Revolução de mulheres negras no Extremo Sul de São Paulo

Colaboração de Jessica Balbino | Fotos:  Wilton Sadiki

Mjiba: a presença e a ancestralidade africana se fizeram presentes durante todo o domingo (4) no CEU Três Lagos, no bairro Grajaú, extremo Sul da capital paulista. Por entre turbantes, tecidos coloridos e muita negritude, é possível sentir o contágio da própria história, narrada por personagens que deixaram de ser coadjuvantes e passaram a ser protagonistas. E mais: revolucionários.

Seja pelos trajes, pelos turbantes, por grifes exclusivas para as muitas ‘Mjibas’ ou ainda pelas histórias de princesas africanas, embalada pelo som único dos tambores. Para o público presente, esta foi a oportunidade de conhecer mais sobre a cultura negra. “O evento foi muito interessante, já que demonstrou vários segmentos que a mulher negra está inserida e realiza papeis muito importantes, como gestão de marcas de roupas, publicação de livros e trabalhos autorais no segmento musical”, comentou o profissional de informática Willams Santos.

Ponto para a organização, que encantou também as mulheres negras, que já acompanham o evento, como a psicólogaLucila Isabel Faustino. Acompanhada pela filha Manu, de apenas 2 anos e meio – que se divertiu com as atividades feitas para crianças – ela acompanhou todo encontro.

“Eu já conhecia, mas é uma iniciativa muito boa, já que é um fortalecimento e contribui muito para que a população negra se atente às próprias questões, que são muito válidas. Outra característica bacana do Mjiba é que ele acontece na periferia, onde existem muitos negros, mas que não tem acesso à própria cultura. E mais, acontece em um espaço público, de convivência. É fantástico”, destacou.

Programação infantil

As aventuras personalizadas dos palhaços carteiros: Torradinho e Candango roubam a cena. Sentadas, as crianças fazem o silêncio de uma plateia adulta, que só interrompido pelas gargalhadas e suspiros da mensagem deixada: mesmo morta, uma Mjiba pode ser vista em toda jovem mulher revolucionária.

Na sequência, Kiusam embalou os presentes com as lendas das princesas africanas e discursou, não de forma professoral, mas de maneira prática, sobre as histórias infantis inclusivas.

Momento poético

Como não poderia deixar de ser, além de sorteio de exemplares de livros que tratam exclusivamente de negritude, Rose Doera, representando a Cooperifa, declamou uma de suas poesias mais famosas, em que demonstra toda a força da ancestralidade.

Na sequência, Tiely Queen declamou um texto especial feito sobre a história que inspirou o livro e o filme Preciosa e, como uma joia rara, brincou o público com o talento afirmativo da mulher negra e foi complementada por Tula Pilar, que declamou belezas do corpo feminino.

Grifes exclusivas

Há um ano, Michelle Fernandes  apostou no sonho: ser empreendedora da própria grife. Nascia assim a Boutique de Krioula, que trabalha exclusivamente com turbantes e acessórios femininos. “Eu achei que passaria a vida inteira sem fazer nada para o próximo, para uma mulher negra como eu e quando eu fui demitida do escritório, vi a oportunidade de trabalhar com que eu realmente gostava”, contou, durante um debate sobre empreendedorismo, que pautou a moda negra no encontro.

Ainda de acordo com ela, a questão dos turbantes reforça a desmistificação de que o tecido não é apenas um pano. “Não é apenas um tecido na cabeça. É uma coroa de uma rainha negra”

Já Marilene Raquel da Silva Lemos, da grife Deeanto – neologismo da palavra ‘adianto’ – conta que por estar acima do peso e não se sentir representada pelas grifes do mercado, resolveu encabeçar o projeto, que espalha estampas referentes à cultura negra. “A minha vontade surgiu em 2010, quando percebi que não me sentia bem com as roupas que eram oferecidas, tampouco representada”, pontua.

Assim, ela montou durante o evento um estande, onde exibiu um resgate da cultura afro-brasileira por meio da informação. “É uma forma de valorizar a cultura, já que as pessoas às vezes não conhecem determinada personalidade da nossa ancestralidade, mas gostam da estampa e a partir daí pesquisam, se informam, procuram saber”, diz.

A grife Xongani, representada por Ana Paula, também esteve presente durante o debate, quando ela falou sobre os tecidos africanos, os turbantes e o empreendedorismo cultural.

Musicalidade negra

Em um evento em que valoriza o dia da mulher negra, nada melhor do que cantoras como Janine Mathias, acompanhada pela Dj Vivian Marques e Izzy Gordon (foto em destaque) embalaram o encontro, com canções que reforçam a feminilidade.

“É muito bom estar aqui, neste evento. O CEU permite tudo”, disparou Janine Mathias entre uma música e outra.

Já Izzy Gordon, com releituras de Dolores Duran e Tim Maia, além de clássicos autorais, animou a noite e se disse emocionada. “Estou feliz, estou sem palavras. Nós mulheres estamos aqui, lado a lado, cada qual com seu talento e eu estou passando um pouco do que Deus me deu. Agradeço muito por esta oportunidade que serve de inspiração para todos nós. É uma causa maravilhosa”, pontuou.

Por último, os tambores de maracatu do Umoja encerraram o evento e vibraram com todo o público, que pode subir ao palco e dançar com eles, além de fazerem um cortejo com os presentes, saindo do teatro onde aconteceram as atividades e indo para a área externa do pátio, onde foram acompanhados pelos presentes e o final ficou com gosto e clima de quero mais.

“Foi maravilhoso. Eu não sabia muito sobre a ancestralidade e passei a conhecer mais a minha própria história. A organização do evento está de parabéns”, disse o poeta e rapper Luiz Paulo.