CCJ forma jovens para o trabalho cultural na periferia

Por Vilma Cristina Balint

Fotos: Divulgação

Presença certa nos guias culturais por receber shows de artistas como Manu Chao e Marcelo Jeneci, o Centro Cultural da Juventude (CCJ) foi responsável por mobilizar um público de milhares de pessoas à Vila Nova Cachoeirinha, distrito da zona Norte da cidade com cerca de 150 mil habitantes. Além da organização destes eventos de grande porte, o CCJ realiza um trabalho com foco no atendimento aos jovens da região, com a organização de oficinas culturais e equipamentos como biblioteca, anfiteatro, laboratório de idiomas e um estúdio gratuito para gravações musicais, com ilhas de edição de vídeo e de áudio.

Inaugurado em 2006, o local é considerado hoje o único centro de referência de Cultura e Juventude na cidade de São Paulo. Com 8 mil metros quadrados, o centro é gerido por Administração Direta, ou seja, composta por órgãos públicos ligados diretamente ao poder municipal. No caso do CCJ, a vinculação é ao Departamento da Secretaria Municipal de Cultura da Prefeitura de São Paulo. O espaço oferece ainda um fórum permanente para participação de diversos grupos, como entidades e coletivos, além de frequentadores e moradores da região interessados em integrar a gestão participativa do local.

Alexandre Piero, diretor geral do CCJ, afirma que o trabalho desenvolvido no local valoriza e potencializa a produção simbólica local, como a produção de conhecimentos e formas de expressão que já acontecem nas periferias, ao promover novas perspectivas de inserção. “Neste local, os jovens podem experimentar a promoção da autonomia e a garantia de direitos ao tempo livre, ao lazer, à economia criativa e novas formas de geração de renda e novas possibilidades no campo de atuação profissional. Além disso, eles também usufruem o direito à cidade, à circulação, ao circuito e o acesso a programações das mais variadas linguagens e estilos”. Dessa maneira, o equipamento público cumpre, de fato, sua função social.

Piero avalia que o impacto das atividades do CCJ muitas vezes é implícito e não chega a ser mensurável. No entanto, é possível observar que o trabalho desenvolvido no local faz diferença na vida de jovens da região e da cidade como um todo. “Partimos do princípio do direito à experimentação, o que significa experimentar diversas dimensões da vivência da condição juvenil, inclusive a de ser ‘empoderado’ e ‘ser visto’ positivamente naquilo que a juventude como um todo e cada um produz e expressa”, diz Piero, ressaltando a perspectiva de Paulo Freire, segundo a qual ninguém aprende sozinho; e de que o oprimido pode e deve ser o sujeito de sua própria libertação e emancipação.

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Jovens Monitores

Essa filosofia é refletida no atendimento aos frequentadores do CCJ, que é realizado por Jovens Monitores. Eles integram um programa da prefeitura de São Paulo voltado à formação de jovens que tem o objetivo fazê-los irem além de suas formações profissionais a partir da interação entre comunidade e equipamentos da Secretaria Municipal de Cultura. Os jovens recebem bolsa-auxílio de R$ 1 mil para um programa teórico e prático de 30 horas semanais. O período mínimo é de nove meses, e o máximo é de dois anos.

O jornalista Leandro Noronha da Fonseca é um dos jovens monitores do CCJ. Morador do Jaçanã, Fonseca integra o grupo desde novembro, e desde então realiza um trabalho com foco em três principais eixos, a exemplo dos demais integrantes do programa. Um desses eixos é voltado ao atendimento e diz respeito aos serviços oferecidos ao público cotidianamente, como a recepção, biblioteca, laboratório de pesquisa e internet livre. Outro eixo de trabalho é o educativo, com o desenvolvimento de atividades de arte-educação com crianças, adolescentes e jovens frequentadores – mas com foco principal em crianças, inclusive em vulnerabilidade social. Um terceiro eixo é voltado à produção de eventos. “Ajudo a organizar os shows, as peças de teatro, mediando o artista e o espaço, possibilitando que a atividade aconteça de forma bacana”, diz Fonseca.

Além dos eixos principais, os monitores também têm atividades práticas relacionadas a comunicação, como a produção de conteúdo para redes sociais do CCJ e para o site, divulgação externa, fotografia e filmagem das atividades. Há trabalho ainda para a área administrativa, na elaboração de contratos e outras necessidades da área específica. As atividades práticas têm o reforço de formação teórica, com o estudo de assuntos diversos relacionados a cultura, como cultura de massa, cultura de periferia, juventude e direitos, gestão e produção cultural e comunicação, entre outros assuntos. “Isso tudo acontece por meio de uma escala participativa onde eu escolho em qual eixo melhor me encaixo e também de acordo com as demandas do espaço e dos próprios gestores”, explica Fonseca.

