Por Thiago Borges

No mês de janeiro que acabou de terminar, Elaine de Jesus passou muitas noites em claro – mas não foi por causa do calor de verão que ela não conseguiu dormir. O que tem afastado o sono da confeiteira de 35 anos é o fim do auxílio emergencial.

“Pago aluguel e não tenho de onde tirar dinheiro, pois minha venda tá muito fraca”, diz ela, que faz bolos por encomenda pra bancar sozinha uma casa no Grajaú (Extremo Sul de São Paulo), onde vive com as filhas de 13, 9 e 2 anos.

Elaine, confeiteira de 35 anos: as vendas fracas dificultam pagar as contas (foto: arquivo pessoal)

Assim como Elaine, cerca de 68 milhões de trabalhadores autônomos, informais e desempregados também iniciaram 2021 com essa incerteza. Aprovado pelo Congresso Nacional no início da pandemia de coronavírus após forte pressão dos movimentos sociais, o auxílio emergencial pagou ao todo até R$ 4.200 ou R$ 8.400 (no caso de mães-solo) em até 9 parcelas para amenizar o impacto da crise econômica sobre a população mais pobre.

“O auxílio foi fundamental, já que sou mãe solteira”, diz Elaine, que também recebeu um cartão merenda da creche municipal frequentada pela filha caçula. “Agora, não tem como ficar em casa sabendo que está faltando alimento para minhas filhas”, completa.

Sem a renovação do benefício pelo governo comandado pelo ex-capitão do Exército Jair Bolsonaro, quem depende da renda diária para sobreviver tem sido forçado a se arriscar fora de casa em meio ao aumento de casos de infecção e morte por covid-19. Com mais de 14 milhões de desempregados no País, a demora na vacinação piora as perspectivas.

Nesta terça-feira (02/02), quase 300 organizações e movimentos de todo o País lançaram a campanha “Auxílio Até o Fim da Pandemia”, com objetivo de pressionar deputados e senadores no Congresso Nacional sobre a importância e a urgência de aprovar o restabelecimento rápido do benefício. O pontapé inicial da campanha é o lançamento de uma plataforma na internet, por meio da qual é possível subscrever abaixo-assinado que será entregue ainda este mês ao novo presidente da Câmara dos Deputados, Artur Lira. Clique aqui para assinar e pressionar.

Luana Vieira tem visto diariamente a falta que o auxílio faz na vida de diversas famílias do Jardim Miriam, na zona Sul de São Paulo. Ela lidera a iniciativa do Pagode da Disciplina, uma comunidade de samba que desde março do ano passado distribui marmitas para a população. “Era uma ideia emergencial para as pessoas em situação de rua, que não contam com auxilio emergencial, mas teve uma proporção maior porque as familias também dividem as filas em busca de alimentos”, diz ela.

Com o auxílio em mãos, muitas dessas pessoas tiveram maior autonomia. A situação voltou a piorar em setembro, com a redução do benefício de R$ 600 para R$ 300. Mas agora há quem volte em busca de ajuda.

“A continuidade do auxílio permite que pessoas não passem fome e tentem minimamente ficar em isolamento, à espera da vacina, sem o risco de uma contaminação em massa”, completa Luana.

Do outro lado da cidade, no Tatuapé (zona Leste), Thaís Miranda conseguiu permanecer um tempo isolada com a avó idosa, mas precisou voltar ao trabalho com a redução da parcela. Agora, a vendedora ambulante de 29 anos passa o dia nas ruas vendendo bala e água.

“Pobre tem que ir à luta diariamente e acaba sem querer se aglomerando pra poder arrumar dinheiro”, diz ela, que conta com a solidariedade dos passantes. “As pessoas estão se sensibilizando mais, nos ajudando bem mais”, percebe.

Campanha pela volta do auxílio

O guia de turismo Celso Francisco, de 43 anos, é um dos que defendem o retorno do auxílio emergencial. Ele vivia de trabalhos pontuais como festas e eventos. Como a pandemia paralisou esse tipo de atividade, o auxílio ajudou a segurar as pontas na casa dele, que mora na Vila Império, região de Cidade Ademar (zona Sul), com a mãe de 63 anos e o pai de 64. Ela é diarista e ele, camelô, portanto também receberam o auxílio.

Celso Francisco, guia de turismo, em evento promovido em setembro de 2020 (foto: arquivo pessoal)

A renda emergencial bancou as contas da casa e o mercado. Mesmo assim, Celso precisou vender geladeira, micro-ondas, tablet e notebook, além de reduzir até na ração da gata e da cachorra de estimação para complementar a renda. A família contou ainda com doação de cesta básica da igreja para se manter.

“Fiz alguns poucos serviços, o que ajudou a complementar. Mas ainda estou com [o pagamento da] minha MEI [microempresa individual] em atraso”, observa ele.

A contadora de histórias e arte-educadora Vera Cristina dos Santos também vive de trabalhos pontuais e se viu sem fonte de renda de uma hora para a outra. “Recebi o auxílio emergencial, e ele foi fundamental para que minha família conseguisse sobreviver num ano onde todos os espaços de trabalho onde eu atuava foram fechados sem nenhuma perspectiva de volta”, conta Vera Cristina.

Ela mora na Vila Ayrosa, em Osasco (região metropolitana de São Paulo), com o companheiro Greg, de 36 anos, que é tatuador e também teve acesso ao benefício. Com isso, eles conseguiram se sustentar de alguma forma com os filhos Rebecca, 11, Ramon, 6, e Rocco, 4. Recentemente, a casa passou abrigar também o pai e a mãe de Vera Cristina, que têm 70 e 63 anos respectivamente e voltaram a morar na cidade.

Vera Cristina: contadora de histórias ficou sem trabalho na pandemia (foto Arquivo pessoal)

Pra completar a renda, desde julho do ano passado Vera Cristina faz bicos com aulas de reforço escolar a preço baixo para estudantes da região, faxinas esporádicas até atendimento de telefone para o delivery de um restaurante aos domingos. Como seu companheiro é asmático (portanto, do grupo de risco), ele não pode sair de casa ainda. “É assustador ter que enfrentar um mundo contaminado para sobreviver”, diz.

Sem o auxílio no último mês, a família já está sentido o impacto e Vera Cristina teme perder até os bicos que conseguiu. “Tenho visto muitas pessoas pedindo ajuda para se alimentar nas redes sociais. Isso é assustador. Embora tenha uma rede de apoio muito bem estruturada, tenho medo dos dias que virão. Temo pelos meus filhos, por não conseguir dar conta”, ressalta.

“A forma como o enfrentamento à pandemia tem sido conduzido pelo desgoverno determina quem vai viver e quem vai morrer”, completa. “E quem é preto, pobre e periférico sempre tá andando com um alvo no peito, sabe?”

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