Por Thiago Borges. Fotos: Divulgação / Will Rodrigues

Em toda a história da Câmara Municipal de São Paulo, apenas 2 mulheres negras foram eleitas vereadoras: Teodosina Rosário Ribeiro, em 1968; e Claudete Alves da Silva Souza, em 2003. Nas últimas eleições municipais, em 2016, todas as capitais brasileiras elegeram 811 vereadores. Desse total, apenas 32 eram mulheres negras. Uma delas, representante da cidade do Rio de Janeiro, foi assassinada em 14 de março de 2018: Marielle Franco. Diante desse silenciamento, candidatas negras (pretas e pardas) se lançaram à disputa deste ano.

“Essa é uma luta que nunca mais será interrompida: ocuparemos com nossos corpos, nossas vozes e nossas experiências os espaços de poder que nos são negados”, aponta Keit Lima, mulher preta e gorda de 29 anos que adota o mesmo número que elegeu Marielle no Rio. Keit é candidata pelo PSOL a uma das 55 cadeiras do legislativo paulistano no próximo domingo (15/11). “Não dá pra gritar que é antirracista e não votar em mulheres negras, porque ser antirracista é ir pra ação”, completa.

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O desafio é grande. De acordo com o Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o número de mulheres negras disputando um cargo de vereadora na capital paulista subiu de 132 em 2016 para 250 em 2020. Ainda assim, equivalem a 12,5% do total de candidaturas na cidade: são 2 mil ao todo, sendo que 655 são do gênero feminino – mulheres indígenas somam 5 candidaturas.

E o acesso a recursos é desigual. Enquanto o vereador Milton Leite (DEM), que concorre ao 7º mandato, recebeu R$ 2,2 milhões de verba para campanha até o último dia 23 de outubro, as 3 mulheres negras e periféricas entrevistadas pela Periferia em Movimento acessaram quantias muito menores:

  • Keit Lima recebeu R$ 9,9 mil do fundo de campanhas e R$ 34,3 mil de doações privadas;
  • Aline Torres (MDB) recebeu R$ 50 mil do fundo partidário e R$ 16,6 mil de doadores privados;
  • e Neudes Oliveira (PDT), que compõe a candidatura coletiva Somxs Múltiplxs, recebeu apenas R$ 3,6 mil do fundo de campanhas.

Confira a seguir o que essas candidatas propõem para a cidade.

Nossa realidade precisa das nossas soluções”

Merenda aos finais de semana, creche noturna, absorventes gratuitos, independência financeira para mulheres vítimas de violência, políticas anti-gordofobia… Keit Lima, de 29 anos, defende uma ampla gama de propostas. Seu lema é que a periferia, as mulheres e a negritude devem estar no centro dos debates sobre políticas públicas.

“Esse é o caminho para uma sociedade com menos desigualdades e na qual haja educação e saúde de qualidade, comida no prato para todo mundo, transporte público acessível, habitação segura, empregos, segurança e bem-viver”, diz ela.

Moradora da Brasilândia (Zona Norte de São Paulo), ela milita desde os 13 anos de idade, quando era voluntária na escola pública em que estudava. Incentivada pelos pais, ingressou aos 17 no curso de Administração da Faculdade Zumbi dos Palmares e coordenou a escola de líderes da Educafro, uma ONG que luta pela inclusão de negros e pobres no ensino superior. Trabalhou na Secretaria Municipal de Direitos Humanos e no gabinete da Mandata Ativista, na Assembleia Legislativa de São Paulo.

Em um possível mandato como vereadora, Keit promete formular políticas “de baixo pra cima”. “É preciso que pessoas periféricas que conhecem o impacto da falta de recurso, da desigualdade e da opressão na pele ocupem a política, pois a gente conhece também a potência das periferias quando estão apoiadas e representadas por lideranças fortes que lutam e trabalham por elas”, completa.

