Reportagem de Aline Rodrigues. Edição de Thiago Borges

A agitada rotina de Antonio com os primos teve que parar abruptamente. Já Jorge, que adorava ir para a creche, agora se vira com brincadeiras improvisadas em casa. E Leonardo, que nasceu há pouco tempo, aguarda uma vaga na educação infantil sem perspectiva de que vai conseguir. 

Com a pandemia ainda em voga, pais, mães e outros familiares dividem os cuidados dessas crianças pequenas em meio a diferentes dificuldades: a puxada carga horária de trabalho em casa; o desemprego e o acesso complicado ao auxílio emergencial; a difícil adaptação dos pequenos à rotina doméstica. 

As consequências da pandemia sobre crianças pequenas são inegáveis: com as aulas suspensas até 2021, fica uma lacuna do estímulo proporcionado pelo ambiente escolar que as famílias têm tentado superar.

A Periferia em Movimento conversou sobre o assunto com 3 famílias e também com um profissional de uma instituição educacional da periferia da zona Sul. Confira a seguir.

Antonio

Antonio tem 6 anos, completados e comemorados no dia 24 de outubro, em casa. A foto dele na festa com os pais é destaque nesta matéria.

Até março, ele estudava na CEMEI Jardim Dom José I, uma escola de educação infantil administrada pela Prefeitura de São Paulo no bairro de mesmo nome. Ele mora com a mãe Ana Karina dos Santos e o pai João Paulo Souza Magalhães, ambos com 36 anos, no Conjunto Habitacional Jardim São Bento, Capão Redondo, zona Sul paulistana. 

O pai trabalhava até o começo da quarentena como taxista, mas parou justamente por conta da pandemia e só agora está retomando a atividade. E a mãe faz várias coisas: organiza viagens, produz eventos culturais e faz vendas na internet.

Por isso, de vez em quando ele ficava na casa dos avós paternos ou maternos. E gostava muito de brincar com os primos. Agora só visita os avós só as vezes, com todo o cuidado necessário.

Ana Karina, Antonio e João Paulo (foto: Arquivo pessoal)

“Ele sente muita falta de sair e brincar com os primos, mas por causa da rotina de ter que limpar toda hora, ficar com a máscara, quando volta tomar banho, limpar as mãos com álcool, ele não quer mais sair. Sinto um pouco de resistência”, lamenta a mãe Ana Karina. 

Escola, primos, casa. Uma rotina agitada tinha o Antonio. Com a pandemia, no entanto, as aulas foram suspensas e Antonio teve de parar de ver os avós ou os primos por um bom tempo. As viagens e os eventos de Karina foram cancelados, e as vendas sumiram. Ela ficou 2 meses sem sair de casa. “A adaptação tem sido muito complicada”, ela diz. No começo, ele perguntava por que não podia ir para a escola ou ver os amiguinhos.

A grana encurtou, mas se tinha uma conta que não dava para deixar de pagar era internet. Só assim para Antonio se distrair um pouco, com os joguinhos, vídeos e algumas atividades on-line.

O pai viu como alternativa ao trabalho de taxista fazer manutenção de videogames, depois de alguns meses parado. Agora dedica meio período do dia para cada trabalho e Ana Karina tem feito alguns atendimentos on-line. Mesmo assim, ela trabalha no máximo 3 horas por dia, pois o cuidado com Antonio exige muito tempo. Só depois de 3 tentativas, ela conseguiu ser aprovada no auxílio emergencial.

A escola captou recursos e alimentos para doar às famílias mais necessitadas. Para afagar as crianças, até doces e sorvetes entraram na distribuição. A direção mantém um canal de contato com as famílias via whatsapp desde o começo da pandemia. Há 5 meses, a escola também envia materiais para as atividades pelo Google ClassRoom, porém Ana confessa que recentemente deu uma relaxada.

“Nós tentamos fazer as atividades, ele se nega um pouco, não acha mais tão interessante quanto no começo, se sente entediado”.

