Por Julia Vitoria. Fotos Divulgação / Cia Enchendo Laje & Soltando Pipa

O plano original era apresentar o espetáculo de teatro em ruas e espaços culturais do Grajaú, no Extremo Sul de São Paulo. Mas aí veio a pandemia, a necessidade do distanciamento social e, com o risco de contágio, se reunir presencialmente foi uma opção que saiu de cartaz. Com uma peça pra botar no mundo, a Cia Teatral Enchendo Laje & Soltando Pipa mudou o percurso: transformou o espetáculo em filme e publicou na internet.

Com estreia no último dia 28 de março, “Grajaú, uma cartografia da exploração” aborda a vida neste lugar de trabalhadores, migrantes, correrias – um território que corresponde ao distrito mais populoso da cidade de São Paulo, com mais de 300 mil moradores. Confira abaixo:

Com retornos muito positivos de moradores de diversas outras regiões do Brasil, o grupo vê nesse modelo virtual uma forma de se expandir e alcançar ainda mais lugares. “De certa forma, por ser virtual, nós tivemos muitos retornos. O que possibilitou a gente ir para fora de São Paulo, ir para além do Grajaú”, observa Fernanda Nunes, 32 anos, atriz da companhia, arte educadora e moradora da região.

A adaptação das ruas pras redes, porém, não foi tão simples como mostramos na terceira reportagem da série “Cultura à Distância” – que discute as adaptações de agentes culturais de periferias 1 ano após a pandemia.

A companhia brota das ruas

Foi em 2004, na escola estadual Levi Carneiro, que a companhia nasceu. E a fundadora Alessandra Moreira encontrou o nome e a essência do grupo a partir de uma aula na faculdade. “O professor exemplificou o anarquismo como encher laje na periferia. Esse ‘encher laje’ que não há hierarquias, onde está todo mundo se ajudando e depois vem a festa. E soltar pipa vem do sonho, que está dentro do teatro”, explica Fernanda.

A educação sempre esteve lado a lado, como explica o integrante Fábio Cupertino, 28, licenciado em História. Muitos dos primeiros integrantes do grupo foram educadores do Projeto Raíz, que é um movimento social pela educação e que tem um cursinho pré-vestibular na região. 

Fernanda Nunes, integrante do grupo (Foto: Divulgação)

Depois da escola, a companhia passou a ocupar o CEU Três Lagos, porém rompeu com a direção por um posicionamento político. “Foi indo para a rua, no território do Grajaú onde moramos, que intensificamos nossas ações poéticas, artísticas, políticas e pedagógicas”, pontua Fernanda. O grupo também é formado por Samara Monteiro, 29, atriz, psicóloga e arte educadora; e Daniel Silva, 25, ator, compositor e músico.

À deriva no território

A história desse filme já estava entranhada nas raízes dos integrantes do grupo, muito antes deles decidirem narrá-la. Com inspirações de várias regiões do Brasil (como Bahia, Paraíba, Minas Gerais e Ceará), o projeto conta histórias de mulheres e homens que migraram de outras regiões do País para São Paulo em busca de melhores condições de vida – e vieram parar no território do Grajaú.

Em um processo de “deriva” pelos bairros locais, os integrantes circularam pelas ruas, entrevistaram moradores sobre suas percepções e decidiram contar as histórias de seus pais e mães – eles próprios migrantes e moradores dessa periferia. 

“Depois de fazer as primeiras entrevistas para a primeira dramaturgia que deu origem ao espetáculo, o grupo foi contando as histórias e encontrando vários traços de identificação entre elas. ‘Nossa, a história da sua mãe parece à da minha mãe. Meu pai também fazia isso’. Então, nós começamos a traçar essas narrativas e ver que todo mundo compartilha das mesmas histórias”, lembra Fábio. 

Das ruas para as redes

Foram muitos os desafios na adaptação do espetáculo para o filme colocados pela pandemia. O grupo precisou se encaixar na linguagem cinematográfica, além de aprender milhares de outras novas funções, como operar máquinas de filmagem. Foi necessário repensar a dramaturgia, histórias e cenas. Mas o projeto ganhou vida a partir de uma parceria estabelecida antes com os moradores. 

Fabio Cupertino, integrante do grupo (Foto: Alessa Ferreira)

“Usamos o terreno do Zezinho, vizinho da Samara, para gravar. Essa parceria que é conversar com a dona do mercadinho, o vizinho que tem uma garagem…. O fazer relacionado com a sociedade possibilitou e potencializou tudo isso”, relata Fábio.

O filme foi gravado em pontos simbólicos da região do Grajaú, como a balsa da Ilha do Bororé, localizado em área de proteção ambiental e parte dos 13% restantes da nossa Mata Atlântica. A ideia era trazer essa identificação do território tanto nas histórias narradas, quanto por meio das imagens. 

Contemplado pela terceira edição do Programa de Fomento à Cultura da Periferia, uma política pública existente na cidade de São Paulo, o projeto conta ainda com uma revista que traz detalhes e percepções dos artistas (clique neste link).

É no dia a dia, na realidade, que o grupo encontra sua inspiração e força para seguir fazendo e construindo seu teatro na periferia – física ou virtual.

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