Circo Escola Grajaú funcionará só em outubro

Hoje não tem goiabada, não tem marmelada e muito menos aula no Circo Escola Grajaú. Com as portas fechadas desde abril de 2013, o espaço que abriga o principal e mais antigo projeto de cultura, esporte e lazer da região está tomado por mato alto e entulho. A lona está rasgada, parte da cerca está caindo e não há equipamentos para as atividades.

O local deve passar por uma ampla reforma, que inclui a substituição das salas socioeducativas de madeira por construções de alvenaria, além de uma cozinha e o conserto da tenda. Responsável pelo projeto, a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS) da Prefeitura de São Paulo liberou R$ 1,5 milhão para a obra.

Porém, no cenário mais otimista, o espaço será devolvido à população somente em outubro deste ano, segundo o Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente (Cedeca) Interlagos, que venceu o edital para administrar o projeto.

Fundado há mais de 20 anos, o Circo Escola Grajaú chegou a atender mais de 1.300 crianças e adolescentes entre seis e 17 anos por mês em turmas de artes circenses, dança, teatro, futebol, capoeira, entre outras atividades.

“A criança tinha aonde se ocupar e, muitas vezes, até se empolgava em futuramente ser aquilo que estava fazendo”, observa o vendedor Eduardo Rodrigues, de 29 anos, cuja filha Gabrielli, 10, foi aluna de artes no projeto. “Era metade de uma porta que se abria”.

Essas portas se abriram para Jéssica dos Santos Alves, 26, que foi aluna de dança no Circo Escola entre 1993 e 2003. “Foi a melhor fase da minha vida”, diz ela, que há quatro anos é professora de dança no CEU Parelheiros. “Já fiz cursos com pessoas renomadas da área, mas a experiência profissional que carrego vem do Circo Escola”.

Jéssica é uma das pupilas da professora de educação física Tatiana Renata, 37, que trabalhou no Circo Escola durante 14 anos. “É muito importante para a região. Dos meus alunos, alguns hoje são professores, outros estão na universidade”, conta a educadora, que deixou o projeto em 2010 por irregularidades trabalhistas.

Além de não recolher o INSS e o FGTS, a União dos Moradores da Comunidade Sete de Setembro – antiga administradora do Circo Escola e de algumas creches municipais – parou de pagar o salário de Tatiana e outros funcionários.

Aos poucos, o espaço tornou-se apenas um ponto de referência para quem atravessa a avenida Dona Belmira Marin. “Chegou o dia em que meu filho falou que lá não havia nem bola para jogar futebol”, lembra a empregada doméstica Auricelina Rodrigues, mãe do ex-aluno Gabriel, de 9 anos.

Sob nova direção

Impedida por lei de repassar verbas públicas à antiga conveniada devido aos débitos com Previdência Social e FGTS, no ano passado a SMADS reincidiu o contrato com a União dos Moradores da Comunidade Sete de Setembro e abriu um novo edital de convênio em caráter de urgência no mês de setembro.

O Cedeca Interlagos, que atua na região, venceu o edital e deve receber em torno de R$ 120 mil para atender até 600 crianças e adolescente de 6 a 12 anos por mês. Mesmo com a verba mensal de apenas R$ 200 por aluno, os planos são ambiciosos. A entidade prevê oficinas em cinco áreas temáticas: artes, corpo e movimento, teatro, cultura popular e arte circense, teatro e comunicação.

“Nós queremos fazer do Circo Escola um polo irradiador de iniciativas de atividades e de visibilidade de nossas crianças e adolescentes, que possuem um potencial gigantesco e que não podem, permanentemente, se verem violados pela inoperância do poder público”, garante Tuto Wherle, secretário geral do Cedeca Interlagos.

Entretanto, a entidade se recusou a ocupar o espaço nas condições encontradas e solicitou melhorias. “Nós tentamos várias vezes contato com o gabinete para verificar o que já foi feito ou não. Visivelmente houve muita pouca coisa, porque a situação do Circo Escola continua absolutamente inalterada”, diz Wherle.

A obra está atrasada, no mínimo, há cinco meses. Em novembro do ano passado, a SMADS informou ao Periferia em Movimento que a reforma começaria em janeiro de 2014. Três meses depois, após novo contato da reportagem, a secretaria deu uma nova data: a readequação do espaço começaria nos 30 dias seguintes.

Na última segunda-feira (05/05), representantes do Cedeca se reuniram na SMADS para cobrar providências. Mais uma vez adiado, o prazo agora é o fim de maio, com 90 dias para conclusão. Consultada pela reportagem, a secretaria não retornou a solicitação do Periferia em Movimento. A população do Grajaú continua à espera.

“Agora, eu tenho um filho pequeno e com certeza irei matriculá-lo”, diz Jéssica. “A comunidade precisa muito que o Circo Escola volte a funcionar”.