Reportagem de Julia Vitoria, especial para Periferia em Movimento. Edição por Thiago Borges

Logo cedo, o barulho de escapamento das motos acordou a cidade de São Paulo. Diferente de outros dias, em que bikers e principalmente motocas carregam a metrópole literalmente nas costas sem chamar a atenção, o bololo desta quarta-feira (01/07) chamou no grau pra reivindicar direitos junto aos aplicativos que fazem a mediação do trabalho – Ifood, Rappi, Uber Eats, Loggi e outros.

Assista:

Em cima da ponte Estaiada, símbolo maior dessa cidade feita pra ganhar dinheiro, conhecemos pessoas como a Aline, de 34 anos, que há 2 faz entregas por falta de opção. Ela fala das dificuldades em ser mulher e entregadora, o que dificulta por exemplo trampar à noite.

Lá também estava a Aline Ós, de 44, que faz parte da Señoritas Courier, um coletivo de mulheres e pessoas LGBTQ que faz entregas; o Roberto Magalhães, de 39, trabalhou com aplicativo delivery desde a chegada da Rappi ao Brasil, mas hoje está livre da intermediação; e o Renato, de 27, perdeu o trampo de professor de geografia e está nas ruas há 1 mês.

Vai passando pro lado pra conferir os relatos:

A reportagem da Periferia em Movimento colou em diferentes pontos pra acompanhar a movimentação:

  • pela manhã, em frente ao Shopping Morumbi, na zona Sul, um dos pontos de encontro;
  • logo depois, na avenida Paulista, em frente ao Shopping Center 3; descemos a rua da Consolação rumo ao centro;
  • e na hora do almoço, subimos de volta para o MASP , onde os entregadores se concentraram e saíram em marcha pela avenida Rebouças, Marginal Pinheiros até tomar a Ponte Estaiada, novamente na região do Morumbi.
Felipe* não quis se identificar (foto: Julia Vitoria)

No primeiro ponto, encontramos o Felipe*, que teve a identidade preservada. Ele tem 27 anos, é casado, mora em Embu das Artes (SP) e trampa com entrega há 3 anos. Nessa quarta, ele brecou. “Antes da pandemia, a taxa já tava baixa. Aí aproveitaram a situação da pandemia e baixaram pra todo mundo”, diz ele. “Pra ser sincero, nois sempre fica por baixo, entendeu?”

Na esquina da Paulista com a rua Augusta, conhecemos o Ricardo Nascimento da Cunha. Ele tem 40 anos e mora no Jabaquara (zona Sul) com a mulher e 2 filhas. Começou entregando pizza aos 16 e tá há mais de 20 anos como motofretista. “Vi a profissão crescer, se desenvolver. Vi muita gente falar que representa a gente e não fazer nada pela gente”, conta Ricardo, que fez cursos de especialização para fazer seu trabalho com segurança e vê uma “desregulamentação” da área que coloca todos em risco.

Ricardo (foto: Julia Vitoria)

“Todas as profissões estão ameaçadas. Se entrar um aplicativo, já era. Eles te dão um trampo ilusório. Depois tira o trampo. E se você for reclamar, fica com marginal, vagabundo e eles tiram seu serviço”, diz Ricardo, que há 6 anos, trabalha com aplicativos como a Loggi.

Por lá também estava o o motoboy Djalma Gonçalves, 41, que trampa há 3 anos nessa área desde que ficou desempregado. Hoje, ele faz entrega para 3 aplicativos (Ifood, Rappi e Uber Eats). “ Pra fazer R$ 150 no aplicativo, tem que trabalhar 12 horas sem parar, nem tempo pra comer. E quando você para pra comer, se brincar ganha menos por ter parado pra almoçar. Tem que se matar sem parar. Dificilmente eu paro pra comer. Quando almoço, já tô jantando”, conta.

Djalma (foto: Julia Vitoria)

Pra dificultar ainda mais, a Rappi lançou um sistema de pontuação que “regula” quem pode trabalhar ou não. “Você é obrigado a trabalhar de segunda a domingo. E a pontuação que faz no sábado e domingo é pra conseguir trabalhar na semana, senão não consegue. Pra trabalhar na avenida Paulista, tem que ter 60 mil pontos. E pra atingir essa pontuação, tem que trabalhar sábado e domingo. Você não tem tempo pra família, pra nada”, observa Djalma, que mora na zona Sul de São Paulo. Ele conta ainda que a empresa não repassa mais as gorjetas de clientes desde o início da pandemia.

José (foto: Julia Vitoria)

Descendo a Consolação, trombamos José Roberto Gutierrez Júnior, de 45 anos, que há 1 ano e meio pedala todos os dias para fazer mais de 20 entregas. Mas não é do cansaço que ele reclama, principalmente. “São várias humilhações. Você vai pegar um pedido no restaurante e tem várias necessidades, mas ninguém quer saber. É sempre um sofrimento, uma humilhação”, reclama José, que mal consegue utilizar um banheiro. “To aqui pra valorizar os motoqueiros e entregadores, porque ele tá fazendo um serviço, não tá de favor. Todo mundo depende de todo mundo”, completa.

Por que brecar?

As reivindicações dos trabalhadores são as seguintes:

  • Aumento do valor por quilômetro rodado e valor mínimo de entrega
  • Fim dos bloqueios nos apps quando um entregador se nega a fazer uma corrida
  • Fim do sistema de pontuação e restrição de área de trabalho
  • Por seguro de vida, contra roubo e acidente
  • E medidas de prevenção contra pandemia, com equipamentos de proteção

Em outra reportagem (clique para ler), a Periferia em Movimento citou uma pesquisa de 2019 feita pela Associação Brasileira do Setor de Bicicletas (Aliança Bike) apenas com bike-entregadores. Essa pesquisa revela que em geral eles são homens, geralmente moradores na periferia e jovens (50% tem menos de 22 anos). A maioria é de negros (71%), com ensino médio completo (53%) e renda média de R$ 936 por mês – menos de 1 salário mínimo (R$ 1.045).

Já a pesquisa feita pela Rede de Estudos e Monitoramento da Reforma Trabalhista (Remir Trabalho) da Universidade de Campinas (Unicamp) com motocas e bikers de 26 cidades e divulgada em abril conta que 7 a cada 10 entregadores tiveram queda na renda durante a pandemia; e62% trabalham mais de 9 horas por dia.

Conteúdo produzido com apoio do Fundo de Apoio Emergencial COVID-19, do Fundo Brasil de Direitos Humanos

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