Escrito por mulheres da Escola Feminista Abya Yala*

Há pouco mais de 1 ano, no início da noite do dia 6 de março de 2020, estávamos juntas na porta do Metrô Capão Redondo realizando um sarau ao ar livre. A habitual volta para casa depois de um longa jornada de trabalho havia sido transformada. Cartazes, cruzes, som e muita poesia foram usados para lembrar às mulheres periféricas que elas não estavam sozinhas e que juntas lutamos contra as diversas violências que atravessam nossas vidas.

Nós não sabíamos, mas ali seria nosso último encontro presencial de 2020. Poucos dias depois, a vida de todas nós e do Brasil inteiro se transformaria com a chegada do vírus da covid-19 ao País. 

Você também pode ouvir este texto no podcast Manda Notícias clicando abaixo:

Até então, nós da Escola Feminista Abya Yala organizávamos encontros mensais de estudos, conversas e acolhimento, onde buscávamos compreender o funcionamento dos sistemas que nos oprimem. Eram espaços de cura, fortalecimento e de buscar meios para atuar em nossos territórios. Por conta da pandemia, esses encontros foram interrompidos.

Mas, antes que pudéssemos ficar preocupadas com a impossibilidade de organizar nossos encontros, veio a preocupação maior com a fome que começava a ameaçar nossas famílias, vizinhos e amigos. Com isso, ainda no final de março, já nos organizávamos para apoiar os nossos da forma que podíamos. Coleta de alimentos doados por quem também não tinha muito, mas é solidária, vaquinhas e outras doações recebidas.

“Sozinhas não temos saída, mas juntas a gente se salva”: Além de cesta de alimentos, kit também é composto itens de higiene, ervas e panos de prato com mensagens fortalecimento (foto: divulgação Escola Feminista Abya Yala)

Cerca de 100 famílias chefiadas por mulheres constituíram uma planilha onde registramos cada incidente, cada criança nascida, cada luto, cada enfermidade. Famílias continuamente apoiadas com cestas básicas, atendimentos psicológicos e conversas amigáveis pelo celular. Assim, criamos novos vínculos e uma rede de apoio formada por mulheres periféricas.

Nunca tivemos escolha.

Mover-nos e organizar-nos nunca foi uma opção para nós mulheres pobres, pretas, indígenas, faveladas e periféricas. A escassez, a violência do Estado e a exploração de nossos corpos sempre nos deixaram a união como único caminho de sobreviver. Assim, o fazer juntas que ao longo de 2020 colocamos em prática é algo quase intuitivo. Algo que, de certa forma, está introjetado desde a infância em cada uma de nós e que aprendemos com a sabedoria de nossas mães e avós. Algo que compõe a nossa genealogia ao longo de séculos.

08032021_ 8 de março na periferia: escola feminista abya yala

Num mundo onde a única forma de conhecimento validada é a que parte da escola, da universidade e da escrita, foi na sabedoria analfabeta de nossas ancestrais que embasamos nossas práticas. Olhando para nossas avós benzedeiras, por exemplo, compreendemos que, diferentemente de uma concepção colonial, não é possível separar corpo, mente e espírito. Acreditamos, assim, que tudo passa por essa tríade e que nosso corpo-tempo é sagrado e precisa ser cuidado e olhado como parte integrante de nossa comunidade e do meio ambiente. Semelhante às nossas avós benzedeiras que às sextas-feiras abriam suas casas a toda comunidade para tirar quebrante, espinhela caída e cobreiro, com os conhecimentos que temos e da forma que podemos, vamos compartilhando, sendo apoio e sendo apoiadas.

Dessa forma, neste 8 de março, olhamos para a sabedoria de nossas mães e avós para construir um futuro em que os corpos, mentes e espíritos periféricos sejam livres de todo e qualquer sistema opressor. É na coletividade, no cuidado e no acolhimento que encontramos caminhos de resistência e existência com dignidade.

“Eles combinaram de nós matar e nós combinamos de não morrer” – Conceição Evaristo.

*A Escola Feminista Abya Yala é composta por Alines, Giseles, Helenas, Andreias, Silvias, Shirleys, Lígias, Elizabetes. A iniciativa realiza encontros de estudo e cuidado coletivo para fortalecimento principalmente das mulheres periféricas da Zona Sul da capital paulista. Com a pandemia de coronavírus, articulou doações e distribuição de cestas básicas, além de atendimento assistencial e psicológico a famílias mais vulneráveis

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