Foto: Mariana Caires / Thiago Borges (Periferia em Movimento)

Cultura conectando quebradas contra o genocídio

Pânico na zona sul? Não.

Domingo, 08 de novembro, foi dia de festa e reflexão.

Após dezenas de shows em diversos cantos pelo País pela turnê do novo álbum “Cores e Valores”, Racionais MCs voltam a se apresentar em show gratuito para o público das antigas: na avenida Luis Gushiken, no Jardim São Luís, o grupo de rap cantou novos e antigos sucesso para mais de 5 mil pessoas que se aglomeravam em frente ao palco – fora quem assistia dos “camarotes” nas varandas ou em cima da laje das casas apinhadas no morro à frente.

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Acompanhados de Hélião do RZO, Negredo e Rosana Bronks, além de um palhaço aterrorizante (para delírio da galera), os quatro pretos mais perigosos do Brasil subiram ao palco do festival Hip Hop Conectando Quebradas, mas não estavam ali pra brincadeira: a proposta é denunciar o genocídio da juventude brasileira.

Afinal, todos os anos 50 mil brasileiros morrem assassinados. E segundo o Mapa da Violência, 35 mil deles têm menos de 29 anos. Mais de dois terços das vítimas são negras. O genocídio tem idade, cor e também tem endereço. Acontece entre a população mais pobre, que vive nas periferias.

Não tem solução imediata. O buraco é bem mais embaixo, como apontou o DJ KL Jay em entrevista após o show (confira a reportagem completa aqui). Mas a cultura e a educação são caminhos para combater a matança.

“A cultura cruza pontes, atravessa fronteiras e permite transformar vidas”, aponta Marcelo Rocha, conhecido como DJ Bola, que também desenvolve oficinas e palestras em escolas públicas da região. “Queremos provocar e fomentar a molecada a realizar seus sonhos, acessar a cidade, sair da nossa bolha periférica imposta de cima para baixo, ampliar o repertório”.

Bola viveu o Jardim Ângela dos anos 1990, quando o distrito da zona sul de São Paulo chegou a ser considerado o mais violento do mundo devido às altas taxas de homicídio. No ano 2000, ele funda a produtora A Banca, que promove eventos e formações para desenvolver a música e a cultura Hip Hop como ferramentas de inclusão cultural, social e econômica para jovens periféricos e já impactou mais de 20 mil pessoas diretamente.

“Proporcionar espaços de diversão também é proporcionar espaços de discussão de coisas de suma importâcia, como o genocídio da juventude periférica e como a gente desenvolve ações para que nossos jovens não continuem morrendo. A violência só ocupa espaço quando não há outras iniciativas”, diz o MC Nabote, 28 anos, que também faz parte d’A Banca.

Realizado pela produtora com recursos captados pela Lei Rouanet do Ministério da Cultura da Casas Bahia via Fundação Via Varejo, o festival Hip Hop Conectando Quebradas deste ano chegou ao ápice com a presença dos Racionais MCs, após a passagem de uma rapa de peso pelo palco montado na avenida ou barracas de exposição de empreendedores sociais locais.

“Temos que trazer de fora pra dentro e levar o que está aqui para fora também”, diz Juninho, integrante do grupo de pagode Ansiedade, com 14 anos de trajetória no Jardim Ângela. Integrantes de grupos de rap da região, como A Fusão e Crise de Estado, fizeram uma jam session, enquanto o MC Mirim representou a geração que está chegando.

Em todas as intervenções, o jovem é o protagonista.

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Foto: Reprodução Stylo Urbano

“A juventude é a força motriz das revoluções, é capaz de transformar. Temos que trabalhar nossos jovens, fortalecer, porque a juventude é o combustível”, diz Paulo Vicente, integrante do coletivo Dedo Verde, que desenvolve hortas comunitárias e produtos orgânicos no entorno do Jardim Monte Azul. “Esse é nosso grito de alforria. Estamos construindo nossa própria cultura, nossos próprios produtos, sem precisar atravessar a ponte”.

O grupo Ciclo Social Arte montou uma banca no festival expondo seu trabalho. Eles atuam grafitando em escolas e creches da região, e “a cultura, no nosso caso o graffiti, conecta a todos da quebrada e leva educação. A juventude são os que mais vão absorver  nosso material e repassar a mensagem”, conta Michel Onguer, de 31 anos.

Também teve jovem subindo ao palco, com muito o que dizer. O grupo Estylo Urbano tem mais de 10 anos e conta com jovens de várias quebradas, todos conectados se expressando pela dança. Seus sonhos pra periferia? Ter a tranquilidade de poder curtir a noite na calçada ouvindo um som, e pra isso acontecer, é preciso abrir os olhos para o genocidio, que tá aí, mas pouco se fala sobre, acreditam.

No Conectando Quebradas, todo mundo passou sua mensagem, e a do poeta Banks, junto ao seu parceiro Cérebro I.D.P., apontou que “os elementos da cultura hip hop são portais que levam ao empoderamento social político”. Para eles, “os valores entram nessa juventude que está vulnerável, a máquina empobrece, joga lixo cultural. Já são mais de 500 anos de desapropriação cultural nesse país, temos que ocupar os espaços”.

Participando de festivais como esse, os jovens da periferia entram em contato com muitas experiências de produção cultural da região. Os B.Boys Allan TJ e Pulga, do grupo MN e a Junção, acham essa aproximação importante porque faz a juventude acreditar que é possível, e “quando essa galera chega a cargos maiores, vai com a sensibilidade que o playboy não tem, isso resulta num futuro melhor pra própria quebrada”.

Após horas no festival realizado em frente a uma unidade da Fundação Casa, o público foi dormir pensando em genocídio e protagonismo juvenil, sobre os quais o MC Diel, de 20 anos, pergunta: “Se não tivesse esse evento aqui, será que tantas pessoas estariam discutindo esse assunto agora?”.

[box]A galera a TV Doc também colou no festival. Confira a cobertura que eles fizeram:

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