(Foto: Thiago Borges/Periferia em Movimento)

Artistas negros cobram acesso a Fomento à Dança na cidade de São Paulo

Diante da baixa representatividade no Programa de Fomento à Dança da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo, um grupo de artistas afrodescendentes se reuniu em um Fórum de Artes Negras e Periféricas lançou uma carta aberta para questionar critérios de seleção e cobrar acesso aos recursos públicos.

O Periferia em Movimento assina a carta, assim como o grupo Treme Terra, o Z’África Brasil, o Quilombaque, as companhias Os Crespos e Capulanas, o Umoja Brasil, Nelson Triunfo, entre outros.

<

p class=”post-title entry-title”>

Confira:

CARTA ABERTA PARA A DEMOCRATIZAÇÃO E POPULARIZAÇÃO DO ACESSO AO PROGRAMA MUNICIPAL DE FOMENTO À DANÇA PARA A CIDADE DE SÃO PAULO PARA GRUPOS, COMPANHIAS E COLETIVOS QUE TRABALHAM COM VOCABULÁRIOS E TEMÁTICAS DAS CULTURAS NEGRAS E PERIFÉRICAS

Nós, artistas, grupos, coletivos e simpatizantes das artes em geral, vimos por meio desta chamar atenção para a importância da inclusão da perspectiva cultural marcada pela diversidade no PROGRAMA DE FOMENTO À DANÇA da Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo. Uma ferramenta pública fundamental que, segundo o Artigo 1º da Lei deste edital, surge com a finalidade de “apoiar a manutenção e o desenvolvimento de projetos de trabalho continuado em dança contemporânea; fortalecer e difundir a produção artística da dança independente; garantir melhor o acesso da população à dança contemporânea; e fortalecer ações que tenham o compromisso de promover a diversidade dos bens culturais”.

Diante desses critérios, gostaríamos de abrir uma reflexão importante sobre a interpretação de conceitos que indiretamente propiciam o cerceamento da participação de grupos, companhias e coletivos que possuem o enfoque na cultura brasileira, a partir das matrizes africanas e periféricas, que geralmente não são vistos neste contexto como grupos CONTEMPORÂNEOS, sob o olhar crítico da grande maioria que compõe a banca de curadores nas edições do programa em questão.

Por tanto, nota-se que a apreciação dos projetos é realizada por uma equipe que, em sua maioria, desconhece os referenciais estéticos e poéticos sobre as Culturas Negras e Periféricas, comprometendo a sua capacidade avaliativa sobre essas formas de dança, já que seu exame é realizado a partir de quadros de referência eurocentrados e/ou euro-estadunidense. Tais recursos de avaliação referem-se, principalmente ao pensamento hegemônico reproduzido nas maiorias das universidades, escolas e academias de dança convencionais, que geralmente não incluem, reconhecem e compreendem a dança contemporânea diante de um corpo de identidade negra com vocabulários de movimentações afro-brasileiras, bem como da “Cultura de Rua” denominada hip-hop.

Na tentativa de deslegitimar essas diversas formas de expressão, o caráter de contemporâneo mantém-se vinculado ao antigo mecanismo de exclusão que remete, em última instância, ao período colonial. Ignora então, o caráter histórico das tradições culturais oriundas de diversas etnias que migraram da África para o Brasil, bem como a presença cultural das comunidades indígenas, desconsiderando o fato de que elas conviveram e convivem com a mesma força criativa que a cultura de matriz europeia, tão valorizada dentro das instituições de ensino formal.

Conforme o edital, no item 1.2.: “Entende-se por dança contemporânea um modo de produção artística que envolve investigação, pesquisa e criação, não diretamente relacionadas a critérios biográficos de artistas ou categorização da obra por estilo, conteúdo ou técnicas”. Aí nos deparamos com outra armadilha institucional para justificar a exclusão destes grupos de Dança Negra Contemporânea, bem como as danças periféricas, que são deslegitimados pela banca de maioria acadêmicos, que geralmente definem nossos trabalhos como “grupos folclóricos e/ou tradicionais, reprodutores de coreografias que não possuem investigações, pesquisas e criações no processo de montagem de um espetáculo”.

Então nos perguntamos: Qual é o grupo artístico independente do segmento cultural ou linguagem adotada que não possui investigação, pesquisa ou criação para montar novas composições, sejam cênicas, coreográficas, ou de outras naturezas? Quais são os parâmetros utilizados para se julgar uma pesquisa de linguagem? Esses parâmetros incluem a percepção de que existe uma dança contemporânea criada a partir dos referenciais africanos? Como a criação e a recriação desses valores oriundos de matrizes africanas podem ser identificadas por aqueles que não detêm esses códigos? Será que a noção de Dança Contemporânea no Município de São Paulo não vem se desenvolvendo sobre um caráter de “tradição”, onde há “estilos”, “vocabulários” e até mesmo “qualidades de movimento” sendo padronizados e legitimados neste contexto como “contemporâneos”?

