco, na mesma maneira que a população branca no Brasil tem se assustado com as políticas afirmativas dos últimos cinco anos.

Eles viram Barack Obama como ASSUSTADOR, só que não sabiam que assustador era o que estava por vir

Para Hill Collins, mesmo durante os anos de Obama, em que a população negra podia se orgulhar de um presidente negro, os negros pobres ainda sofriam sendo maioria em bairros periféricos, em escolas públicas de má qualidade, em prisões, eram maioria dos presos, vítimas do encarceramento em massa… Eram os mais afetados pelas dinâmicas sociais, e no contexto de afloramento de individualismos, “começaram a ouvir que eram as causas dos próprios problemas”, avalia Patrícia.

Vidas Negras Importam

“E aí eles começaram a ouvir que eles eram as causas dos seus próprios problemas. Isso é individualismo e dissimulação. O movimento Black Lives Matter (Vidas Negras Importam) só pode acontecer de 2000 pra cá porque Barack Obama estava na Casa Branca. É uma consequência dos sucessos e das falhas do movimento social negro. O sucesso é que Barack Obama estava no poder, mas a falha é que nem todo mundo poderia ser Barack Obama.”

Mas, como ela mesma afirmou, “em algum momento isso estoura, se desconecta”. Foi nesse contexto, quando a polícia do presidente negro atirou em um jovem fora de bairros de negros, em meio aos brancos, que o movimento Black Lives Matter estourou.

Marcha do dia 10 de julho de 2016 do BLM. (Foto: DANIEL LEAL-OLIVAS/AFP/Getty Images)

“O BLM é uma das consequências dos sucessos e das falhas do movimento social negro. O sucesso é que Barack Obama estava no poder, mas A FALHA É QUE NEM TODO MUNDO PODERIA SER BARACK OBAMA” e viver como ele. Portanto, “a morte do Trevor foi um choque que acabou com essa questão de mito da democracia racial. O BLM busca a visibilidade das mortes de negros enquanto acontecimentos dentro de um sistema, que provam que o racismo ainda está entre nós.

E então, da mesma forma como ela pôde vivenciar em reuniões com estudantes secundaristas e da graduação em Brasília, “quando pessoas jovens negras se fortalecem, elas não vão voltar atrás”. O diferencial da juventude no BLM, para Patricia, é que eles fazem parte de uma onda de movimentos sociais em que tudo se conecta e compartilha muito rapidamente. Além disso, o BLM está em diversos campos, seja nos negros periféricos, ou nos negros que ocupam as universidades.

Na Universidade, são várias as oportunidades de debater questões raciais, principalmente em universidades públicas. O número de negros em universidades no Brasil cresceu em 230% de 2000 a 2010, quando eles representavam 26% dos estudantes. Em 2015, 12,8% dos negros entre 18 e 24 anos chegaram ao nível superior. No cenário norte-americano, 19,6% dos negros acima de 25 estão ou passaram por universidades.

E muito antes de pensar em universidade, a aproximação da juventude com a temática racial vem pelos ídolos. Patricia lembra que se a escola não deu espaço para falarem sobre raça, gênero e sexualidade, aprendem por outros meios. Nos EUA, ela viu isso acontecer pelo Hip Hop, pois ele “mantém as pessoas sabendo do que está acontecendo, e por isso essa linha não morreu”.

“O Hip Hop conseguiu manter as pessoas sã e salvas após o discurso da democracia racial, e Tupac é um professor para eles, eles gostam, e esses ensinamentos não estão nas escolas.” Patricia conheceu o Brasil que acabava de passar pela maior mobilização de secundaristas já vista (quase 1.000 escolas ocupadas contra a PEC 241 e os retrocessos do governo Temer). E como comentou, a atuação dos ativistas daqui e de lá é nesse ponto também diferente. Enquanto os brasileiros ocuparam as escolas e levaram essas discussões para dentro da sala de aula, nos EUA, os ativismos dos estudantes negros em maioria de classe média cursando a graduação, foi de investigar as origens escravocratas das instituições de elite. “Eles não estão ocupando a escola, mas usando as armas que a educação convencional deu pra eles para lutar contra ela. Usando o mesmo mecanismo que a própria universidade dá como instrumento. Através da pesquisa, descobrem e escancaram de onde vem o dinheiro que a escola tem. Harvard, Princeton, IEL, Georgetown, todas fruto de trabalho escravo”. Em diversos pontos, comenta, as diferentes atuações dos movimentos negros se complementam.

O Black Lives Matter é formado por organizações variadas, muitas formas de ativismo. Não sei aonde isso vai parar, mas é valioso que a tecnologia tem dado mais possibilidades pra essas pessoas fazerem esse tipo de trabalho, conversarem umas com as outras.

Você pode conhecer melhor o Black Lives Matter clicando aqui.

Mídia, ativismo e resistência

Como lidar com o fascismo que está por aí? Uma das formas, para Patricia, é dialogando. É conversando com quem pensa diferente, fazendo os questionamentos certos, que se consegue construir bons argumentos para fazer oposição. Mas essa vontade de questionar não é ensinada na escola e nem está aí na mídia.

Na hora de se informar e educar, a mídia cumpre um papel maior que o da escola, seja nos EUA de Patricia ou por aqui. A escola lá se tornou apenas um passo para conseguir diploma e emprego, mas a formação mesmo se recebe na mídia. Ela é a formadora de ideologia.

“E temos um presidente que tem uma relação bastante negativa com a mídia mainstream e com a mídia alternativa, e muito próxima à imprensa de direita. Mas acho que o jornalismo cidadão está de uma forma geral possibilitando toda uma geração a se engajar no discurso libertário. Acho que os indivíduos estão particularmente empoderando-se para reportar suas próprias experiências e não deixam de chegar até a mídia tradicional e pautá-la.

Para Patricia, é importante disseminar as ferramentas do jornalismo, “uma vez que a pessoa tem acesso a essas ferramentas, a essa ideologia e crítica, não se pode tirar isso dela.” Foto: Mariana Caires

Neste 8 de março, viva as mulheres negras e periféricas que fazem mídia e levam suas ideologias adiante! Viva as mulheres que estão em marcha e as que não estão! Viva as secundaristas! As futuras universitárias! Todas as mulheres. Vivas! #TodasVivas #NemUmaAMenos

Veja nessa reportagem as marchas de mulheres que estão programadas para este 8 de março nas periferias de SP.

*Entrevista realizada por Letícia Ferreira e Mariana Caires, com colaboração de Vladimir da Rede Emancipa DF.