“Antes de a gente ocupar já tinha policial batendo. Periferia é outra história”

Por Mariana Caires.

No último domingo, a PM invadiu e prendeu dois estudantes da E.E. Honório Monteiro, na Vila Calu, fundão da M’Boi Mirim. Esse foi mais um episódio de truculência policial no cotidiano das periferias, e pra quem ainda tinha dúvidas de que ela acontece a mando do Estado, não tem mais. No mesmo dia, a Secretaria de Educação estava reunida para discutir suas estratégias de ação nas escolas. Pelo áudio da reunião, já se sabe que só um lado da briga está lutando pela educação: os estudantes e professores contra as manobras do Estado.

A E.E. José Lins do Rego, no M’Boi Mirim, é uma das mais de 200 escolas ocupadas no Estado de São Paulo em cadeiraprotesto contra a reorganização escolar. Localizada na periferia da zona sul, foi ocupada pelos estudantes no sábado 21 de novembro, após a polícia invadir violentamente uma reunião do Dia E, batendo em quem estava presente.

Era um dia para os pais tirarem suas dúvidas sobre a reorganização, então “os policiais chegaram querendo fechar o portão e bater em quem estava dentro, aí não tivemos outra escolha, OCUPAMOS A LINS”, conta uma estudante. “Eles não tinham motivo, só batiam, não explicavam o por quê”, completa.

Com mais de 15 dias, a ocupação resiste e está articulada com as demais escolas do Estado e da região. O trabalho em conjunto fortalece as ocupações com dificuldades. Os estudantes em luta ressaltam que “na periferia é diferente, tem escola que foi atingida por bomba, garrafas, tem bastante gente contra, mas em geral tem muitos nos apoiando”.

O incômodo com a reorganização é o estopim para quem já sofre com a defasagem no ensino todos os dias. Apesar de o Lins ser uma Escola de referência na região, muitas turmas serão realocadas, e quem for transferido pode ir pra escolas totalmente defasadas. “Atendemos no portão muitos pais de alunos que souberam que os filhos vão ter que ser transferidos pra escolas muito distantes, mas se tivesse escola boa em outros lugares, não ia ter esse problema”.

“Minha sala tem 36 alunos, eles pegaram o número 1 da chamada ao 9 e colocaram de noite. Do numero 10 ao 30 tá de manhã, e o resto perdeu a vaga, aí não sabem onde estão, ninguém soube informar o que devem fazer, e as opções que eles têm na sua região são superlotadas, não tem como eles ficarem la”.

Com a divulgação do áudio da reunião da Secretaria de Educação pelos Jornalistas Livres, fica exposto qual é o modelo de ação do nosso Estado – estão fazendo Guerra contra os estudantes e professores da oposição. Nessa terça-feira, saiu no Diário Oficial o Decreto que aprova a relocação dos professores. O governo planeja consolidar a reorganização enquanto enrola algumas escolas em audiências públicas e usa a repressão policial nas outras. A bala vai chegar em quem? No preto e pobre da periferia, que apesar de muito bem articulado, já conhece a violência policial diariamente.

Nos últimos dias, os relatos de opressão não param de chegar. Na terça-feira (1/dez) pela  manhã, a polícia, dirigentes e pais invadiram a escola E.E. Maria José (centro) com barras de ferro e gás de pimenta, sem mandato de reintegração. A ocupação já está normalizada, e continua, mas essa é a tática que veremos daqui pra frente. Na ETEC Jardim Ângela, a ocupação teve que se retirar devido ao grande número de ameaças que os estudantes estavam sofrendo pela coordenação e grupos criminosos da região.

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ETEC Jardim Ângela ficou ocupada até a última sexta-feira (27/12). Foto: Mariana Caires

Apesar da repressão, os estudantes estão ligados e fortalecidos, e isso ficou evidente já na semana passada, quando a notícia de que a reorganização seria prorrogada até o dia 4 não afetou, só fez crescer o movimento. “A gente não é trouxa, não vai cair nisso, a gente sabe que o PSDB não é de dialogar, mas a gente tá aqui pra dizer que se eles não vão arredar o pé, a gente também não”, garantem os estudantes, “e se a gente incomodou, vamos continuar incomodando”.

“A gente não sai enquanto ninguém for conversar com a gente”, afirmam, e enquanto continuam na escola, ela se preenche de atividades culturais e discussões políticas. Que fique explícito ao governo que as aulas estão acontecendo fora das salas, onde cabe mais gente pra discutir: nos corredores, pátios, e também fora, nas ruas. E o recado tá dado: Não tem arrego, enquanto a reorganização não cair, as aulas vão ser nas ruas!

Acompanhe as páginas das ocupações:

Ocupação VRAL – E.E. Doutor Honório Monteiro

Ocupação E.E. José Lins do Rego.

Ocupação da E.E. Salvador Alende.

Canal Secundarista

O Mal Educado