Se a Cultura Negra na diáspora construiu um legado cultural à medida que pôde recriar sua existência dentro da experiência do desterro e da opressão, essa dinâmica se faz presente ainda hoje nas periferias onde a ausência de políticas públicas obrigam homens e mulheres, negros e negras, a se reinventarem o tempo todo. Essa dinâmica de sobrevivência tem sido marcada por continuidades e descontinuidades, pela memória, pela adequação, pela transmissão oral, pela inovação, pela diversidade e pela mutabilidade.

Ao contrario do que muitos pensam, a Dança Negra Contemporânea não é um todo indiferenciado, possui especificidades, sotaques, diversidades, singularidades, constituiu uma dinâmica histórica própria baseada na mediação incessante entre legados africanos e sua reinvenção, entre tradição e contemporaneidade, na memória da recriação. Quem não a conhece, no entanto, está comodamente acostumado a colocá-la no mesmo nicho redutor do folclórico, do exótico, enquadramento confortável diante da total e completa ignorância em ponderar sobre suas especificidades, variações e mutações.

Vale ressaltar que consideramos o edital uma ferramenta importante para o fortalecimento de nossas ações e somos a favor de sua continuidade, porém, a insatisfação está na interpretação dos termos que excluem a participação de  grupos contemporâneos que trabalham com outras temáticas, técnicas e referências de movimentações na cidade de São Paulo. Para tanto, nossa luta está pautada na inclusão da diversidade de pesquisa de linguagens no Programa Municipal de Fomento à Dança.

Se há o consenso na promoção de políticas públicas para a dança que também garanta a continuidade de grupos, para que pesquisas importantes para a cena e história da dança contemporânea paulistana não sejam abandonadas, há igualmente uma urgente necessidade de renovação dos quadros profissionais, abordagens e referenciais artísticos. Desta forma, uma poética de dança cuja concepção nasce da mudança de paradigmas, como local de experimentação e de busca de linguagem, deve urgentemente renovar-se e também ser concebida como um fazer diverso, não se transformando em um modelo canônico dominado por um pequeno grupo cujo principal objetivo é produzir para seus próprios pares.

Diante dessas inúmeras barreiras institucionais, tomamos como objeto simbólico de estudo a experiência da Cia Treme Terra, que nos últimos 05 anos enviou cerca de 09 projetos para o PROGRAMA DE FOMENTO À DANÇA, e assim como grupos desta e de outras naturezas como o grupo TF Style, Back Spin Crew, Grupo Afro Koteban, Discípulos do Ritmo,  nunca tiveram a oportunidade de acessar o recurso público disponível, que atualmente pode chegar a R$ 734.226,82 por cada projeto contemplado de acordo com a “duração, propostas de ações culturais e contrapartidas para a municipalidade”.

Vale ressaltar que essa não é uma realidade isolada, representa a situação de muitas companhias na cidade que encontram dificuldades similares para acessar o programa, quando não o desconhecem por falta de uma política de descentralização e difusão do mesmo, enquanto uma elite privilegiada de artistas da dança possui um histórico de 100% de aprovação em propostas enviadas, retém mais de 07 projetos aprovados em um edital de apenas 10 anos de existência.

No entanto, analisando os dados das edições anteriores perguntamos: Quantos grupos residentes nas periferias foram contemplados nesse edital? Quantos grupos de Dança Negra Contemporânea foram fomentados? Quantos curadores detém conhecimento dos códigos das danças negras e periféricas e/ou possuem pesquisas artísticas significativas para analisar tais propostas? Quais análises podemos fazer a partir desses dados?

CARTA ASSINADA PELOS ARTISTAS, GRUPOS, COMPANHIAS, COLETIVOS E ORGANIZAÇÕES DA SOCIEDADE CIVÍL:

Fórum de Artes Negras e Periféricas, Fórum de Hip-Hop do Butantã, Treme Terra, TF Style, Discípulos do Ritmo, Back Spin Crew, Grupo Cupuaçu, Quilombaque, Cia Fragmento Urbano, Linha Cruzada Cia de Dança, Coletivo Negro, Os Crespos, Capulanas, Cia de Dança Street Son, Círculo Palmarino, Quilombação, Uneafro-Brasil, Grupo Afro Koteban, Casadalapa, Orquestra de Berimbaus do Morro do Querosene, Associação Raso da Catarina, Z’África Brasil, Manos Urbanos, Haphirma-Coletivo, Umoja Brasil, Guardiões Griô, Blog Negro Belchior, Periferia em Movimento, Associação Franciscana de Defesa de Direitos e Formação Popular, Instituto Nação, WAPI Brasil, Ideologia Fatal, Ponto de Cultura Afrobase, Afoxé Filhos do Cacique, Clyde Morgan, Laís Morgan, Nelson Triunfo, Salloma Salomão, Fernando Ferraz, Bukassa Kabengele, Firmino Pitanga, Julio Dojcsar, Ailton Graça, Lucas Marchezin, Deca Madureira, Flávio Falcone, Diogo Granato, Paloma Xavier, Fernando Alabê, Anderson Xavier, Miranda de Amaralina, Crismara Correa, Moises Patrício, Arlete Alves, Pedro Guasco, Achiles Luciano, Panikinho, Amanda NegraSim e Adriana Moreira.