Por Aline Rodrigues e Thiago Borges

No feriado da Paixão de Cristo (10/04), Maxuel de Melo Gadi precisou buscar um balde d’água na casa de vizinhos porque ficou com as torneiras secas. O cineasta da Fluxo Imagens mora no Jardim Piracuama (região do Campo Limpo, zona Sul de São Paulo) com a mãe e o irmão. “Faltou água meio-dia e ficou até a madrugada sem”, diz. No geral, a água por ali acaba depois das 22h e não afeta muito a família, que tem caixa d’água em casa. “Mas muitas pessoas são afetadas e ficam sem tomar o banho da noite”, complementa.

Essa situação era vivenciada por Katiane Patrícia Barbosa Gadi, cunhada de Maxuel, que não tem reservatório na sua residência: todos os dias, a água acabava à noite e o abastecimento só voltava às 04h. “Hábito de reservar água aqui em casa sempre tivemos, pra uma falta repentina”, conta ela, que mora com o marido na Vila Prel, próximo à estação Campo Limpo, e aguarda o fim da quarentena para retomar o trabalho em um quiosque de shopping.

Bianca Santana, pesquisadora de raça e gênero e militante da rede de cursinhos populares Uneafro, aponta que esse desabastecimento que potencializa doenças é característico do racismo ambiental, que segrega pessoas negras a viver em territórios mais vulneráveis aos acontecimentos climáticos – áreas de encosta ou várzeas, que são suscetíveis a desabamentos e alagamentos, muitas vezes em periferias e favelas.

“São as pessoas negras, infelizmente, que vivem nos territórios mais vulneráveis, que têm menos direitos e a urbanização está menos presente. A crise de abastecimento começa em algum lugar, que é justamente onde essas pessoas moram”

Bianca Santana

Ela salienta que a falta de investimento em saneamento básico tem impacto direto na prevenção ao coronavírus. “A primeira recomendação é lavar as mãos com água e sabão. Se nesses lugares muitas vezes não tem esgoto, saneamento básico, não tem água encanada ou não tem acesso a ela o tempo todo, como você vai lavar as mãos?”, questiona.

O que fazer? Informativo sobre “Direito à Água” elaborado pelo Observatório Nacional dos Direitos à Água e Saneamento (ONDAS), que reúne pesquisadores de várias universidades brasileiras, explica medidas que a população pode tomar na situação da pandemia – desde pedir isenção da tarifa mensal até pedir informações públicas sobre a situação. Clique aqui e faça o download.

Mapa da torneira seca

Atenta a isso, ainda em março a Coalizão pelo Clima iniciou um mapeamento de pontos em que falta água na região metropolitana de São Paulo. Para indicar onde falta água, preencha esse formulário. O movimento, que pauta os efeitos do colapso ambiental em diferentes territórios, identificou pelo menos 200 locais que sofrem com o desabastecimento que ocorre principalmente no período noturno, quando a Sabesp (companhia de saneamento básico) diminui a pressão da água que sai dos reservatórios.

O mapa abaixo foi elaborado por Denise Manfio, docente da Escola de Engenharia e Tecnologia da Universidade Metodista de São Paulo, com os dados obtidos pela Coalizão pelo Clima, cruzando outras informações como riscos de inundação e desabamentos, áreas de favelas e vulnerabilidade social, por exemplo.

A Coalizão também sinalizou a dificuldade para pessoas em situação de rua conseguirem se higienizar. Como resposta, a Sabesp e a Prefeitura de São Paulo devem instalar 10 pias na região central. Mas a Coalizão questiona, apontando a dispersão da população de rua pela cidade e a necessidade de garantir o abastecimento de entidades que acolhem e oferecem banho a essas pessoas.

Sobre o desabastecimento em determinados bairros, a Sabesp argumenta que são problemas pontuais e está buscando resolver localidade por localidade. Mais 100 pias também devem ser instaladas em favelas no período de um mês. E a companhia pretende distribuir 2.400 caixas d’água a famílias periféricas.

Articulada com o mandato da Bancada Ativista na Assembleia Legislativa de São Paulo, a Coalizão conseguiu que o Ministério Público movesse um processo. Em 07/04, a Justiça deu 72 horas para a Sabesp apresentar um cronograma para implementar medidas para sanar todos os pontos de desabastecimento de água, mas a liminar foi suspensa pelo presidente do Tribunal de Justiça na última quinta-feira (16/04).

Para o co-deputado estadual Fernando Ferrari, da Bancada Ativista, o mandato parlamentar vai tentar reverter essa decisão de alguma forma. Segundo ele, a falta de água é um processo de longa data e, em muitas localidades, se arrasta desde a crise hídrica de 2014 e 2015. “Antes da pandemia, muitos trabalhadores que saíam de casa às 05h da manhã tinham que tomar banho de caneca”, relata.

Com a emergência da pandemia, o cenário só se agrava. “É uma situação calamitosa, é uma violação em direitos humanos”, conclui Ferrari. Enquanto isso, na Vila Prel, a falta d’água cessou na casa de Katiane com o avanço da pandemia. Ela não sabe por quê, mas menos mal que seja assim.

Esse conteúdo faz parte da #SalveCriadores, uma iniciativa que a partir do apoio a coletivos e criadores de conteúdo das periferias de São Paulo vai trazer reflexões e dados sobre a crise da COVID-19 e seus reflexos nas populações negras e periféricas. O projeto, desenvolvido pela Purpose, busca reforçar o importante trabalho que vem sendo feito por criadores de conteúdo e trazer pontos de vista e perspectivas que ainda não foram levantados. Os coletivos que fazem parte dessa iniciativa são o Alma Preta, o Nós, Mulheres da Periferia, a Periferia em Movimento e a Rádio Cantareira. Os conteúdos serão publicados nos canais de cada coletivo e divulgados nas redes sociais do Cidade dos Sonhos.

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