A gente precisa fazer uma escolha não pelo coração, mas pragmática”

Criada em Pirituba (zona Noroeste de São Paulo), Aline Torres, 35, tem a infraestrutura nas periferias como uma de suas principais bandeiras. Isso vai desde a indenização às vítimas das enchentes, que ela cansou de vivenciar, até dar um endereço formal a quem vive em becos e vielas, por exemplo. “A pessoa não tem dignidade de comprar um produto, de receber correspondência, colocar o lixo na porta de casa ou receber um serviço de saúde na sua porta [sem endereço]”, nota ela.

Outro eixo que norteia a candidatura de Aline é o investimento na cultura para fortalecer a juventude periférica. “Você empreende, dá emprego, educação e saúde. Uma das propostas é levar e mesclar cultura e empreendedorismo, fazer cursos técnicos dentro da cadeia da cultura”, diz ela, que entre 2017 e 2018 foi coordenadora do Centro Cultural da Juventude Ruth Cardoso, na Vila Nova Cachoeirinha.

Aline Torres está na vida partidária há mais de 10 anos. Ingressou no PSDB e ocupou a executiva nacional do partido até migrar para o MDB no início deste ano. Ela se candidatou a um cargo legislativo pela primeira vez em 2018, quando concorreu à Câmara dos Deputados e obteve pouco mais de 13 mil votos, mas não foi eleita. Ela acredita que sua carreira institucional pode ser um diferencial num possível mandato.

“Eu saí do PSDB estando no Conselho de Ética, ia pra Brasília participar de reuniões para resolver questões de governador de outro estado. Aprendi como se joga o xadrez, e é esse o detalhe pra aprender pra escolher vereador”, garante. “Este ano, a gente precisa fazer uma escolha não pelo coração e votar no amigo, mas uma escolha pragmática, entender que precisamos ter uma mulher negra na Câmara que vá conseguir fazer muito mais que militância”, completa.

Nossa proposta é legislar com os territórios”

Trabalhadora da educação e produtora cultural da Zona Sul, a atuação política de Valeria Motta foi construída de forma coletiva nos territórios periféricos. E é a partir dessa experiência que ela busca ocupar uma vaga de vereadora na cidade de São Paulo por meio da candidatura coletiva Somxs Múltiplxs, lançada pelo PDT.

Além de Valeria, a chapa é composta pela articuladora e arte-educadora Isabela Almeida (moradora de Cidade Ademar); pela artista plástica e grafiteira Regina Elias (Moradora do Jardim Peri, na Zona Norte); e pela administradora Neudes Carvalho (moradora da Cohab Cachoeirinha, na Zona Norte), que empresta o CPF para o registro oficial e aparecerá com o nome na urna eletrônica.

Uma das principais pautas do grupo é o saneamento básico, partindo do Plano Municipal das Águas. “Nasci num lugar que tem até hoje esgoto a céu aberto. E onde moro, no Jabaquara, o córrego continua passando próximo a nossas casas. Nós não somos beneficiados pelo dinheiro que pagamos nossos impostos”, aponta Valeria.

Outros pontos levantados são potencializar iniciativas de cultura e fortalecer trabalhadores autônomos, como vendedoras de alimentos e feirantes, para movimentar a economia nas quebradas; integrar as chamadas “mães crecheiras”, estudantes, educadores e ativistas culturais para criar um projeto de lei que una educação, cultura e saúde para uma política efetiva de educação integral; criar projetos efetivos de educação agroecológica e de permacultura nas escolas; e desenvolver processos de aprendizagem sobre questões da violência contra a mulher e das pessoas LGBT+, entre outras propostas.

A co-candidata defende que cada periferia tenha um comitê popular para sistematizar ideias, propor e fiscalizar políticas públicas. “A periferia é a cidade, faz parte da cidade, impulsiona a cidade. Se não tiver olhar comprometido para territórios, não vai haver mudança”, conclui Valeria.

PESQUISA REVELA | 78% das candidatas negras a cargos eletivos em 2020 sofreram algum tipo de violência na internet, segundo a pesquisa Violência Política Contra Mulheres Negras realizada pelo Instituto Marielle Franco com 142 mulheres negras de 93 municípios em 21 estados brasileiros. Elas, que compõem 16 partidos políticos e estão comprometidas com a agenda política da organização, relataram ter sofrido desde xingamentos racistas até ataques sincronizados em transmissões ao vivo.

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