(Foto: Agência Brasil)

Com empurrão dos cursinhos, a universidade se pinta de povo

Maria Alice Martins de Freitas é a primeira da família a cursar uma faculdade de graça. Na prática, significa que ela não precisa trabalhar para pagar os estudos e varar a noite fazendo trabalhos.

A estudante de 18 anos que mora no Jardim das Oliveiras, Itapecerica da Serra (SP), está no segundo semestre de Psicologia na Universidade Paulista (UNIP), onde ingressou com bolsa integral pelo ProUni (Programa Universidade para Todos).

“Se eu não tivesse conseguido a bolsa, não teria outra alternativa a não ser trabalhar, fazer um curso que me garanta uma profissão que talvez eu não queira, e sem fazer faculdade porque não tem condições de pagar”, conta Alice, que escolheu Psicologia para ajudar as pessoas.

A bolsa é uma conquista, mas Alice quer mais. “Eu quero entrar na universidade pública. Se eu posso mais, eu consigo. Então, tenho que ter o melhor para oferecer o melhor”, diz.

Bolsa em faculdade particular, luta para conseguir uma vaga na pública… Nos idos de 2005, quando eu entrei na universidade, não existia ProUni – e a USP era sonho inalcançável para qualquer filho de trabalhador e trabalhadora, da primeira geração da família a ingressar no ensino superior.

Mas Alice representa a mudança no perfil da juventude periférica em busca de seu direito à educação. E pavimenta seu caminho no cursinho pré-vestibular Santo Dias, que frequentou no ano passado para conseguir a bolsa do ProUni e voltou a se matricular.

“No cursinho, você cria uma nova visão de mundo, pois quem mora aqui muitas vezes não tem o objetivo de fazer faculdade, se formar, fazer uma pós, um mestrado ou doutorado. Muitas vezes nem pensa em fazer porque parece algo distante da nossa realidade”, diz.

Não é de agora que entidades como Educafro, Uneafro e o Núcleo de Consciência Negra da USP vêm promovendo o acesso da população preta, pobre e periférica à academia.

Toda a luta resultou em políticas públicas que ampliam o exercício desse direito. Em 12 anos, o ProUni garantiu a entrada de mais de 2 milhões de estudantes de baixa renda a instituições privadas, enquanto a lei de Cotas para negros, indígenas e alunos da rede pública permitiram o acesso de mais de 150 mil pessoas em universidades federais entre 2012 e 2015.

Por isso, a cada ano mais iniciativas populares de preparação para o vestibular surgem nas quebradas, como é o caso da Rede Emancipa (em diversas regiões), do Projeto Raiz (na Cidade Dutra) ou do próprio Santo Dias (no Jardim Ângela).


O cursinho Santo Dias homenageia o líder operário da região assassinado durante um piquete por um policial em plena ditadura militar. Gratuito e originário nas lutas populares, a iniciativa se pauta em questões importantes do cotidiano da juventude. Muitos dos estudantes participaram das ocupações nas escolas estaduais, no final de 2015.

O genocídio também é pauta frequente nas aulas e nos encontros mensais de cidadania, até porque o curso nasce de um dos principais pontos de resistência à violência e violações de direitos da região: a Sociedade Santos Mártires, fundada nos anos 90 pelo padre irlandês Jaime Crowe, quando o Jardim Ângela foi líder na taxa de homicídios da cidade de São Paulo.

Com as primeiras turmas criadas em 2014 no Ângela e no Jacira, em três anos foram abertas 450 vagas a adolescentes no terceiro ano do Ensino Médio ou egressos da escola há até dois anos.

Dos 70 inscritos que concluíram o cursinho em 2015, pelo menos 34 foram aprovados no vestibular de universidades públicas como USP, Unesp, Unicampo, Unifesp, UFMG, entre outras. O número pode ser maior, já que nem todos comunicam os educadores.

“Ainda assim, nosso maior desafio continua sendo derrubar a barreira do vestibular, que é elitista, excludente, que deixa a gente de fora, os pretos e pobres da periferia. Enquanto isso não acontece, a gente tem o desafio de trabalhar a conscientização dos alunos de escolas públicas, que muitas vezes não veem o cursinho como uma possibilidade e uma necessidade”, explica Rafael Cícero da Silva, coordenador do Santo Dias.

Tá fazendo efeito: em 2016, mais de 400 pessoas se inscreveram, o que evidencia a demanda pelo ensino superior gratuito e de qualidade.

Outra iniciativa que nasce da necessidade do povo é o cursinho popular do Círculo Palmarino, organização de luta contra o racismo localizada em Embu Guaçu (SP). Em 2015, dez pessoas participaram de um intensivão de Português e Matemática três meses antes da prova. E 2016, o cursinho terá duração maior (começa em abril) e abrange outras disciplinas. As aulas acontecerão aos sábados, das 08h às 15h, e tem 40 vagas.

As discussões são pautadas pela ótica antirracista e anticapitalista. “Nas aulas de redação e de interpretação de texto, por exemplo, foram trazidos temas como a redução da maioridade penal e muitas análises foram feitas em textos de literatura marginal, até porque estes dialogam com a realidade dos frequentadores do cursinho, um público de maioria negra e jovem”, explica Camila Trindade, jornalista que criou o cursinho no ano passado com a estudante de Matemática Luana Cristina, ambas militantes da organização.

“A principal motivação, entretanto, foi sermos oriundas de escola pública, mulheres e negras que alcançamos a academia por intermédio do Enem. Sabemos que o exame é, pro nosso povo, a principal porta de entrada à universidade”, ressalta Camila, que cursou Jornalismo na Universidade de Santo Amaro (Unisa) com bolsa integral via ProUni e, depois, fez História na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) pelo Sisu. Luana faz Matemática pelo Instituto Federal de São Paulo, onde ingressou pelo Enem.

“Como somos fruto da escola pública, em grande parte sob a gestão do PSDB, sabemos das dificuldades, das defasagens, de todo o discurso que norteia o ensino público em São Paulo. Vemos no cursinho essa possibilidade real de revide, sabe?”, completa Camila.

O revide está lançado. E aos poucos, com um empurrão dos cursinhos, a universidade vai se pintando de povo.

[box type=”custom” bg=”#ddcb90″]Ainda há vagas!

A Rede Emancipa oferece centenas de vagas gratuitas em diferentes regiões de São Paulo (Capão Redondo, Grajaú, Butantã, Ipiranga e Itapevi). As inscrições acontecem até esta semana no site do movimento.

O cursinho da FEA-USP, fundado por estudantes, recebe inscrições até o fim de março pelo site. Não tem mensalidade, mas há taxa de inscrição e matrícula.

O Círculo Palmarino também tem 40 vagas abertas em Embu Guaçu. Taxa mensal de R$ 20 para manutenção do espaço. Clique aqui para se inscrever durante o mês de março.[/box]