Por Thiago Borges

Servir café da manhã gratuitamente em restaurantes públicos e retomar a ideia de sacolões nos bairros. Promover espaços de convivência entre mulheres e garantir geração de renda a partir da vida nos bairros. Mapear terrenos na cidade, dar assistência técnica para “autoconstrução” e regular o preço dos aluguéis. Criar linhas de ônibus entre os bairros e potencializar pólos de desenvolvimento nas periferias.

Essas são algumas das 50 propostas que compõem a “Agenda propositiva das periferias”, um documento com 10 temáticas elaborado pelo Centro de Estudos Periféricos (CEP), formado por pesquisadores e pesquisadoras que vivem em periferias e que é vinculado ao Instituto das Cidades – o campus da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) na periferia da Zona Leste.

Em março, o grupo já havia divulgado 23 propostas para combater o coronavírus nas quebradas. A agenda atual ainda não está disponível para o público, mas o CEP tem feito debates públicos sobre os “Dilemas das periferias pensados pelas periferias” todas as quintas-feiras, às 19h, pelo youtube. Nesta semana, o encontro discute se as quebradas não acreditam mais em eleições.

Segundo Tiaraju Pablo D’Andrea, pesquisador do CEP e professor de Sociologia Urbana e Sociologia Cultural no Instituto das Cidades, a agenda tem 2 objetivos: pressionar o Estado a melhorar atuação nas periferias; e convidar a população a se auto-organizar. Apesar de extrapolar a pauta eleitoral, Tiaraju diz que a pesquisa foi procurada por diversos candidatos e candidatas a vereadores e prefeito de São Paulo no pleito municipal que acontece em novembro deste ano.

“Se alguma candidatura quiser utilizar, a gente concorda e acha importante para incidir nas políticas públicas”, observa Tiaraju. “Mas muitas das propostas são pra própria população se organizar nas quebradas”, reforça.

De baixo para cima

Na avaliação de Tiaraju, a população das periferias tem participado pouco das decisões políticas. “Antes, se pensava numa creche boa pra todo mundo, numa praça para todos os moradores. Hoje, isso diminuiu de frequência, de tamanho e acontece em determinados nichos”, analisa.

Entre esses locais de participação, estariam as igrejas (principalmente), os coletivos de cultura, os movimentos sociais e, com pouca aderência, os partidos políticos. Uma novidade, desencadeada pela necessidade da pandemia, é o surgimento ou fortalecimento de redes de solidariedade – mas é preciso entender se elas vão se sustentar no futuro próximo.

“A população, no geral, tá discutindo pouco o seu entorno. Os vizinhos vêm se encontrando pouco para discutir coletivamente a solução dos problemas”, explica Tiaraju.

Por isso, as propostas que ampliam a participação política e possíveis transformações da vida na cidade foram elaboradas a partir das quebradas.

Fundado oficialmente em maio de 2018, o CEP reuniu 32 pesquisadores e estudantes para realizar essa agenda. Elas e eles partiram das próprias experiências acumuladas ao longo das próprias vidas para elaborar o documento. A partir disso, se debruçaram em livros para entender o processo de “periferização” da cidade de São Paulo e partiram a campo para entrevistar outros moradores de periferias.

A partir daí, a pesquisa apresenta sugestões organizadas em 10 eixos temáticos: cultura, gênero, habitação, transportes, educação, participação popular, genocídio e violência, infâncias, saúde e trabalho.

“A periferia deve se reunir, se reforçar e ter um projeto político para que alcance os espaços de poder”, completa Tiaraju.

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