Depois de milhões de estudantes lotarem as ruas contra os cortes na educação promovidos por Jair Bolsonaro, nesta quinta-feira (30/05) eles promovem mais uma manifestação contra a medida. Saiba mais aqui. E para Alexandre Barbosa Pereira, esses ataques do governo federal são parte de uma reação elitista aos avanços que vivenciamos nos últimos 10 anos.

“Tivemos, simultaneamente, tempos de muito avanço em termos de conquistas e lutas sociais, mas também de retrocessos e reação à potência de um novo mundo em elaboração a partir das periferias”

Alexandre Barbosa Pereira, Mestre e Doutor em Antropologia Social pela Universidade de São Paulo e professor do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São Paulo, que fica no bairro de Pimentas, em Guarulhos

Em 2009, Alexandre participou como entrevistado do documentário “Grajaú na Construção da Paz”, onde a Periferia em Movimento começou (assista abaixo). Por isso, ele faz parte de #NossoBonde, série que a gente publica todas as segundas-feiras de 2019. Neste ano em que completamos uma década de jornalismo de quebrada, convidamos moradoras e moradores das quebradas que nos ajudaram a refletir sobre a realidade na perspectiva periférica ao longo desse período – e, também, pra saber como imaginam os próximos 10 anos.

Nascido e criado em Americanópolis, no distrito de Cidade Ademar (Zona Sul de São Paulo), Alexandre escreveu os livros “‘A Maior Zoeira’ na Escola: Experiências Juvenis na Periferia de São Paulo” e “Um Rolê pela Cidade de Riscos: Leituras da PiXação em São Paulo”. Os trabalhos refletem parte da diversidade da juventude periférica paulistana.

“Se na periferia há tempos já haviam se consolidado as lutas por melhorias dos bairros, recentemente despontaram novos movimentos com novas questões e novas propostas”

Alexandre Barbosa Pereira

Nisso, destacam-se os coletivos e ações em torno da arte, da cultura e da comunicação. “Colado a essas insurgências artísticas, que passaram a tomar a cidade e romper as fronteiras dos bairros periféricos, está o fortalecimento de perspectivas que ressaltam a diferença e reivindicam espaço e respeito, como as do feminismo, do movimento negro e da luta antirracista, do movimento LGBTQI+ e, eu diria, das próprias afirmações da periferia como espaço de criatividade e transformação”, completa.

Em outra ponta, apesar das contradições dos programas de expansão de vagas no ensino superior e das políticas de acesso, o antropólogo nota que isso trouxe maior diversidade pro ambiente acadêmico. E todas essas movimentações incomodam.

“A persistente violência e desigualdade social nos bairros periféricos acentuou-se nos últimos anos pós-golpe e de crise econômica, o que tem acirrado conflitos e aumentado situações calamitosas”, salienta.

A próxima década não deve ser fácil

Na primeira metade da próxima década, Alexandre espera muitas dificuldades, com o avanço de aves de rapina sobre nossos direitos e poucas conquistas sociais, mas também com muita mobilização e resistência. E aí sim, a população vai parar de reagir aos ataques para propor uma agenda positiva e efetivamente popular e periférica.

“Grande parte das ações que ocorreram nos últimos 10 anos começarão a surtir efeito apenas nestes próximos 10 anos, com o amadurecimento de quem esteve na luta nesse período e com a chegada de novas gerações, trazendo novas questões”, acredita.

“A reviravolta da periferia pode ser ainda mais potente e irreversível”

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