Após ato com 30 mil pessoas no centro, periferias se mobilizam contra tarifa do transporte

A luta contra o aumento da tarifa no transporte público de São Paulo, que subiu de R$ 3 para R$ 3,50 na última terça-feira (06/01), se regionaliza com atos programados nos próximos dias pelo Movimento Passe Livre (MPL) e outros movimentos nas periferias da capital e em municípios da região metropolitana.

Até o final da semana, estão previstas oficinas e reuniões abertas com a população de Pirituba, Lapa, São Mateus, Campo Limpo, Grajaú, M’Boi Mirim e Parelheiros (veja no fim do texto).

E, na sexta-feira (16/01), ocorre o 2º Grande Ato Contra a Tarifa no centro da capital, a partir das 17h, na Praça do Ciclista – esquina da rua da Consolação com a avenida Paulista. A concentração foi marcada para o mesmo lugar em que a primeira manifestação deveria ser encerrada. Na sexta passada (09/01), 30 mil pessoas participaram do ato convocado pelo MPL.

A assistente social Maria do Socorro Souza de França, que não participou das históricas manifestações de 2013, fez questão de comparecer. “É muito caro o valor cobrado pelo transporte. Não sou a favor do aumento porque vivencio todos os dias essa precariedade. E nós, como mulheres, somos violentadas dentro do trem, tem abuso dentro do ônibus, e não se faz nada com relação a isso”, diz Socorro, que mora na zona leste e, diariamente, pega trem, metrô e ônibus para chegar à zona norte, onde trabalha.

Porém, o protesto que teve início em frente ao Teatro Municipal foi reprimido pela Polícia Militar a 200 metros do seu ponto final. A PM lançou uma chuva de bombas de efeito moral sobre milhares de manifestantes, o que provocou vômitos e desmaios. Mais de 50 foram detidos, ficaram vagando por duas horas em camburões e posteriormente foram liberados em delegacias da região.

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O MPL contesta o aumento de 16,6% das tarifas de ônibus, trens da CPTM e Metrô feito de forma conjunta pelo prefeito Fernando Haddad, do PT, e o governador Geraldo Alckmin, do PSDB.

O valor da passagem continua o mesmo para usuários do Bilhete Único nas modalidades mensal, semanal e diário, além da gratuidade para estudantes de escolas públicas, bolsistas de escolas particulares, universitários de baixa renda, idosos e pessoas com deficiência.

Ainda assim, o reajuste atinge 51% dos usuários de ônibus segundo dados da própria São Paulo Transportes (SP Trans) – isto é, 5 milhões de embarques feitos por dia por passageiros que pagam a tarifa em dinheiro ou utilizam o Bilhete Único comum.

“A criação desse passe livre estudantil é uma tentativa de dividir a população e dizer que quem protesta é estudante de classe média, que não precisaria desse benefício”, aponta o professor de filosofia Emerson Martins. “Então, a gente tá aí pra derrubar esse aumento”.

Vindo do Grajaú, no Extremo Sul de São Paulo, Emerson enfrenta conduções superlotadas e a constante ameaça de corte de linhas. Entretanto, outros moradores da região enfrentam problemas ainda mais graves, como a inexistência de transporte público.

É o caso do monitor ambiental Edmundo dos Santos, de 63 anos, que vive desde 2002 no bairro rural de Embura do Alto, no distrito de Marsilac. Como trabalha no núcleo Curucutu do Parque Estadual da Serra do Mar, a 3km de casa, seu Edmundo não depende do ônibus todos os dias.

“Mas ficamos longe de tudo, até pra fazer compras. Aqui, ou você come pão velho ou faz seu próprio pão, porque não dá pra chegar na padaria”, conta ele, que comprou uma moto para se locomover mais facilmente.

Ao longo de 2014, moradores da região e integrantes do movimento Luta do Transporte no Extremo Sul realizaram diversas ações para chamar atenção para essa situação, como o acorrentamento de manifestantes na porta da prefeitura, uma virada cultural com artistas locais (já que a população não conseguiria chegar ao centro para participar do evento “oficial”) e um dia comônibus tarifa zero. Saiba mais aqui. O veículo foi alugado com a verba arrecadada em bingos e festas.

“O aumento da tarifa não é algo que pode ser contingenciado. É um problema estrutural, do qual faz parte também a falta de oferta de transporte público em certas regiões”, explica Erica de Oliveira, da Luta do Transporte no Extremo Sul.

Segundo Erica, a prefeitura de São Paulo alega que não pode criar linhas nessas comunidades, localizadas em áreas de preservação e de mananciais, por falta de licença ambiental. Bairros como Ponte Seca e Mambu já contam com luz elétrica, transporte escolar, coleta seletiva e postos de saúde, mas os moradores precisam caminhar até 15km o ponto de ônibus mais próximo.

Moradora da Ponte Seca, Renata da Silva Jesus, 29, anda duas horas a pé para chegar à estrada Engenheiro Marsilac, onde passa ônibus. São 8,5 km de caminhada. Tanto ela quanto o marido estão desempregados e sustentam as duas filhas com bicos que fazem na região. Em troca de moradia, a família cuida de uma chácara na comunidade.

No ano passado, Renata conseguiu um emprego na avenida Paulista. Para bater ponto às 07h da manhã, ela saía de casa 01h50 da madrugada para conseguir chegar ao ponto antes das 04h e pegar o primeiro carro em direção ao Terminal Varginha. Depois, ainda viajava até o Terminal Grajaú, onde seguia de trem e metrô até o trabalho.

“Trabalhei 40 dias. Meu joelho começou a doer e, como eu mal dormia, a pressão subiu”, diz ela, que chegava em casa às 10h da noite.

Nesta terça (13/01), Renata tem uma nova entrevista de emprego – e mais uma longa caminhada até o ponto de ônibus. Para piorar, com o aumento da tarifa, ela teve que pedir R$ 10 emprestados para pagar a passagem.

“Estamos esquecidos aqui. A gente não conseguiu nem trazer ônibus pra cá e ainda tem que pagar tarifa mais cara. É um absurdo”, conclui.

Anotaí!

Atividades regionais contra a tarifa

13/01, 18h – PIRITUBA
“Boca no trombone” e oficina de materiais:
https://www.facebook.com/events/414911028672518/

14/01, 18h – ZONA LESTE
Assembleia da Zona Leste contra o aumento:
https://www.facebook.com/events/682814211839088/

15/01, 18h – LAPA
“Boca no Trombone” e Velório do Transporte Coletivo:
https://www.facebook.com/events/414911028672518/

17/01, 14h – GRAJAÚ
Reunião aberta contra o aumento no Grajaú:
https://www.facebook.com/events/404837489681859/

17/01, 14h – CAMPO LIMPO
Reunião aberta contra o aumento no Campo Limpo:
https://www.facebook.com/events/753187891430733/

17/01, 14h – M’BOI MIRIM
Reunião aberta da Luta do Transporte na M’Boi:
https://www.facebook.com/events/1035241223169515/

18/01, 10h – PARELHEIROS
Reunião aberta da luta contra o aumento em Parelheiros:
https://www.facebook.com/events/404837489681859/