Foto: Tania Rego / Agência Brasil

50 mil homicídios por ano: Até quando o genocídio vai parecer natural?

Com toda razão, ficamos chocados com os ataques do Estado Islâmico no Oriente Médio ou à redação do jornal francês Charlie Hebdo, os assassinatos de cidadãos por policiais norte-americanos ou a violência do governo venezuelano contra manifestantes.

Mas… e a nossa tragédia? Além de familiares e amigos, quem mais chora pelos mortos brasileiros?

Anualmente, mais de 50 mil pessoas morrem vítimas de homicídio no Brasil – mais da metade tem entre 15 e 29 anos, e desse total 77% são negros. Boa parte deles vive nas periferias das grandes cidades.

Com esse genocídio que atinge “preferencialmente” a juventude pobre, preta e periférica, o País lidera o vergonhoso ranking mundial de homicídios e responde, sozinho, por 11% das mortes do tipo que acontecem no planeta, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU).

Ainda assim, tudo parece natural. Por quê?

“Sabemos quem morre, onde morre, que horas morre e sabemos também quem mata. Os homicídios têm cor, raça, residência e idade, portanto mais de 50 mil brasileiros mortos em um ano não ser motivo de discussão só pode ser uma escolha política de um governo que abraçou o capital como seu e o defende como poucos defenderam, inclusive fazendo alianças políticas para isso”, responde Marcio Bhering, articulador do Centro de Direitos Humanos e Educação Popular (CDHEP) do Campo Limpo.

“O Brasil é repleto de grupos interessados nos produtos políticos de uma relação subalterna com o capital internacional, cuja contrapartida é o controle violento das classes populares, pretas, pobres, das quebradas, e a dominação cada vez mais ampla do processo de comunicação”, completa Rodolfo Valente, do Instituto Práxis Direitos Humanos, para quem a mídia tem grande responsabilidade na naturalização do genocídio.

“A violência policial, o encarceramento em massa, o papel da mídia, tudo está relacionado ao controle e à sociedade que nós temos, que deseja o lucro e a concentração de renda”, complementa Alderon Costa, ouvidor-geral da Defensoria Pública do Estado de São Paulo. “A grande imprensa, formadora de opinião, não está preocupada com as mortes. Nesses programas policialescos, por exemplo, os apresentadores nunca ficam do lado das pessoas expostas, mas sim da ação da polícia”.

“Hoje em dia, para a classe dominante, infelizmente tem vida que é história e tem vida que é número”, complementa Cristina Uchôa, assessora da Ouvidoria da Defensoria Pública.

A jornalista Juliana Gonçalves, militante da Marcha das Mulheres Negras, lembra que a as mortes dos jovens negros sempre foi pauta da comunidade. O Movimento Negro Unificado, por exemplo, surge em 1978 já com campanhas sobre isso.

“Mas há ainda hoje uma naturalização da condição violenta que o corpo negro é submetido. Como o Racionais canta, ‘me ver pobre, preso ou morto já é cultural’. São anos propagando uma ideologia higienista, racista e classista que diz que são nas favelas, comunidades, bairros periféricos que está o ‘mau’ da sociedade”, indica Juliana. “A mudança no quadro, que veio para tornar público o que sabíamos [mortes causadas por policiais], só foi possível graças aos celulares que nãos mãos do povo se transformam em armas e ao movimento pressionando nas ruas”, continua.

Essa invisibilização está na constituição do próprio povo brasileiro, como aponta Maria José Menezes, integrante do do Núcleo de Consciência Negra da Universidade de São Paulo (USP).

“Nos formamos enquanto País pela violência, por meio do genocídio e escravização de indígenas e africanos. A violência tá incutida e esse racismo se perpetua, porque a própria manutenção das elites depende disso”, nota Maria José.

Esse processo histórico secular acompanha a rapper Tati Preta Soul desde pequena.

“As formas com que o racismo vem se manifestando matam nosso povo há muitos anos, não apenas a tiros, mas sim no simples fato de caminhar na rua e já ser julgado antes mesmo de abrir a boca, na infância de meninos e meninos que sofrem por terem cabelos crespos e pele negra”, salienta Tati, que integra o coletivo de cultura negra Abayomi Aba, no Extremo Sul de São Paulo.

Militantes são categóricos: é o racismo impede que a indignação da sociedade brasileira com o genocídio negro. “A vida do jovem negro importa menos, pois quem está morrendo é visto como suspeito em potencial”, observa Caroline Amanda Lopes, membro do Fórum de Juventude do Rio e integrante da campanha Reaja ou Será Morto, Reaja ou Será Morta.

Nem mesmo alguns movimentos de esquerda debatem esse massacre, segundo o rapper Pirata, do Fórum de Hip Hop de São Paulo. “Não ocorre o debate porque muitos movimentos são formados por pessoas de classe média e não tem como não fazer recortes de classe. Quando se faz esse recorte, fica muito óbvio porque não falam: porque falar de genocídio é falar de racismo. E o Brasil faz de tudo pra não discutir racismo”, diz.

Entre os caminhos para furar esses bloqueios e minar os privilégios de quem se beneficia com o racismo, os militantes apontam para a organização e pressão de movimentos sociais, a cobrança de órgãos fiscalizadores como o Ministério Público e a visibilização dos casos de violência com apoio de mídias alternativas.

Um pequeno mas importante passo foi tomado com a recente instalação da Comissão da Verdade da Democracia na Assembleia Legislativa paulista, que vai investigar crimes cometidos por agentes do Estado desde a redemocratização do País nos mesmos moldes que a Comissão Nacional da Verdade examinou os casos de tortura, desaparecimentos e mortes durante a ditadura militar.

“Desde a resistência e a luta das herdeiras e herdeiros da tradição do povo preto massacrado, como as Mães de Maio, o Reaja, a Rede de Comunidades do Rio, a Amparar, entre outros, essa tragédia repetida por séculos já está sendo discutida, denunciada e enfrentada, apesar das várias resistência”, aponta Rodolfo. “É um movimento ascendente e incontornável, pautado pelo horizonte de uma vida desmilitarizada, sem grades e massacres”.