Por Rafael Cristiano

Esse texto começa a imagem de um arco e uma flecha.

Há um tempo gira uma pergunta lançada por Spivak* no mundão: “Pode uma pessoa subalternizada falar?”. Essa pergunta não quer dizer sobre a habilidade de enunciar palavras, mas sobre a possibilidade de falar publicamente e ser ouvide. Por de baixo da pergunta existem outras incutidas: “O que acontece quando uma pessoa subalternizada fala?”; “Quem ouve a fala de pessoas subalternizadas?”.

A pergunta encontra o contexto brasileiro e desenha um lugar de fala. Todes falamos de um ponto, ou mais, que é intrinsecamente relacionado com nossa experiência no mundo a partir das interseccionalidades que nos atravessam.

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Aqui em terras sul-americanas, eu pego Spivak pra uma conversa em minha cabeça e dela nasce uma outra pergunta: “O que pensa e/ou o que sente a pessoa subalternizada ao falar?”.

Som de arco tensionando.

Em uma reunião de trabalho,  alguém enuncia: “Eu não concordo com o que foi dito. Eu imagino por outro lado o rumo dessa conversa, penso que o interessante não é esse ponto levantado, por esse caminho deixamos de contemplar o que verdadeiramente importa, que é…”.

Rafael Cristiano (foto: Arquivo pessoal)

Essa é uma fala assertiva? Necessária? Agressiva? Prolixa? Sem rumo? Depende de quem enuncia? Depende do contexto? Depende de tudo isso?

Esse é um texto escrito por uma pessoa que vive em um espectro: Minha fala é assertiva ou desnecessária?

Hoje , tive contato com uma questão levantada por uma mulher cis negra: “Eu tendo a ser agressiva. Sempre penso se minha fala é assertiva ou agressiva. Qual o limite? Sei que é uma questão minha.”

Som de flecha sendo lançada.

Essa frase assertivamente chegou em mim. Percebi que na mesma reunião eu disse ao fim de responder uma pergunta feita: “Consegui responder sua pergunta?”. Essa na verdade é uma sentença muito comum em minhas conversas, junto com: “Ficou nítido?” “Deu pra entender?” “Não sei se me fiz entendido.”

Enquanto eu enuncio as palavras o meu corpo esquenta, produzo suor, tremo, gaguejo, e penso: “Será que está nítido o que eu estou pensando?”

Repito a pergunta: Quando o corpo subalternizado fala, o que ele pensa?

O meu processo pessoal encontra outros corpos, outras vivências e percebo não estar sozinho entre o espectro da assertividade e alguma outra coisa que não a que necessariamente gostaríamos de dizer.

A Grada Kilomba** lança a questão da fala, com a imagem da Anastácia, uma mulher escravizada que foi retratada com um instrumento de tortura chamado “Máscara de Flanders”, a máscara tinha a intenção de impedir a alimentação, a hidratação e a comunicação.

A pessoa que a usava deveria pensar muito bem no que falaria, assim que retirasse a máscara, porque o castigo poderia voltar.

As outras pessoas no contexto de escravizadas que observavam, internalizavam a máscara em seus corpos, e tinham como ordem interna um extremo cuidado com o que seria enunciado, afinal a próxima pessoa castigada poderia ser ela.

Cuidado com o que vai ser dito, para que ao entrar em contato com outre, não seja mal interpretado, porque o que estava em cheque era a sua dignidade humana.

Dizem o ser humano, um animal que fala. Dizem o ser humano, um animal de linguagem. Dizem o ser humano, um ser pensante e que organiza e desenha no ar os pensamentos em palavras. A máscara é friamente pensada para romper a noção de humanidade.

Estamos aqui.

Alguns anos depois, pensando ao enunciar palavras, se a qualquer momento o que está sendo dito vai ser compreendido, se a nitidez do pensamento intelectual está firme na fala. Se estou garantindo a minha humanidade no ato que me diferencia de qualquer outra espécie animal.

Neste momento a flecha recém lançada cai, antes de chegar ao alvo.

“Eu falo e tenho certeza que sou assertiva, mas as outras pessoas me acham muito fria e distante, me cobram no trabalho que eu seja mais ‘aberta’, menos formal. Mas enquanto eu falo, penso que esse é meu escudo. Não posso abrir uma brecha para que minha fala não seja questionada. Não posso abrir brecha para abusos. Já me fizeram um sinal de silêncio em uma reunião para que parasse de falar, já me mandaram mensagem no privado pedindo que não falasse em uma outra reunião. Imagina se eu fosse informal?” – Gerente de Projetos, mulher cis negra.

A imagem se amplia, vemos várias pessoas tensionando arcos e lançando flechas.

“Sei que essa é uma questão minha”.

Anos depois das máscaras de Flanders, estamos ocupando e desenhando outros lugares nas estruturas do país, estamos falando, lecionando, escrevendo, declamando, gerindo, comunicando, atuando, enquanto nos questionamos: Fui assertive ou…???

O trabalho árduo de exorcizar a máscara e os questionamentos paralelos à fala vem sendo minha tentativa no momento. Não quero me certificar se fui entendido, se o que falo é válido ou importante. Quero articular meus pensamentos no ar.

Li esse texto algumas vezes pra saber se o arco estava tensionado o bastante, se a flecha estava bem posicionada, se o alvo está na mira. E o alvo não é quem ouve. O alvo é a minha própria capacidade de linguagem, aquilo que me denota gente. O alvo é minha própria humanidade.

Fui assertivo com esse texto ou…

A pessoa abandona o arco, vai até a flecha e a quebra.

Rafael Cristiano é artista. Designer, ator e dramaturgo. Formado em design gráfico pela FMU em 2012. É Ọmọ Òrìṣà de Ossanyn. Tem interesse em arte e em morrer velhinho.

*Gayatri Chakravorty Spivak é uma crítica e teórica indiana, mais conhecida por seu artigo “Can the Subaltern Speak?” ou “Pode a pessoa subalterna falar?”

**Grada Kilomba é é uma escritora, psicóloga, teórica e artista interdisciplinar portuguesa, seu trabalho de maior destaque é o livro “Memórias da Plantação”, onde é encontrado o texto ‘A máscara’ aqui referenciado

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