No centro da Vila Nova Cachoeirinha, este trabalho é realizado por 30 jovens monitores, separados em trios responsáveis por diversas atividades, como a programação de determinados meses, sempre em linha com o orçamento disponível e com o aval dos gestores responsáveis. Fonseca integrou o grupo que elaboro parte da programação de maio deste ano, em linha com estes critérios.

A atividade desenvolvida pelo grupo foi voltada à temática LGBT, com a organização da 7ª edição do Drag Contest, único concurso para drag queens realizado por um equipamento público. Além de um valor em dinheiro, as vencedoras recebem coroas e faixas, além do convite para apresentação nas melhores boates de São Paulo.

Para participar do concurso, as candidatas precisavam participar de oficinas preparatórias, como a promovida com Márcia Pantera, que garante ter sido a primeira drag queen do país. “O concurso é uma porta de entrada para as pessoas que querem participar da arte drag, que querem se profissionalizar ou até mesmo para simples hobby”, conta o jovem monitor. “O mais interessante é que o evento tem participação de pessoas de outras regiões, mas com uma forte participação de moradores da região, que é periférica”, diz Fonseca.

Desta maneira, moradores de periferia LGBTs têm a chance de conquistar visibilidade com sua arte. Ainda em relação à temática LGBT, a realização da Parada Gay em maio (antecipada por conta da Copa do Mundo) motivou uma série de oficinas literárias voltadas ao assunto, a realização de duas peças teatrais (“Não conte a ninguém”, da Cia. Artera de Teatro”, e “Castelo do Vampiro”, do Coletivo Literatura Travessa) que abordam a questão da transexualidade. “Por fim, houve o show da MC Mademoiselle Lulu Monamour, a primeira rapper travesti do Brasil, de Goiânia”, conta Fonseca.

Com a realização deste e outros eventos, o CCJ tem reforçado a sua atuação com a comunidade local, em contrapartida aos grandes shows realizados por artistas, muitas vezes, desconhecidos nas imediações do centro. “Hoje, sinto que há uma maior participação da comunidade ali, principalmente dos jovens”, diz Fonseca.

Um dos locais mais procurados no centro é o estúdio musical – ou Estúdio Lab C -, que pode ser utilizado de maneira gratuita. Diversos trabalhos já foram gravados no local, como o álbum “Escuta Rap vol. 1”, lançado pelo selo CJ, do Laboratório de Multimeios do CCJ. Dedicado ao gênero que mais faz sucesso na região, o trabalho reúne 19 grupos de rap que se apresentaram no local para lançamento. Outros estilos musicais também tiveram espaço no Lab C, como a “Coletânea Só Mulheres”, composta por grupos musicais composto por mulheres. O CCJ também já recebeu artistas que conseguiram visibilidade em outros meios, como o rapper Emicida, morador da Zona Norte e que já realizou diversos shows no local.

Para seguir promovendo artistas em início de carreira, o CCJ também conta com outras iniciativas. A capa da programação mensal impressa, por exemplo, conta com o trabalho de jovens grafiteiros. O local conta ainda com um edital de ocupação, no qual são selecionados 10 projetos para que cada um dos grupos e artistas ocupem o espaço e desenvolvam seus trabalhos no local.

Para Fonseca, o trabalho desenvolvido no CCJ ao longo deste período tem sido gratificante, principalmente pela oportunidade do trabalho com práticas culturais sob remuneração – algo raro ao mercado de trabalho em geral. Para ele, o trabalho voltado ao público exige o dobro de responsabilidade, principalmente porque, em seu ponto de vista, o CCJ é um “lugar de direitos”.

“As pessoas usam o espaço porque é o direito delas ocuparem, e têm que ocupar mesmo. As pessoas têm todo o direito de irem lá pra usar a internet gratuita, de terem um livro para estudar, poder pegar um livro e levar para casa, assistir um show, a uma peça de qualidade. Por isso, temos que fazer com que as coisas aconteçam da melhor maneira possível”, conclui o jovem monitor.

 

Anotaí!

Centro Cultural da Juventude Ruth Cardoso

Onde? Av. Dep. Emílio Carlos, 3641 (Atrás do Terminal Cachoeirinha)

Quando? de terça a sábado, das 10h às 22h; domingos e feriados, das 10h às 18h.

Mais informações: http://ccjuve.prefeitura.sp.gov.br/

 

Essa reportagem foi produzida durante o curso de extensão universitária “Jornalismo de Quebrada”, realizado pelo Periferia em Movimento na Universidade Cruzeiro do Sul