Anna Kesiah queria nascer No Campo Limpo, a Casa Ângela realiza 30 partos humanizados por mês pelo SUS

“Ontem a noite eu comecei a sentir uma dor nas costas, já tinha ido na Casa Ângela no dia anterior, e a dilatação ainda era de 2 cm. Aí o Gregory mediu o tempo das contrações, e era de 2 em 2 minutos. A mala nem estava arrumada, mas não teve pânico como mostram nas novelas. A gente arrumou tudo e saímos, tranquilos”.

Era isso, a Anna Kesiah queria nascer.

Anna é a primeira filha de Juliana Paulino Sylvestre e Gregory Vitório Sylvestre, de Taboão da Serra. Ela com 18 e ele com 20 anos, ambos não sabiam muito sobre parto nove meses atrás. Já na manhã do dia 1º de abril, quando os encontrei no quarto da Casa Ângela de Parto Humanizado, eram pais que afirmavam com o sorriso de canto a canto que quem fez o parto de Anna foram eles mesmos.

Assim deve ser o parto mais natural possível, conta Anke Riegel, coordenadora da Casa Ângela, localizada no Jardim Ângela, Zona Sul de São Paulo. Para ela, “o parto humanizado é nada mais que um parto em que a mulher é a protagonista, e que ele acontece de forma natural, conforme as necessidades do corpo da mulher, quando possível, com o apoio do pai e de familiares”.

Estamos acostumados a ouvir que há duas formas de parto, o normal e a cesariana, ambos feitos em hospitais e comandados por um médico. Anke conta que o parto ‘normal’ da forma como é feito nos hospitais não é natural, “pois quando passa a ser medicalizado e tratado como um procedimento cirúrgico, perde parte de sua sensibilidade. O Brasil é o campeão em cesarianas no mundo, e isso vem de uma cultura de que o parto é um procedimento com hora marcada para acontecer, e que deve ser rápido e indolor, controlado pelo médico”.

Essa prática hospitalar é recente, e hoje em dia se alguém diz que prefere ter o filho da forma como a avó nasceu, acompanhada de uma parteira, vai receber olhares tortos da família, como foi com Juliana. “Acho que a maioria das pessoas escolhe marcar a cesária por causa do tempo, é mais rápido. Quando a gente falou pras pessoas que íamos fazer esse procedimento, todo mundo chamou de louca, falou que dói demais, que eu não precisava sentir dor. Mas na hora foi muito bom”, conta a mãe de primeira viagem.

A ideia de que parto bom é na mesa de cirurgia é a única versão ensinada nas faculdades de medicina e na mídia. Quando o parto passou a ser atividade do médico, conta Anke, foi por consequência de uma sociedade machista que valoriza a tecnologia e produtividade antes do ser humano. “Somos campeões de cesarianas porque esse procedimento é o mais lucrativo para o médico, e em 20 horas, um mesmo médico consegue fazer mais de 30 partos num hospital, enquanto que numa casa de parto, um nascimento pode durar de uma a 20 horas e para isso, é necessário ter estrutura”.

Os jovens pais chegaram à Casa Ângela às 2h da manha, e às 3h42 Anna veio ao mundo. Juliana e Gregory contam que escolheram juntos a posição mais confortável para o nascimento, pois como aprenderam nos últimos meses durante os encontros na Casa Ângela, a posição deitada horizontal usada pelos hospitais não é favorável para que a criança nasça naturalmente.

 

"O pessoal não gosta de parto normal porque dói, mas no fim, aconteceu tudo muito bem e rápido”, conta Gregory, que acompanhou e auxiliou todas as etapas da gravidez e do nascimento.
“O pessoal não gosta de parto normal porque dói, mas no fim, aconteceu tudo muito bem e rápido”, conta Gregory, que acompanhou e auxiliou todas as etapas da gravidez e do nascimento. Foto: Mariana Caires

Além de o parto natural não contar com intervenção cirúrgica e trazer risco menor à mãe que não corre risco de saúde, há incontáveis benefícios psicológicos: “A cesária é uma cirurgia de médio porte que envolve risco 4 vezes maior que um parto natural. O parto faz parte da vida de uma mulher se essa for uma escolha, e faz bem, empodera para todo o resto de sua vida e para a relação que terá com os filhos. Ela deixa de ser passiva, ELA PODE”, conta Anke.

