Bananas e torcida “gourmet” no futebol: Racismo não faz gol. É falta! Jogadas racistas no futebol, naturalizadas, seguem impunes pela lei da vantagem

Por Mariana Caires

O Brasil, visto de fora, é o país do futebol e da miscigenação. Essa é a imagem que transparece para o mundo, mas quem vive essa realidade sabe que não passa de um conto bonito “pra inglês ver”, assim como foi a abolição da escravatura em 1988. O jovem negro da periferia desde cedo aprende que a mistura de raças no seu país implica em cada um ocupar seu devido lugar. Para ele, o terrão do bairro e a bola de latinha amassada são o começo da caminhada rumo ao sonho de, como o ídolo Neymar, conquistar um novo espaço.

Além de ser uma possibilidade (bem difícil e seletiva) de ascensão social ao negro e negra da periferia, o futebol é lazer. E assim como jogar, torcer também sempre foi uma manifestação cultural tratada de formas diferentes a depender da sua cor, classe e gênero.

“Racismo é a chave de compreensão para vários fenômenos sociais”, muitos que às vezes nem se imagina, explica Silvio Luiz de Almeida. “Vivemos num país que vem do trabalho escravo, e isso está na base das hierarquias que fazem a economia e a política funcionar, que fortalece um Estado que prende e mata a juventude negra”.

Garrincha, Pelé e Djalma Santos comemoram gol do Brasil na copa de 58. Foto: Reprodução.
Garrincha, Pelé e Djalma Santos comemoram gol do Brasil na copa de 58. Foto: Reprodução.

Ter uma carreira no futebol não é só questão de talento, mas de oportunidade, e é aí que o racismo entra em jogo. Nuno Coelho é Membro do Conselho Nacional de Igualdade Racial, e mostra que, apesar de documentos importantes como o Estatuto da Igualdade Racial, o racismo se reestrutura a cada dia e nos atinge pela internet, pela televisão, e atinge o esporte.

“O racismo se apropria de um dos elementos de maior sensibilidade e popularidade da população brasileira, que é o futebol”, diz Nuno. Jogar bananas a atletas em campo, que por um momento se tradicionalizou, atinge e impacta os jogadores, os que estão no estádio e os que veem de casa.

Agregar o esporte à luta contra o racismo é essencial, acredita: “É preciso criar uma barreira contra o racismo no esporte, e a ação do Corinthians é muito importante nisso, inclusive por ser o maior clube brasileiro que conta com a maior população de periferia do país, e por isso, o instrumento de comunicação que o Corinthians tem é imenso”.

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Para discutir o papel do negro na história do Corinthians e o racismo, em homenagem ao Dia da Consciência Negra, o Núcleo de Estudos sobre o Corinthians (NECO), lotou de camisas alvinegras o Teatro Omni, no Parque São Jorge. Na mesa, Anderson Moraes, ativista da Rádio Resistência e Pesquisador do NECO, coordenava a troca de passes entre negros envolvidos com a história do clube e com a luta pela consciência negra no país.

Estavam também no debate André Luiz de Oliveira, vice-presidente do Corinthians, Juarez Xavier, professor e comunicador, José Carlos Pereira, sociólogo, e a ativista e jornalista Conceição Lourenço. Convidado de honra, aplaudido por sua luta na Democracia Corinthiana, estava Wladmir, o homem que mais jogou com a camisa do Corinthians. Vestiu a camisa alvinegra por 806 vezes, de 1972 a 1985.

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“O racismo é naturalizado no Brasil, tanto que uma mesa de intelectuais negros causa certa estranheza, pois há saberes que negros não podem exercer tradicionalmente. Subjacente ao discurso ‘olha onde você chegou’, está a ideia de que ali não é lugar para negros”, afirma Silvio Luiz de Almeida. Foto: Mariana Caires

Em 1958, o Brasil tinha Pelé, Garrincha, Didi, e não ganhou a Copa do Mundo, apesar de ser reconhecido como um dos melhores times de todos os tempos. As críticas? “Se dizia que nunca ganharíamos uma Copa do Mundo porque não tínhamos o senso de organização europeu”, conta Silvio. Seu pai, o goleiro Lourival, recebeu no Corinthians o apelido de Barbosinha, outro goleiro negro, com o estigma de algumas falhas que cometeu.

Quando, em 2005, Chico Anísio diz em rede nacional que não confia em goleiros negros, legitima todo o preconceito que atingiu as carreiras de Barbosa, Barbosinha, Dida (que em 2006 foi o primeiro goleiro negro titular da seleção depois de 56 anos do Maracanasso), e mais recentemente, a de Jefferson.

*Mais sobre o estigma dos goleiros negros no texto de Djamila Ribeiro.

 

A torcida é preta, pobre e periférica, mas e as arquibancadas?

Desde que a “Geral” do Pacambu foi trocada pelas cadeiras brancas da Arena Corinthians, o público que acompanha o time é cada vez mais seletivo. Se só cabem 45 mil pessoas no estádio, o que seleciona sua entrada é o dinheiro, como disse o vice-presidente do clube. “Estamos todos os dias nas periferias, realizamos muitas ações sociais”, conta.  Mas a relação do futebol de elite com a periferia tem sido afetada.

Se a torcida do Corinthians nasceu predominantemente negra e periférica, há um contexto histórico que explica isso, explica Juarez Xavier. Para o professor, “o Corinthians trouxe representatividade ao povo negro das periferias”, e por ser o time do povo, foi atingido pelo marcador social perjorativo, de time de maloqueiros, enquanto que outros se autoafirmavam como times de elite. O marcador do “corinthiano, maloqueiro e sofredor” causou identidade com a população periférica, fez da torcida o que ela é.

elisaComo não citar Dona Elisa, torcedora símbolo do Corinthians por tantos anos? A mulher empregada doméstica, negra e da periferia foi figura responsável por grande parte da torcida feminina. “Faço parte do grupo de mulheres negras acima de 50 anos filhas de empregadas domésticas e corinthianas, que sofriam pelos jogos, lutaram contra o racismo diariamente e contra o machismo”, conta Conceição Lourenço.

Quem assiste a um jogo de futebol pela TV, pode perceber o enbranquecimento das torcidas que vão aos estádios. Se Donas Elisas e suas famílias não ocupam as arquibancadas, o que o time acha disso? O discurso da diretoria, dito pelo José Carlos Pereira, primeiro vice-diretor negro do clube, é de que “para o Corinthians ser do tamanho que é, precisamos girar economia”, mas é por aí que começa a exclusão. Os ingressos cada vez mais caros elitizam o futebol brasileiro, e o “bando de loucos”, que estampa as camisas, tem que se virar pra ver o time ser campeão.