De vez em quando, a mãe de Antonio o leva para tomar sol na rua, andar de bicicleta e jogar um pouco de bola. Um dia de cada vez.

Jorge

Jorge tem 3 anos. Ele mora com a mãe Jessica Dara, de 23, mais 2 tios e a avó no Jardim Casa Grande, em Parelheiros. Jorge adorava ir para a escola, um CEI terceirizado na região. Ficava o dia inteiro lá, enquanto a mãe ia para a aula na faculdade e depois para o estágio em comunicação. Chegava exausto em casa, tomava banho, jantava e cama! O coronavírus acabou com isso.

Dara e Jorge, quando ele tinha 2 anos Ana Karina, Antonio e João Paulo (foto: Arquivo pessoal)

Jorge agora fica em casa o tempo todo, todo o tempo. A mãe Dara também. Estuda e trabalha em casa. A avó cuida de Jorge, mas Dara sempre para o que está fazendo para dar uma atenção. Por conta disso, no começo da pandemia às vezes ela trabalhava até meia-noite, 1h da manhã. Ela sentiu que a cobrança no trabalho aumentou. Agora, ela mudou de empresa onde faz estágio e consegue seguir um horário fixo de trabalho, das 13h às 19h. “Continua corrido, mas aos pouquinhos a gente consegue dar conta”. Jorge vai para a casa do pai 2 vezes por semana.

Para não deixar o filho sem ter o que fazer, ela investiu: comprou uma lousa, giz e tintas, que ele gosta de explorar. Também adquiriu joguinhos, como quebra-cabeça e monta-monta. Jorge gosta, mas nada como ir para a escola. Ele tinha acabado de sair do berçário e iniciar no maternal. Ainda estava se adaptando à nova turma, ficou pouco mais de 1 mês com a professora nova, até que veio a pandemia.

No CEI Ana de Fátima, as famílias já foram avisadas que as crianças menores devem ser as últimas a voltar, justamente por conta das dificuldades em manter o distanciamento social. Salvo essa informação, Dara sentiu falta de um suporte maior da escola. Ela também está decidida a enviar Jorge para a escola somente em 2021.

Leonardo

Leonardo nasceu há pouco tempo. Tem apenas 1 ano. Ele mora no Parque Regina com a mãe, Maria das Graças dos Santos, de 33 anos, e outros 3 irmãos – Lucas, de 16 anos; Vinícius, de 13, e Paulo Henrique, de 8 – sendo que 2 deles são autistas. 

Logo depois de encerrar a licença maternidade, Maria das Graças entrou na fila da creche para matricular Leonardo. A vaga saiu no Grajaú, a mais de 20 quilômetros da casa dele. Lá, vive o pai de Leonardo.

Como Maria das Graças ficava boa parte do tempo fora e dependia da ajuda da mãe, que voltou para o Nordeste, o filho mais velho assumiu o cuidado dos menores, e ela até cogitou deixar Leonardo com o pai e a avó paterna para que frequentasse a creche e buscá-lo apenas no final de semana. Mas, no meio tempo, a empresa em que ela trabalhava foi vendida e ela foi mandada embora assim que passou o período de estabilidade de 5 meses garantido após o nascimento do bebê.

A pandemia chegou em meio a isso tudo. Sem direito ao auxílio emergencial, Maria das Graças também não conseguiu receber as cestas fornecidas pela Prefeitura na escola onde estudam os filhos mais velhos. No bairro onde mora, foi orientada a aguardar até novembro para tentar uma vaga na creche para Leonardo em 2021.

Relato de mãe e jornalista

Nós mães, famílias com crianças nessa pandemia, temos diferenças. Mas muitas semelhanças. Na apuração desta reportagem, me vi muitas vezes nos depoimentos que escutei.

