Texto e fotos por Fernanda Souza*

Orientação de reportagem: Gisele Brito. Edição: Thiago Borges

O sábado passado (14/8) estava quase anoitecendo quando um pequeno grupo de pessoas iniciou uma manifestação no calçadão de Osasco, em frente à estação de trem da CPTM. Eram 17h quando mães, parentes, amigues e ativistas de movimentos sociais, na companhia de repórteres, relembravam os 6 anos da chacina que aconteceu na cidade e na vizinha Barueri (ambas, na região metropolitana de São Paulo). 

Este conteúdo aplica linguagem neutra e impessoal. Saiba mais aqui!

Nas falas, faixas e cartazes, o pedido por justiça, memória e verdade que marca esse período de luto e de luta. “Eles chegaram lá e atiraram em todo mundo, não tem justificativa para matar as pessoas assim”, aponta Zilda Maria de Paula, mãe de Fernando Luis de Paula, uma das vítimas do massacre. 

No dia 13 de agosto de 2015, em uma ação brutal indivíduos encapuzados executaram 22 pessoas e deixaram 7 feridas em diferentes bairros periféricos dos 2 municípios. Na época, um vídeo causou grande comoção: a câmera de segurança flagrou criminosos matando clientes do bar do Juvenal, na rua Antônio Benedito de Ferreira (bairro do Munhoz Junior).

Na semana anterior àquela, outras 6 mortes aconteceram em Carapicuíba, outro município próximo. A ação foi intitulada pela imprensa e por ativistas como “pré-chacina”, por conta das semelhanças com o evento de 13 de agosto.

A suspeita é de que 3 policiais militares e um guarda civil municipal de Barueri se envolveram na chacina. Nas falas de presentes, a indignação e o pedido de justiça diante da vitória do PM Victor Cristilder Silva Santos e do guarda Sérgio Manhanhã, suspeitos no caso que em fevereiro deste ano conseguiram a anulação de suas sentenças em recurso apresentado ao Tribunal de Justiça.

Dona Zilda, mãe de uma das vítimas (Foto: Fernanda Souza / Periferia em Movimento)

“Agora, eles estão acusando as mães. Nossa vida é um livro aberto, não temos envolvimento com nada, só queremos a verdade’’, aponta Zilda. Segundo ela, a defesa dos réus utilizou como argumento a relação das mães com movimentos sociais e jornalistas para alegar “conteúdo político” na acusação.  

“Estão nos chamando de criminosas. Não somos. Usaram um vídeo em que uma promotora acusa as Mães de Maio [de relação com] o PCC. Aquelas mães que como eu lutam pela vida de seus filhos”, ressalta Zild​a, em referência ao vídeo em que Ana Maria Frigério Molinari mente ao relacionar integrantes do outro movimento com o crime organizado.

Desde 2006, as Mães de Maio defendem a investigação e julgamento no caso conhecido como “Crimes de Maio”. Naquele ano, ataques do PCC mataram 59 agentes do poder públic, a maioria policiais militares. Em retaliação, entre os dias 12 e 26 de maio de 2006, policiais dentro ou fora do horário de trabalho mataram ao menos 505 pessoas – a maioria jovens pobres, de pele negra e sem ficha policial, em periferias da região metropolitana de São Paulo e na Baixada Santista.

Direito à memória

Familiares também defenderam a memória das vítimas, que está relacionada não apenas na defesa da alegação de que tinham envolvimento com o crime como também na manutenção de uma lembrança digna. 

Aparecida Gomes, mãe de Leandro Pereira, afirma que queria ter paz e não suporta ter de defender a honra de seu filho mesmo ele não estando vivo. O rapaz tinha ido ao bar naquela noite tomar uma cerveja para relaxar. Segundo ela, só sobraram lembranças dele em casa, reunindo a família e cozinhando.  

‘’Eu desacredito de todos os policiais. No meu coração, eu generalizei todos pois pra mim qualquer homem atrás de uma farda pode cometer atos como esse, fazendo o que bem entende’’, continua Aparecida.

Durante a manifestação, não houve policiamento ou qualquer tumulto que pudesse atrapalhar o objetivo do grupo. O clima foi de conscientização e muita luta. Rolaram algumas falas de representantes de coletivos políticos, bem como de pessoas que também já foram vítimas do estado. Além disso, panfletagem de zines e livros de teor político, sobretudo sobre encarceramento, violência policial e necropolítica.

O ato terminou às 18h em ponto.

*Fernanda Souza é participante do “Repórter da Quebrada – Uma morada jornalística de experimentações”, programa de residência em jornalismo da quebrada realizado pela Periferia em Movimento por meio da política pública Fomento à Cultura da Periferia de São Paulo

Deixe um comentário

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

ALERTA! Coronavírus e as quebradas

Confira nossa cobertura

Apoie nossa cobertura jornalística

Ajude-nos no Catarse Doe
Receba notícias no WhatsApp Notícias no WhatsApp
%d blogueiros gostam disto: