Reportagem por Thiago Borges. Fotos e transmissão on-line por Wilson Oliveira

A voz de Juçara Zottis ecoa pela Brasilândia, na Zona Norte de São Paulo. E não é só pelas ondas da Rádio Cantareira, em que ela é locutora.

Inaugurada em 1995, a Cantareira nasceu a partir da necessidade dos moradores e movimentos sociais da Brasilândia terem um espaço para falar das lutas por moradia, transporte, saúde, educação, cultura. Logo de cara, a emissora foi alvo de batidas da Polícia Federal, que agiam contra rádios “piratas”: desde as evangélicas até as comunitárias.

Juliana Salles (à esq.) e Juçara Zottis (Foto: Wilson Oliveira/Periferia em Movimento)

Os policiais invadiam os espaços, quebravam ou apreendiam os equipamentos e, em alguns casos, os responsáveis eram levados presos. Juçara, o padre que abrigou a rádio na época e até o arcebispo de São Paulo tiveram de depor em um dos processos judiciais. Por isso, a comunidade também se mobilizou contra o silenciamento e pela garantia do direito à comunicação: junto a outros radiodifusores comunitários de São Paulo e do Brasil, Juçara viajou pra Brasília em busca do reconhecimento da emissora.

A homologação foi conquistada, mas apenas em 2009 a Cantareira conseguiu algum tipo de apoio público para se manter: o edital dos Pontos de Cultura Viva, cujos recursos permitiram equipar a rádio e formar novos comunicadores em oficinas abertas à população.

Perseguição política, mobilização, reconhecimento. Um quarto de século depois, a Rádio Cantareira se mantém na ativa, mas ainda hoje profissionais como Juçara não conseguem pagar as contas exclusivamente com o trabalho na emissora. Assim como ela, 80% dos jornalistas e comunicadores das quebradas de São Paulo também não têm as iniciativas como seu único trabalho.

(Foto: Wilson Oliveira/Periferia em Movimento)

Esse histórico de luta pelo direito à comunicação e o perrengue que existe pra continuar fazendo esse trampo aparecem nas conclusões do “Mapa do Jornalismo Periférico: Passado, presente e futuro”, apresentada na última quinta-feira (22/08) em São Paulo. A pesquisa foi realizada pelo Fórum Comunicação e Territórios, uma coalizão entre Desenrola e Não Me Enrola, Periferia em Movimento, Historiorama, Preto Império, Gisele Brito e Mariana Belmont, coletivos e profissionais de comunicação originários e atuantes nas periferias de São Paulo, com apoio da Fundação Rosa Luxemburgo.

Confira abaixo o registro do encontro, que foi transmitido ao vivo pela Periferia em Movimento:

Nossos passos vêm de longe

Desde março de 2019, o grupo mapeou 97 realizadores comunicativos que estão e atuam a partir de regiões periféricas da cidade de São Paulo, entre pessoas, coletivos ou organizações sociais e culturais, sempre com recorte de território. O objetivo é entender as motivações, como se articulam e se sustentam com esse trabalho.

Ao todo, 56 iniciativas responderam a um questionário on-line, 20 representantes foram entrevistados presencialmente e 30 participaram de um encontro coletivo para aprofundar as perguntas da pesquisa.

O Fórum Comunicação e Territórios identificou que, no início dos anos 1990, jornais impressos, fanzines e rádios já disputavam o direito à comunicação nos territórios periféricos de São Paulo. Mas o movimento tem um boom a partir de 2012, com a criação de 36 iniciativas desde então.

Esse número coincide com as políticas públicas de acesso ao ensino superior: 63% dos que foram entrevistados presencialmente fizeram faculdade de comunicação, sendo que 62% desse total estudaram com apoio de políticas públicas (como cotas, ProUni, FIES, entre outras).

A presença na universidade despertou o questionamento da cobertura da mídia hegemônica sobre as periferias, ao mesmo tempo em que as quebradas eram palco de uma forte efervescência cultural.

“’Nossa, fui no sarau e descobri que precisava falar sobre aquilo’. A cena cultural em São Paulo, a partir do momento que é muito forte e é invisibilizada, precisa de alguém pra falar disso. Essa tem sido a chave da luta na periferia. O sujeito periférico é atravessado pelo viés cultural”.

Gisele Brito, comunicadora e pesquisadora

Dar visibilidade e quebrar estereótipos sobre a vida nas quebradas é a principal motivação para existência das iniciativas. E, como missão, o viés formativo que trabalha o pensamento crítico e a criação de um novo imaginário aparece ao lado da abordagem cultural e do forte recorte de raça, gênero e classe.

Abaixo, Gisele Brito explica a importância do levantamento:

A mestra em comunicação Juliana Salles corrobora essas conclusões. Bolsista do ProUni na Fapcom, Juliana Salles investigou o jornalismo de quebrada em seu trabalho de conclusão do curso de graduação a partir das práticas da Periferia em Movimento. E, em seguida, ingressou no Mestrado na Universidade de São Paulo, em que continuou investigando a educomunicação popular e periférica a partir da experiência do mesmo coletivo em comparação ao de uma organização de uma comuna na cidade de Medelin, na Colômbia.

Entre as características, estão a produção a partir das periferias; a formação de redes; o enfrentamento ao estereótipo das periferias como carentes ou lugares de ausência; a interação com a audiência e a preocupação com o impacto; a busca pela emancipação das periferias; a incorporação de gírias locais; a preocupação com a formação do leitor, entre outras.

“Quando a gente fala do jornalismo periférico, de quebrada, a gente tá falando de um trabalho profissional que é feito a partir do território”, explica Juliana.

Quem paga?

Diante da dimensão que é fazer esse trabalho nos territórios à margem da cidade, 48% dos entrevistados se definem como “comunicadores populares”, enquanto 38% se dizem “empreendedores sociais” e apenas 19% como “jornalistas”.

Gisele Brito observa que o “jornalismo não dá conta de tudo o que aquela iniciativa quer dizer”, até porque esses fazeres muitas vezes não se encaixam nos protocolos do jornalismo hegemônico e é atravessado por condições econômicas, sociais e ambientais específicas. Ao mesmo tempo, “comunicador popular” é um legado do educador Paulo Freire que se perpetua nas quebradas.

“A gente é jornalista profissional e escolheu fazer um jornalismo a partir das periferias, do nosso jeito e com a nossa cara”, ressalta Thais Siqueira, educomunicadora e idealizadora do coletivo Desenrola e Não Me Enrola.

Manter esse trabalho profissional é uma questão chave para entender os limites da produção comunicativa nas quebradas. Mais de 80% dos entrevistados na pesquisa têm conteúdo autoral, e apenas 33% publicam conteúdos diariamente. Outros 36% não têm uma periodicidade exata.

Quem tem uma fonte variada de recursos consegue manter essa periodicidade de forma mais estável. Mas no caso de iniciativas que têm uma dependência maior de políticas públicas, como editais por exemplo, o ritmo de entrega de conteúdos é ditado pelo tempo de execução dos projetos.

Público participante do lançamento da pesquisa

Outro ponto levantado pela pesquisa evidencia a ausência de políticas para garantir o direito à comunicação. Entre as políticas públicas acessadas pelas iniciativas, destacam-se os programas da Secretaria Municipal de Cultura voltados à produção cultural nas periferias, como o VAI (50% acessaram), Fomento a Cultura da Periferia (15%) ou o Redes e Ruas (10%). Cerca de 35% dos entrevistados nunca acessaram recursos públicos.

A pesquisa conclui que as bordas da cidade não vivem um “deserto” de produção midiática. Centenas de pessoas trabalham para ampliar o direito à comunicação em diversas linguagens, incluindo o jornalismo, mas precisam superar diversos desafios para produzir e distribuir seu conteúdo.

“Parece que a única forma de continuar existindo é continuar vendendo a gente, ‘produtificar’ nossa narrativa, nosso território, nossa existência. Como é que a gente vive do que sabe fazer, quer fazer, gosta de fazer?”, questiona o educomunicador Tony Marlon, pesquisador do Fórum Comunicação e Territórios.

Abaixo, Tony fala das principais descobertas da pesquisa em seu ponto de vista:

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