O tentar dar conta de tudo é cada vezes mais impossível de se conseguir. Falamos com as famílias desde junho e, apesar de mais adaptadas, os desafios são ainda muito presentes. Equilibrar adaptação da criança em casa, suporte ao desenvolvimento, suprir as necessidades básicas diárias, inclusive para cuidar da saúde mental delas, é puxado. Paralelo a isso, tem a nossa saúde mental, nosso trabalho, a casa para manter minimamente organizada.

Tenho em casa a Helena, de 5 anos, e junto com meu companheiro, Aparecido, trabalhamos em homeoffice. Ele é professor na rede pública estadual e também municipal de ensino. Acompanho de perto a reinvenção que educadores e educadoras têm vivido para seguir atuando nesse contexto, vendo a rotina dele e da minha filha, que todo o mês buscamos para ela as atividades da escola e assistimos juntas os vídeos que as professoras enviam pelo whatsapp.

Também fiz como a Ana Karina, repensei a forma de realizar as atividades da escola da Helena. Tem dias que ela adianta as lições e tem dia que damos uma folga para ela. Como Jéssica Dara, meu horário de trabalho também às vezes se estende até tarde, porque a divisão de atenção nos cuidados com a Helena é inevitável.

Ouço a história da Maria das Graças e lembro quando fiquei na fila da creche e penso o quanto o ideal seria se essas filas não existissem, porque é direito e porque não dá para esperar a vaga da creche sair para garantir o sustento dentro de casa, para ter onde deixar a criança para ir trabalhar.

Nunca será simples para as famílias, em especial, para as mães, se outras instâncias da sociedade não se comprometerem com o suporte ao desenvolvimento das crianças. Nem em meio a uma pandemia, como não era antes e não será depois.

Educação infantil na cidade de São Paulo | A fila andou. De 65 mil crianças de 0 a 3 anos que aguardavam uma vaga em creches da cidade de São Paulo em 2016, o número caiu para pouco mais de 9 mil no início de 2020 – menor número desde 2007, festejado pela administração municipal. Os números de São Paulo são significativos: enquanto a cidade atende 58% das crianças nessa faixa etária, a média brasileira é de apenas 35%. O Plano Nacional da Educação prevê 50% até 2024.

Reduzindo os danos

Se 90% do cérebro humano se desenvolve até os 6 anos de idade, com conexões neurais se formando em um ritmo de 1 milhão por segundo, este período merece atenção fundamental de toda uma comunidade para se garantir um pleno desenvolvimento de cada ser. 

“A gente acredita que a ausência de convivência, estímulo e cuidados afetam em cada pedaço da vida, e toda uma comunidade será prejudicada”, destaca Jânio de Oliveira, gestor geral da Fundação Julita, iniciativa localizada no Jardim São Luís, zona Sul de São Paulo, que atua na região desde a década de 1950. 

Somente com a primeira infância, a Julita tem 31 anos de história, e hoje atende 335 crianças de 4 meses a 3 anos e 11 meses, envolvendo 55 profissionais, no Centro de Educação Infantil (CEI) em convênio com a Prefeitura. São 37 educadores e educadoras que atuam diretamente com as crianças. 

Com a pandemia, a Fundação se vê mais uma vez em adaptação às necessidades do território. “A proposta inicial foi fazer a atualização de cadastro das famílias, por telefone e pelo whatsApp”, conta Jânio, indicando ser uma estratégia de aproveitar também para saber como as famílias estavam, a princípio em relação a trabalho e renda, para entender como tinham sido impactadas. Naturalmente, serviu também para promover um acolhimento e saber o que faria sentido planejar como instituição para apoiar nas demandas mais urgentes. 

Paralelo à equipe pedagógica que foi se adaptando às indicações da Secretaria de Educação, foi feito um movimento de arrecadação e distribuição de cestas básicas e estabelecido um diálogo contínuo com as famílias, sabendo mais sobre como as crianças estão lidando com a falta do convívio e estímulo que tinham na Fundação e a necessidade de ficarem em casa.  “A interação com as crianças tem sido constante e isso tem gerado um afeto, mesmo que remoto”.

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