Quando a gravidez não possui nenhum fator de risco, a obstetriz e a doula estão ali apenas para acompanhar, e todo o papel é feito pelos pais. Como? No pré-parto, a coisa mais importante é dar toda a informação necessária, não só em questões de saúde física, mas psicológicas. A mãe e o pai devem se sentir confortáveis e donos da situação.

Não é preciso desespero como se mostra nas novelas, e o ambiente deve ser o quanto mais acolhedor e menos assustador possível. “Se em um hospital convencional, as luzes são cintilantes, os corredores são cheios e a mãe é levada para uma sala e recebe uma quantidade imensa de injeções, numa casa de parto, todas as escolhas dependem da mãe”, observa Anke.

Para Juliana, a principal diferença está no ambiente da Casa, que é mais agradável,  “num hospital, eu não ia ficar bem, qualquer interferência ia dificultar o nascimento da bebê, eu ia me desesperar com aquele clima de medo”, diz.

Após o nascimento, Gregory teve 5 dias de licença pra organizar tudo, eles voltam para Taboão, mas nos próximos meses vão continuar participando de atividades na Casa Ângela.

O parto humanizado é uma coisa que todas as mulheres deviam conhecer, pra entender que quem faz o parto é a mulher, são os pais, não o médico, e não precisa de cirurgia, cortar nada, é só respeitar o tempo da mulher”, diz Juliana.

 

Casa Ângela

A Casa Ângela de Parto Humanizado foi fundada em 2009, e desde dezembro de 2015 auxilia 30 nascimentos por mês pelo SUS.

Para Juliana, o serviço é melhor do que quem paga no particular devido ao tratamento tão especial. Por mês, uma média de 70 mulheres procuram pelo atendimento, mas grande parte tem algum risco em potencial, então é encaminhada para realizar os procedimentos em hospitais para sua segurança.

Toda quarta feira às 9h30 da manhã, acontecem as reuniões do grupo de acolhimento para quem quiser conhecer o trabalho da Casa Ângela. A partir disso, se a gravidez não for de risco, a mulher pode fazer o pré-natal todo na casa. São 5 consultas pré-natal na casa ou na Universidade Básica de Saúde.

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A Casa Ângela fica no bairro do Jardim Ângela, periferia da Zona Sul de São Paulo.

 

Parto como Saúde Pública

Anke acredita que, por ser questão de gênero, as políticas públicas de parto ficam menos acessíveis “devido à nossa cultura machista na política e desigualdade de gênero”. Mas, na última gestão da cidade, tem visto a situação melhorar. O convênio com o SUS possibilitou que a Casa atingisse seu objetivo de chegar às mulheres da região, pois antes, quando se mantinham por doações, a casa tinha sempre um futuro incerto, sobrevivendo de doações.

As melhoras em políticas públicas, acredita, “são fruto da luta de mulheres em movimentos sociais, que nunca pararam de exigir seus direitos e que mostrar às mulheres que o parto deve ser uma escolha dela”.

A profissão de obstetriz que anos atrás estava abolida, hoje já está em um curso de Obstetrícia na USP Leste que forma pessoas preparadas para acompanhar partos de baixo risco. Os estudantes do curso realizam residência e estágios na Casa Ângela.

Anke e Carol, da Casa Ângela. Foto: Mariana Caires
Anke e Carol, da Casa Ângela. Foto: Mariana Caires

Para Anke, além de informar as grávidas, é muito importante que o estado leve informação para os profissionais. “Os médicos hoje são formados na cultura do parto medicalizado, e precisam conhecer o parto natural e entender que a mulher tem direito à escolha de acordo com sua vulnerabilidade física ou não”.

Além da possibilidade de formação de obstetrizes, a prefeitura também abriu edital para a profissão de obstetriz, o que indica que o cenário dos hospitais pode mudar.

Anke participa do Fórum Perinatal da cidade de São Paulo e tem observado avanços. “Estamos num cenário de mudanças, que é lento, mas está mudando. As mulheres já têm direito a acompanhante, há uma mudança na legislação da licença paternidade e o governo federal criou a Rede Cegonha, que monitora os partos cesarianos a fim de que este índice diminua”.

 

Saiba mais!

Casa Ângela – Associação Comunitária Monte Azul – http://www.casaangela.org.br/

A Casa Angela fica ao lado da Estrada de Itapecerica, a aproximadamente 300 metros do terminal de ônibus João Dias e da estação Giovanni Gronchi do Metrô (Linha 5 – Lilás).

Rua Mahamed Aguil, 34, Jd. Mirante, CEP 05801-060 – São Paulo, SP

Informações no telefone: (11) 5852-5332